Mais um pouco avante!
Mauro Pitanga, 22 de junho,
2004
Hoje assisti mais um refém
do terror morrer. Confesso que me emocionei. Como estudante e professor
de história, e na maioria das vezes um observador do "tempo frio"
—, Deixa-me explicar-me, um historiador
tem mais chances de não errar ou errar menos, observando o caso
muito tempo depois. Quando novos fatos e novas evidências são
trazidos à tona, e não no "tempo quente"
—, portanto, como não tenho
os olhos voltados para o tempo presente, tenho me tornado frio e insensível.
Se não estiver enganado,
em menos de seis meses três reféns do terror no Iraque foram
mortos. E apesar dos constantes apelos, tantos das vítimas como
dos familiares, amigos e solidários, nada foi feito para evitá-las.
Principalmente pelos diretamente envolvidos. Afinal de contas, quanto vale
uma vida?
Uma vida, não vale mais
que um barril de petróleo. Do que dirá de toneladas dele.
Uma vida não vale mais que a oportunidade de dominar hegemonicamente
a política e a economia do mundo. Hegemonia esta nunca vista antes
na história?
Tivemos muitos impérios
na história, mas nada semelhante? Roma foi um grande império
militar. A Grã-Bretanha foi um império marítimo. Os
Otomanos dominaram territorialmente grandes extensões com a força.
E na Guerra-Fria as forças eram bipolares. Portanto, inferiores
ao grande império contemporâneo.
No século XIII Gengis-Khan
e seu filho Kublai-khan, que juntos dominaram do norte da China até
a Rússia e ainda foram até a Pérsia, mais o corredor
Siro-palestiniano, tiveram um dos maiores impérios do mundo. Nem
nos dias de hoje alguém foi tão longe. Não? O fato
é que conseguiram dominar uma área bem mais extensa que a
atual hegemonia domina, e ainda assim, foram menos desumanos. Hoje estamos
assistindo a uma neocolonização. Com todos os traços
de violência intrínsecos, que como um espectro ainda nos amedronta.
Apesar das citações acima,
eu não estou escrevendo essas linhas como historiador. Me desculpem
os mais aficionados pela história, mas o caso aqui não é
somente de análise temporal e de relações de poder.
Mas, sobretudo, de relações de paz. Como a história
nunca teve grandes períodos de paz, não posso recorrer a
ela. E relações de paz pressupõem: humildade, equilíbrio,
modéstia, autocontrole, autodomínio, etc. Todos os adjetivos
que faltam, por exemplo, aos EUA.
Não quero agora me utilizar
da história para repetir o que muitos já falaram, e o que
muitos outros já sabem. Agora é momento de lamentar, e de
chorar junto com o ancião septuagenário coreano que perdeu
seu filho no dia de seu aniversário. Recebeu um presente inglório
e devemos ser solidários.
Muitas foram as cartas de protesto
enviadas ao presidente Bush. Muitas estão transitando pela Internet.
Uma melhor do que a outra. Algumas trazem verdadeiras retrospectivas das
mazelas que os EUA cometeram pelo mundo a fora. No que adiantaram? A pergunta
que persiste é a seguinte: A quem queremos tocar? A quem queremos
influenciar?
Só existe uma maneira
de se acabar com a hegemonia de uma nação hostil. É
fazendo com que o outro lado da balança
— o mais fraco
—, que geralmente é
o mais pesado, por ser a maioria, penda para baixo com toda força.
Só existe uma maneira de uma nação hostil se enfraquecer,
é deixando-a ir mais um pouco avante... Foi assim com todos os impérios.
Quanto mais avante foram, mais inimizades atraíram.
Dessa forma, aumentamos a força
do outro lado da balança. Enquanto a Europa, por exemplo, não
se sentir intimidada e prejudicada, menos aliados do outro lado da balança
teremos. O que eu quero nesse momento é que os Estados Unidos avance
só mais um pouco.
Não devemos pedir para
que parem. Pelo contrário, que continuem. Só mais um pouco
avante! Afinal de contas, quem poderá para-los, se não eles
mesmos? Quem com plenos poderes entregá-los-á, assim, gratuitamente?
Deixe-os em paz. Nação americana! Mais um pouco avante! Só
mais um pouco avante...
Mauro J. N. Pitanga é
estudante de história e professor voluntário da Educafro.
Contribui também com alguns sites.Contato: mauropitanga@hotmail.com
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