FHC prega subserviência
externa
Causa espanto o ex-presidente FHC pedir “agressividade” à política externa atual. Justamente ele que sabotou o Mercosul, puniu o atual secretário-geral do Itamaraty quando ele se opôs à Alca e teve um ministro que tirou os sapatos num aeroporto dos EUA. Por Emir Sader, 26/11/2004, da Agência Carta Maior“Sobre o que não se pode falar, se deve calar” (L. Witgenstein) O ex-presidente FHC deveria se calar, especialmente quando se trata de política internacional. Para encontrar um governo tão subserviente aos EUA, será necessário retroceder até os tempos do ditador Castelo Branco, quando o ministro de Relações Exteriores Juracy Magalhães expressou sua frase lapidar: “O que é bom para os EUA, é bom para o Brasil”. Muito cedo se pôde conhecer a “relação carnal” de FHC com o então presidente estadunidense, que mandou seu principal assessor em campanha eleitoral para ajudar-lhe na campanha eleitoral brasileira de 1994. Ao longo dos dois mandatos, FHC levou o governo brasileiro a apoiar, em todos os planos – econômico, político, militar – o governo dos EUA. Washington nem precisou se preocupar com o Brasil, pelo alinhamento automático que recebia de FHC. Essa subserviência chegou a seu ponto máximo quando o último ministro de Relações Exteriores declarou que os ataques de setembro de 2001 em Nova York teriam sido “mais importantes do que a queda do Muro de Berlim”, enquanto o ex-presidente, confirmando sua capacidade analítica, entrava na onda midiática e afirmava que “havia começado a terceira guerra mundial”. Para complementar a atitude indigna, esse ex-ministro de Relações Exteriores se submeteu a tirar os sapatos para ser registrado em um aeroporto estadunidense. Esse ex-presidente vem agora criticar a atual política externa brasileira, dizendo que lhe falta “agressividade”. Que “agressividade” deseja o ex-presidente? A de sabotar o Mercosul, como fez o seu governo, com grande “agressividade”? A de substituir o atual embaixador brasileiro na Grã-Bretanha por não se submeter aos desígnios belicistas do governo estadunidense? A de punir o atual secretário-geral do Ministério de Relações Exteriores, por ter defendido publicamente a posição de se opor ao projeto estadunidense da Alca? Melhor faria o ex-presidente
calando-se sobre temas em relação aos quais não tem
nada a dizer, salvo divulgar nas colunas da imprensa suas viagens e as
atividades da ONG que fundou para angariar recursos dos favores concedidos
nos oito anos de Presidência, em que fez do Brasil o manso e submisso
aliado do Império.
Emir Sader, professor
da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do
Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas
Públicas da Uerj e autor, entre outros, de “A vingança da
História". Original da Agência
Carta Maior
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