Maconha sem dúvidas

O consumo da maconha é proibido por lei. Além de esta certeza, muitas dúvidas existem a respeito do uso da droga. Afinal, maconha causa ou não causa dependência? Queima ou não queima neurônios? Causa ou não causa câncer de pulmão? Para tirar essas e outras dúvidas mais comuns, conversamos com a doutora Regina Lucia Moreau, professora da Universidade de São Paulo e membro da Sociedade Brasileira de Toxicologia. Veja o que ela nos contou:

Quais são os efeitos mais comuns da maconha?

Quando se fuma um cigarro usual de maconha (considerar um cigarro com 500 mg da erva, contendo de 1 a 2% de THC - ou seja, equivalente a cerca de 5 a 10 mg de THC) são observados os seguintes efeitos de caráter geral:

Período inicial de euforia – há uma sensação de bem estar e felicidade, seguido de relaxamento e sonolência. Quando os usuários se encontram em grupo a sonolência é menos pronunciada e freqüentemente ocorrem risos espontâneos.

Perda da discriminação de tempo e de espaço – o tempo passa mais lentamente e as distâncias parecem muito maiores do que realmente são. Por isso, dirigir sob o efeito da maconha é muito perigoso.

Coordenação motora diminuída - há uma perda do equilíbrio e estabilidade postural, efeitos estes mais evidentes quando os olhos estão fechados. Também ocorre uma diminuição da força muscular e firmeza nas mãos.

Falha nas funções intelectuais e cognitivas - o pensamento fica mais rápido que a capacidade de falar, dificultando a comunicação oral e a concentração. Atenção, percepção, lógica, continuidade e clareza do pensamento são prejudicadas.

Outros efeitos comuns – olhos vermelhos, devido à dilatação dos vasos sanguíneos da conjuntiva, e aumento do apetite com secura na boca e garganta.

A droga causa dependência física e psicológica?

“A dependência é uma doença, que atualmente não é mais classificada como física ou psicológica. Drogas, sexo ou chocolate, não importa: a doença é a mesma”, explica a doutora Regina Lucia Moreau. “A maconha tem potencial de induzir dependência, mas é menor do que o do tabaco. Ou seja, é mais fácil uma pessoa se tornar dependente do tabaco do que da maconha”.

É verdade que a maconha "queima" neurônios?

Segundo a médica, não é verdade que a maconha “queima” neurônios. “Mas é fato consumado que a droga prejudica a memória recente”, afirma. Ela dá um exemplo: “uma telefonista de PABX, sob a ação da maconha, ficava incapaz de conectar os pinos nos números certos, pois os esquecia logo após ouvi-los pelo fone. Isso só acontecia quando ela estava sob efeito da droga”.

Os sentidos ficam mais “aguçados” sob o efeito da droga?

“Segundo diversos cientistas, a maconha diminui os reflexos medulares polissinápticos, retardando a transmissão de estímulos. Ocorre um sentido mais agudo da audição e da visão, com muitas distorções. Os sentidos não dominantes (tato, paladar e olfato) também parecem aumentar”, explica. “Ainda assim, a maconha diminui a empatia e a percepção das emoções nos outros”.

É comum usuários sentirem taquicardia?

“É um efeito bem característico e é dose dependente, isto é, o aumento da velocidade cardíaca é proporcional à dose, podendo chegar até a 140 batimentos por minuto”, diz a doutora Regina Lúcia. E a batedeira não acontece só com quem fuma frquentemente: “Acontece tanto em usuários freqüentes como ocasionais”, diz a doutora.

Por que os efeitos variam de pessoa para pessoa?

Cada um vai reagir de acordo com sua personalidade e de acordo com elementos como a idéia de sua mesmo, a criatividade, o poder de vontade, a tensão psiquíca, o ambiente social, etc. Além disso, o efeito vai depender da técnica que a pessoa usa para fumar e também do tipo de maconha (algumas têm concentração de THC maior que outras).

A suspensão do consumo traz algum tipo de síndrome de abstinência?

“Depende da dose, freqüência e duração do uso da droga”, diz a médica. No entanto, de acordo com a especialista, mesmo quando o uso é intensopor exemplo, um cigarro por dia durante duas ou três semanas, os sintomas de abstinência são relativamente leves na maioria das pessoas.

