| Revista Veja, que vergonha!
Reportagem da revista VEJA sobre o MST carregada de preconceito e desinformação (primeiro texto). Abaixo dela, resposta publicada na Caros Amigos. Setembro de 2004. Colaborou Bruno Ribeiro dos Santos.
Assim como os internatos muçulmanos, as escolas dos sem-terra ensinam o ódio e instigam a revolução. Os infiéis, no caso, somos todos nós. Monica Weinberg. http://veja.abril.combr/080904/p_046.html O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) criou sua própria versão das madraçais - os internatos religiosos muçulmanos em que crianças aprendem a recitar o Corão e dar a vida em nome do Islã. Nas 1.800 escolas instaladas em acampamentos e assentamentos do MST, crianças entre 7 e 14 anos de idade aprendem a defender o socialismo, a "desenvolver a consciência revolucionária" e a cultuar personalidades do comunismo como Karl Marx, Ho Chi Minh e Che Guevara. "Sem-terrinha em ação, pra fazer a revolução!", gritam os alunos, de mãos dadas, ao final de eventos e apresentações. Pelo menos 1.000 dessas escolas são reconhecidas pelos conselhos estaduais de educação - o que significa que têm status idêntico a qualquer outro estabelecimento de ensino da rede pública e que seus professores são pagos com dinheiro do contribuinte. Elas nasceram informais, fruto da necessidade de alfabetizar e educar os filhos de militantes do movimento - que chegam a ficar durante anos acampados nas fazendas que invadem, à espera da desapropriação. No fim dos anos 80, atendendo a uma reivindicação do MST, o governo passou a integrar essas escolas improvisadas à rede pública. Parte delas funciona nas antigas sedes das fazendas invadidas, parte foi construída pelos Estados e municípios. Ao todo, as escolas do MST abrigam 160.000 alunos e empregam 4.000 professores. A reportagem de VEJA visitou
duas delas, ambas no Rio Grande do Sul. Tanto a escola Nova Sociedade,
em Nova Santa Rita, quanto a Chico Mendes, em Hulha Negra, exibem, nas
classes e no pátio, a bandeira do MST; no currículo, abordagens
ausentes da cartilha do Ministério da Educação e que
transmitem a ideologia sem-terra. Os professores utilizam, por exemplo,
uma espécie de calendário alternativo que inclui a celebração
da revolução chinesa, a morte de Che Guevara e o nascimento
de Karl Marx. O Sete de Setembro virou o "Dia dos Excluídos", e
a Independência do Brasil é grafada entre aspas. "Continuamos
dependentes dos países ricos", justifica o professor de história
da escola Nova Sociedade, Cícero Marcolin. No ano passado, seus
alunos aproveitaram o Dia da Independência, ou "independência",
para sair em passeata pelas ruas da cidade carregando faixas com críticas
à Área de Livre Comércio das Américas (Alca).
No fim da exibição do filme, o professor pergunta quem da classe come margarina. A maioria das crianças levanta o braço. Tem início o sermão: "Margarina é à base de soja, que pode ser transgênica e, por isso, ter ve-ne-no!" A atividade seguinte foi uma encenação teatral. No pátio, carregando bandeiras do MST, crianças entoaram uma música que dizia: "Traga a bandeira de luta / Deixe a bandeira passar / Essa é a nossa conduta / Deixe fluir para mudar". Para encerrar, deram o grito de guerra conclamando para a revolução. O MST implementou um sistema
de ensino paralelo, sobre o qual o poder público não exerce
nenhum tipo de controle. O Ministério da Educação
desconhece até mesmo quantas são e onde estão exatamente
as escolas públicas com a grife do movimento. E as secretarias estaduais
e municipais de ensino, embora sustentem as escolas, enfrentam dificuldades
até para fazer com que professores não ligados aos sem-terra
sejam aceitos nas salas de aula. "O MST torna a vida do educador que vem
de fora um inferno", diz Gislaine do Amaral Ribeiro, coordenadora estadual
das escolas de assentamentos na região de Bagé, Rio Grande
do Sul.
