Valores morais
Luis Fernando Verissimo, O Globo, 7 de novembro, 2004

O mais grave da reeleição do Bush é que ela acontece num momento em que são ainda remotas as possibilidades de se estabelecer colônias humanas em outros planetas, deixando sem resposta a pergunta “Fugir para onde?”
 

A vitória de Bush não poderia ter sido pior para a Terra. Ele não só ganhou com grande vantagem no voto popular, o que lhe dá a legitimidade que a eleição anterior, roubada, não dera, como governará com maioria suficiente no Congresso para aprovar a política externa e interna que quiser. Inclusive a nomeação de mais juízes conservadores para o supremo tribunal, que já tem maioria conservadora, o que eqüivale a assegurar uma agenda doméstica reacionária para o país por muitos e muitos anos. 

Foi a maior vitória da direita na História moderna dos Estados Unidos, maior do que as de Nixon e de Reagan. Não é consolo pensar que mais de 50 milhões votaram contra Bush. Os que votaram a favor lhe deram um mandato que se confunde com uma autorização do alto: se antes ele tinha dúvidas, agora pode dizer que sabe que é um escolhido de Deus. Ou do “Deus certo”, como ele mesmo descreveu seu principal patrocinador, para distingui-lo dos deuses dos outros. 

Analistas americanos estão dizendo que foram os “valores morais”, acima de qualquer outra questão, que decidiram as eleições. Coisas como aborto, casamento de gays e outras liberalidades das duas costas que a América do meio não aceita. Descontados os votos populares a mais, os mesmos estados que elegeram Bush em 2000, antes do 11/9 e da invasão do Iraque, o elegeram agora, o que significa que para o grosso dos conservadores e fundamentalistas religiosos que o apóiam a guerra de Bush não fez qualquer diferença, ou não fez uma diferença superior à dos “valores morais”. 

Na semana anterior à eleição foi publicado um estudo feito por pesquisadores da Universidade John Hopkins no Iraque que concluiu com a estimativa de que 100.000 (cem mil) civis iraquianos, mais da metade mulheres e crianças, morreram até agora como resultado, principalmente, de ataques aéreos, durante a guerra. A Universidade John Hopkins, de Baltimore, não tem nenhuma ligação que se saiba com o terrorismo islâmico. É, mesmo, conhecida como um dos centros de estudos mais conservadores entre as universidades americanas. Mas os autores da pesquisa fizeram questão de publicá-la antes das eleições, dada a enormidade do crime até agora desprezado e como crítica aberta aos seus responsáveis. Mas nem os cem mil mortos iraquianos que ninguém tinha se dado o trabalho de contar nem os mil e tantos soldados americanos oficialmente mortos numa guerra justificada e defendida com mentiras por Bush e seus neocons afetaram o julgamento moral dos eleitores, ou sequer foram destaque na campanha. Talvez a presença de alguns fetos entre os mortos do Iraque tivesse sensibilizado pelo menos os opositores do aborto. 

Seja como for, um efeito que esta eleição certamente deveria ter seria o de mudar para sempre o conceito de valor moral.
 

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