É possível ter uma overdose de maconha?

“Quando uma pessoa está exposta a uma dose alta da droga, pode ter alucinações, ilusões e paranóias. Se as doses forem ainda mais altas, o quadro clínico é de psicose tóxica aguda”, conta a doutora Regina Lúcia. A quantidade que pode provocar essa overdose varia de pessoa para pessoa.

Como a droga atua no cérebro?

“O princípio ativo da maconha é o delta-nove tetra-hidro-canabinol (THC). Os efeitos do THC ocorrem através de receptores específicos para THC, que são numerosos no sistema nervoso central e atuam sobre o equilíbrio, movimentos e memória”, afirma a médica. “O THC também atua indiretamente no sistema de recompensa do cérebro, com liberação de dopamina, importante para o desenvolvimento da dependência”.

O risco de câncer no pulmão é maior ou menor que o causado pelo tabaco?

“Há uma idéia generalizada de que fumar maconha é menos prejudicial aos pulmões do que fumar tabaco, mas isso não corresponde à realidade. Fumar de 3 a 4 cigarros de maconha por dia equivale a fumar mais que 20 cigarros de tabaco, porque o pulmão do fumante de maconha recebe uma carga líquida de material particulado cerca de quatro vezes maior do que o fumante de tabaco”, explica a doutora Regina Lúcia. “A dinâmica de fumar os dois tipos de cigarros é diferente. A maconha é fumada com um volume de tragada 2/3 maior, volume de inalação 1/3 maior e com um tempo de retenção da fumaça quatro vezes maior do que os valores considerados para o tabaco”.
 

[Por Carlos Augusto Gomes - IG JOVEM 19 de agosto de 2004. veja matéria com fotos]
 

Cartas

    Estimado Gustavo;
    Sou visitante e assinante de seu site há muito tempo, faço de suas matérias uma arma para propagar cultura e consciência para muitas pessoas, sou visitante assíduo e divulgador constante do site e mais do que isso, sou um admirador de seu trabalho. Porém desta vez me foi impossível ficar em silêncio, sou um crítico como você e um leitor por vício, existem alguns assuntos aos quais me interesso há muitos anos e conseqüentemente me aprofundei nos mesmos. Após ler essa matéria da Dr. Regina fiquei completamente surpreso ....Dentre tantos profissionais, estudiosos, e pessoas que poderiam lhe dar uma informação mais completa, buscastes justamente aquele "lado social" que tanto criticamos no "consciência".
    Em nenhum momento desprezo as informações da Dr. Regina, entretanto quando falamos de cannabis sativa devemos falar de história, devemos falar de comportamento social e devemos falar das experiências vivas que possuímos sobre o assunto.
    Foi uma abosdagem vaga, e focalizada à fisiologia humana, porém, sem nenhum exemplo ou fonte que possamos agarrar como alicerce, mais uma vez deixo claro que não futilizo as palavras da Dr.Regina, a cannabis sativa tem contribuido de forma fenomenal na história da humanidade, e é razão da existência de paz em diversos povos do mundo, assim como é também um grande perigo social para as classes dominantes porque a história ja provou que seus usuários pensam, e muitas vezes de forma mais crítica e inteligente do que os anti-cannabis.
    Não quero me estender afinal, não tenho o intuito de mudar nada, apenas gostaria de mostrar-lhe a minha insatisfação (e a de muitos) em relação a essa matéria, que apenas contribuiu para aqueles que tanto criticamos.
    Se desejar discutir alguma coisa sobre cannabis de forma construtiva, então que venhamos a discutir a maneira de usar, as fontes de onde provem, as variáveis naturais de pessoas que podem e as que não podem usufruir dos benefícios gerados pela cannabis, as suas origens, os "porques" de dizer sim ou dizer não. Simplesmente acho que efetuar uma condenação vaga como foi feita nesta matéria é lamentavel.
    Espero que não venhas a me interpretar mal, entretanto justamente por lhe ter admiração, me achei na obrigação de expressar a minha e a de diversas pessoas, opinião.
    Um grande abraço 

Axl, 22/12/2004


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