| Baixas
Luis Fernando Verissimo, O Globo, 25 de novembro, 2004 Abraham Lincoln elogiou o desempenho do general Ulysses S. Grant no comando das forças do Norte contra o Sul, na Guerra Civil americana, porque, entre outras virtudes, Grant estava disposto a “enfrentar a aritmética”, ou o número de baixas necessárias para atingir os objetivos da guerra, que no caso foi uma carnificina. Num plano um pouco menos sangrento, disposição para “enfrentar a aritmética” é uma das qualidades exigidas para quem deve seguir a receita monetarista no comando econômico de um país com o país se deteriorando à sua volta. A aritmética com que a ortodoxia precisa conviver no Brasil é a da miséria renitente, da crescente emergência social nas ruas, da guerra de morte pela terra — enfim, das nossas baixas na campanha por respeitabilidade fiscal, já que a única moral que parece interessar é a moral contábil. Ninguém é insensível ao custo social da opção pela austeridade, mas aceitar a sua inevitabilidade é aderir à ética peculiar do mercado financeiro, que exclui todas as outras. Como os objetivos do modelo, em tese, são claros, a retórica com que o defendem é convincente e não há alternativa viável, ainda mais depois que a própria esquerda brasileira ao chegar ao poder declarou que não era de esquerda, a aritmética é — como decidiu a maioria do PT na sua última reunião — tolerável. O bom da aritmética é que ela é feita com números. No caso de baixas, é só esquecer que a cada número corresponde uma vida e você também pode ser um general vitorioso ou um economista neoclássico. Foi tristemente adequado que
se falasse e escrevesse tanto sobre a alternativa à receita monetarista
nas elegias ao Celso Furtado, que mais do que ninguém representava
o caminho não tomado pelo atual governo cooptado, e que teses descartadas
viessem envoltas na melancolia resignada de últimos adeuses. Alternativas
desprezadas só sobrevivem como nostalgia, oportunidades perdidas
só voltam como lamento. O que Celso Furtado simbolizava já
tinha sido enterrado antes dele, e contabilizado como apenas outra baixa
da campanha.
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