A Angústia da Madrugada

Por Fernando Radin Bueno

“O homem está condenado à liberdade”
Sartre.


Lá se via mais um dia da minha vida, mais um dos incontáveis desperdícios praticados pela minha falta de sentido, mais uma página virada no livro da vida, escrito em javanês para um orador cego. Mas o que será que eu estou fazendo aqui?! Serei obra de um maquiavélico plano divino ou mero fruto do acaso, produto de poeira estrelar? O complicado não é levar o homem a Marte, difícil sim é compreender o que um bando de macacos pelados está fazendo num planeta como a Terra quando poderia estar em bilhões de outros. Habitamos literalmente um grão de areia na praia, somos uma célula do sistema nervoso universal. Questões simples, de grosso calibre, capaz de abrir um rombo na minha alma do tamanho de minha angústia.

Já chorei muito, já chorei demais; hoje já não vejo mais motivos pra chorar, pois já não vejo mais motivo pra nada. Serei eu mais um elo na cadeia alimentar ou mais um número nas estatísticas do IBGE? Preocupantes são os paradoxos da modernidade, nos mantém inertes em nossa própria omissão, sufocando-nos em nossa própria covardia. Sinto que minha percepção da beleza do mundo está cada vez menor. Com os valores se invertendo devido à apreciação crescente do efêmero e do superficial pela sociedade minha sensibilidade ao belo se encontra sufocada. Quando digo belo quero expressar o íntimo, não somente a beleza interior, mas o complexo do simples, o lindo do dia a dia que nos é tirado pela burocracia cotidiana.

Acredito que a angústia da existência deriva da impossibilidade de sermos nós mesmos; os objetivos impostos pela sociedade muitas vezes não condizem com nossos objetivos pessoais e, como a corda sempre arrebenta do lado mais fraco, somos levados a nos negar para manter o chamado “status quo”. Mas afinal o que é o “status quo”? Quando foi que nos sensibilizamos com ele? A filosofia começa com o susto, ou seja, com o impressionante, com a complexidade de temas simples, face a face com os mistérios da natureza. O ser humano se vangloria de ter o primado da razão, o adjetivo áureo abençoado por Deus, mas será a racionalidade boa ou má? Atributo divino ou maléfico? Se colocarmos a razão em uma balança e analisarmos os prós e contras derivados de seu uso, poderemos chegar ao infeliz impasse: Ou a razão está nos levando para o buraco ou nós é que não sabemos usá-la.

Sartre acreditava que somos todos atores em uma peça; porém, nossa angústia reside no fato de não sabermos qual é a peça nem nosso papel ou nossa fala no contexto, somos apenas arremessados ao palco e deixados à própria sorte dos acontecimentos, estando a realidade muito aquém de nosso controle ou compreensão. A improvisação então se faz necessária, o jazz começa a tocar e é a minha vez de solar. Apesar de nunca ter tocado saxofone nem saber ler uma partitura de música sei que minha existência depende totalmente desse momento, o sentido de minha vida reside em quatro compassos; um instrumento que será a extensão de minha consciência, uma desconhecida dormindo em minha cama, um elogio de alguém que não me conhece.

Não é fácil tentar se encontrar nos dias de hoje, nunca foi. Muita gente morreu queimada por defender opiniões próprias, queimadas por dogmáticos, que acreditavam ter a verdade em sua mão direita enquanto ostentavam e exibiam com orgulho a tocha com a esquerda. Se a verdade é tão bela e tão profunda assim não pode ser alcançada somente com meia dúzia de preceitos, não seria tão prazeroso tê-la nas mãos abdicando de si mesmo.

Uma lenda conta que, depois de haver criado a raça humana, os deuses entraram em uma discussão a respeito de onde esconder as respostas para as questões da vida, para que os homens se vissem forçados a procurá-las.

....Podemos escondê-las no topo de uma montanha. Eles nunca irão procurar lá. disse um deus.
....Não, disseram os outros Eles logo as encontrarão.
....Podemos ocultá-las no centro da terra. Eles nunca irão procurar lá - sugeriu outro deus.
....Não disseram os outros Eles logo as encontrarão.
....Então outro deus disse:
....Podemos escondê-las no fundo do mar. Eles nunca irão procurar lá.
....Não disseram os outros Eles logo as encontrarão.
....Todos se calaram...
....Depois de algum tempo outro deus sugeriu:
....Devemos colocar as respostas às questões da vida dentro dos homens. Eles nunca irão procurar lá.

....E assim fizeram... A resposta está na ponta do nariz... me sinto melhor agora, mas a música ainda não parou de tocar...
 

Texto enviado pelo próprio autor, Fernando Radin Bueno, em junho de 2004 e publicado nas seções “Ensaio dos Leitores” e “Filosofia” da revista CONSCIÊNCIA.NET em dezembro de 2004.

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