A guinada de Cesar Maia para o social-liberalismo

Texto de 3/10/2004, na Tribuna da Imprensa

Uma carta renegando toda a sua militância na esquerda revolucionária dos anos 60, escrita de próprio punho, de 16 de dezembro de 1975 e apoiada por documentos assinados por dois oficiais do Exército, marcou, em plena ditadura militar, a transição de Cesar Maia do socialismo em direção ao centro. 

Quase 29 anos depois, aos 58 anos, o ex-militante da Corrente, um racha do PCB que originaria o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), preso e espancado várias vezes por seu esquerdismo, pode ser eleito hoje prefeito do Rio pela terceira vez - a primeira no primeiro turno - pelo conservador PFL.

"Dois meses de bobagens em 1968 me custaram muito caro. Deus escutará minhas orações, e através dos senhores, confio, recuperarei minha condição plena", afirmou Maia no documento, dirigido aos delegados de Polícia responsáveis pela revisão de um parecer sobre uma certidão negativa de ideologia que pedira. 

A afirmação contrasta com uma declaração do prefeito à Agência Estado na semana passada, quando afirmou que "certissimamente" repetiria a militância radical da juventude. "Ela é minha base, minha plataforma, meu trampolim", declarou. "Na política, muitas vezes os erros ensinam muito mais." 

Na carta de 1975, Maia disse também que começou a estudar engenharia em Ouro Preto (MG), em 1966, "sem qualquer pensamento político qual não fosse uma admiração herdada pelo senhor (Juscelino) Kubitschek, ex-presidente do Brasil". Ele afirmou ainda no texto que em 1967 foi atraído para a Frente Ampla (movimento formado por Carlos Lacerda, João Goulart e JK para pedir a redemocratização do Brasil) e relatou ter sido preso quando aceitou "com espírito juvenil" distribuir, em Belo Horizonte, panfletos que falavam de um congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), na época ilegal.

A militância esquerdista de Maia, porém, foi um pouco além da admiração por JK, da Frente Ampla e da distribuição de panfletos. Com codinomes como Castro e Teixeira, ele flertou com a luta armada, treinou tiro ao alvo em bananeiras nas montanhas de Minas Gerais - "para adquirir firmeza, treinávamos com as duas mãos", relataria depois - e até exercitou sobrevivência no mato. 

No livro de entrevistas "Política é Ciência", de 1998, contou ter participado de ações de "cobertura" a operações da guerrilha urbana. Depois da prisão no congresso da UNE de Ibiúna (SP), em 12 de outubro de 1968, ficou preso até junho de 1969.

Exílio

Ao apresentar a versão propositalmente açucarada e ingênua de seus anos rebeldes, apoiada por documentos assinados pelo coronel Ronaldo Celso Lima e pelo major Paulo Barreira, o ex-esquerdista buscava se reinserir na sociedade. "Aos 29 anos, eu não conseguia emprego", relatou, em 1992, ao explicar o motivo da carta. 

Depois do episódio do Congresso da UNE de Ibiúna e após seguidas prisões, saiu do Brasil com um documento obtido porque, segundo confessaria nos anos 90, se fingiu de doente mental. Foi para a Argentina e dali para o Chile presidido pelo presidente socialista Salvador Allende. Foi no país de Allende que Maia conheceu a mulher, Mariângeles, com quem se casou em menos de um mês e teve os filhos Rodrigo e Daniella.

Também ali foi que estudou economia, por indicação de outro ex-militante estudantil exilado, o hoje candidato do PSDB a prefeito de São Paulo, José Serra, adquirindo sólida formação teórica marxista. Mas saiu do país antes do golpe de Augusto Pinochet e foi para Portugal, ainda sob o salazarismo. Acabou livre dos processos por subversão na Justiça Militar, mas ainda era considerado um subversivo.