Em seu Caderno de Educação de número 8, o MST deixa claro que a educação que pretende dar a seus alunos deve ter "o compromisso em desenvolver a consciência de classe e a consciência revolucionária". A rigor, nada impede que uma organização como o MST queira propagar sua ideologia para crianças que mal aprenderam a escrever o próprio nome. O problema é fazer isso dentro do sistema de ensino público e com dinheiro do contribuinte. A legislação brasileira preserva a autonomia das escolas, desde que cumpram o currículo exigido pelos Estados e estejam em consonância com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, de 1996, que prega o "pluralismo de idéias" e o "apreço à tolerância" - elementos básicos para que as crianças desenvolvam o raciocínio e o espírito crítico. Não são os critérios adotados no território dos sem-terra. "Essas escolas estão aprisionando as crianças num modelo único de pensamento", observa a pedagoga Sílvia Gasparian Colello, da Universidade de São Paulo. Um modelo, acrescente-se, falido
do ponto de vista histórico e equivocado do ponto de vista filosófico.
Está-se falando, evidentemente, do marxismo. Falido porque levou
à instauração de regimes totalitários que implodiram
social, política e economicamente. Equivocado porque, embora se
apresente como ciência e ponto final da filosofia, nada mais é
do que messianismo. De fato, o marxismo não passa de uma religião
que, como todas as outras, manipula os dados da realidade a partir de pressupostos
não verificáveis empiricamente. E, assim também como
as religiões, rejeita violentamente a diferença. "Burgueses
não pegam na enxada / Burgueses não plantam feijão
/ E nem se preocupam com nada / Arrasam aos poucos a nação",
diz a letra de uma das canções ensinadas aos "sem-terrinha".
Sou professora da rede particular de ensino e gostaria de manifestar o meu repúdio à revista Veja pela publicação da reportagem Os Madraçais do MST (edição nº 1870). Fiquei enojada de ver tanta parcialidade e falta de seriedade com a qual a jornalista responsável (ou irresponsável) tratou a questão do MST e, em especial das escolas, afirmando: "Assim como os internatos muçulmanos, as escolas dos sem-terra ensinam o ódio e instigam a revolução. Os infiéis, no caso, somos todos nós”. Agora, nós quem? Também me sinto lesada por ter estudado a vida toda em escolas particulares e ter aprendido que 7 de setembro é o dia da Independência. Ora, vamos deixar de enganar a todos. Quando o Brasil foi Independente? Como se deu este processo? É preciso lembrar que a história do Brasil não foi contada pelos negros, índios ou excluídos, é sempre uma versão dos fatos e quem sabe agora ela não poderá ser reelaborada de modo, se não agradável a todos, pelo menos a imensa maioria que de fato passa fome e é excluído de necessidades básicas de toda a natureza. Qual o problema em fazer a revolução? Se a jornalista e a revista em questão estão com medo de perder os cargos, os carros e a posição social conquistada... Ora acordem, do jeito que está não dá, não há como ser livre e feliz diante de um mundo e uma situação como a que vivemos hoje... Se formos questionar o porque do MST comemorar datas como a morte de Guevara ou o nascimento de Marx, teremos que questionar a razão de comemorarmos também o Dia das Mães, o Natal, o Dia das Crianças ou dos Namorados, uma infinidade de datas a serviço do mercado... Se formos questionar o despreparo dos professores do MST, teremos de questionar a situação dos professores no Nordeste, ou ainda, o que é mais grave, se formos elaborar uma reportagem tão absurda como esta publicada pela revista Veja, teremos de publicar uma também que diga que em nossas escolas particulares ensinamos, se é que ensinamos, conteúdos que nada tem a ver com a prática cotidiana e social. Que 70 por cento do que é aprendido nas escolas autorizadas pelo MEC são esquecidos ao longo de um ano ou menos. De que servem os conteúdos aprendidos nos bancos escolares se a maioria de nossos alunos não é capaz de pensar o mundo, de refletir sobre questões contemporâneas que assolam nossas grandes cidades (como exemplo o recente caso dos mendigos mortos em São Paulo). Que professores pararam suas aulas de logaritmo, trigonometria ou orações subordinadas para refletir sobre o mundo. De que serve os conteúdos aprendidos na escola se quando lemos uma reportagem como a publicada pela Veja encaramos com seriedade esta clara manipulação... Paremos com esta defesa inútil
de classe. Que mais pessoas possam ler Veja, Estadão,
Folha e Caros Amigos e encontrem o caminho da responsabilidade
social e do pensar.
Ariana C. Rumstain é estudante de Ciências Sociais. Caros Amigos | VEJA que mentira | Mídia | Principal.—.Consciência.Net |