Em julho de 1973, voltou ao Brasil e foi preso na fila do aeroporto do Rio. Depois de três meses no Batalhão de Guarda, foi libertado. Só conseguiu emprego quase três anos após, na Klabin e Irmãos. Àquela altura, concluíra o curso de economia no Instituto Metodista Bennett, única faculdade que aceitou validar seus documentos educacionais do Chile. Já era então um social-democrata, seguidor do polonês Mickal Kalecki (1899-1970) e longe do comunismo. Ficou na empresa até 1983, quando Leonel Brizola (PDT), então governador eleito do Rio, o convidou para ser secretário de Fazenda.

Carreira

No PDT, Maia fixou publicamente o perfil de técnico competente. Era, na linguagem irônica da esquerda carioca, o pedetista que sabia fazer contas, acusado por setores mais à esquerda do partido de ser de "direita". Um perfil que o levou a situações difíceis, como um encontro reservado com o candidato a presidente Fernando Collor, em 1989, e ajudou a impedir que fosse o grande formulador econômico da campanha pedetista daquele ano. Mesmo assim, quando, após a votação, já era claro que seria Luiz Inácio Lula da Silva quem iria para o segundo turno, seus cálculos mantinham Brizola na disputa.

O processo de afastamento do PDT, porém, estava desencadeado. Especializado em finanças públicas, com estágios de estudo na Inglaterra, Alemanha e Japão e ligações com a Fundação Freiederich Ebert, do SPD alemão, preocupado com questões como a pós-modernidade, Maia estava cada vez mais afastado do perfil populista do PDT. Em 1990, quase apanhou de pedetistas na Cinelândia, no Centro do Rio, quando, na Brizolândia, tentou defender o Plano Collor. Teve que sair protegido por correligionários. Era o fim. Acabou trocando o PDT pelo PMDB, pelo qual se elegeu prefeito pela primeira vez, em 1992.

Não sem dificuldades. Com um discurso de defesa da ordem urbana e do enfrentamento dos camelôs, conseguiu apenas o segundo lugar no primeiro turno. A primeira colocação foi de Benedita da Silva (PT), catapultada pela campanha do impeachment de Collor, que vencera Lula na corrida presidencial. No segundo turno, afastado o presidente, Maia ultrapassou a petista, alvejada por denúncias contra o filho, e venceu.

Na prefeitura, acumulou um superávit de US$ 1 bilhão que aplicou em obras, com programas como o Favela Bairro, de urbanização de favelas, e Rio Cidade, de reurbanização dos bairros. Criou também os factóides, segundo ele "fatos carregados de imagens", na verdade golpes de marketing que só serviam para ocupar espaço na mídia, como pedir sorvete em açougue e anunciar a criação de uma moeda escritural no Rio.

Em sua segunda gestão, eles seriam esquecidos. "A visibilidade já não era necessária", explica ele, que perdeu a disputa para o governo estadual a disputa para Anthony Garotinho (então no PDT), depois de pregar, num factóide, a limpeza das ruas com creolina - segundo os adversários, para "limpá-la" dos pobres.

A "ideologia de obras" ajudou Maia a eleger, em 1996, seu sucessor, Luiz Paulo Conde - ainda não havia reeleição -, arquiteto que, como secretário de Urbanismo, comandou os programas de obras, posição que o tirou do virtual anonimato e dos 4% das preferências para a vitória nos dois turnos. Maia e Conde, porém, brigaram em 2000, porque o hoje prefeito, que já se mudara com seu grupo político para o PFL, queria voltar à prefeitura, e Conde queria ser candidato à reeleição. O ex-prefeito foi para o PTB, novamente ficou em segundo lugar no primeiro turno, venceu no segundo e voltou ao PFL. Retomou seus programas de obras, mas sem a novidade do primeiro período.

Um de seus grandes projetos, a criação de uma filial do Museu Guggenheim no Rio, foi barrada na Justiça. Duas gestões compatíveis com sua autodefinição mais atual: "Sou um social-liberal-democrata", resume.
 

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