O carioca não sabe votar
Tutty Vasques, NoMínimo, 18 de setembro, 2004

César Maia caminha a passos largos para se reeleger prefeito do Rio de Janeiro no primeiro turno das eleições municipais, mas, que ninguém se iluda, o fenômeno político no Rio de Janeiro é outro: o carioca, que já foi exemplo de ousadia na escolha de candidatos, desaprendeu a votar. Vai dar a César o que não quer dar aos outros, como se eleição fosse um processo de eliminação: esse não, esse não, esse não, esse não, sobrou pro pefelista.

Tudo bem que, morando num estado governado por forças evangélicas, role uma certa paúra de entregar também a capital ao “bispo” Marcelo Crivella. É compreensível, também, a rejeição a Luiz Paulo Conde, que, além de candidato da Rosinha, pegou o sotaque populista do Garotinho de prometer tudo a R$ 1. Entre os candidatos com alguma chance, resta ainda o petista Jorge Bittar, que, com aquele jeitinho de mauricinho de esquerda, tem prometido na TV fazer no Rio tudo que a Marta Suplicy fez em São Paulo. Se pudesse, o carioca votava no Serra.

Que vergonha! Por onde ando – botecos, festas, baixos, lojas de conveniência e o badalado terraço da casa de Zuenir Ventura – só não se fala em política, o que quer dizer mais ou menos o seguinte: é gente que optou pelo voto encabulado em César Maia. Na falta de argumentos em defesa do candidato, o silêncio diz tudo. Se tivessem um slogan de campanha, esses eleitores explicariam o voto com a máxima “não se mexe em time que está perdendo”.

Parece coisa de maluco, gênero que César Maia abandonou quando percebeu que não dava para concorrer com eleitor carioca. Aquele sujeito que pedia sorvete em açougue, ia de casaco à praia, se insurgia contra o fim do horário de verão, varria o sambódromo, sabia de cor quanto é 539 vezes 975, por exemplo, esse não existe mais. O cara que dizia que no Brasil todo político é ladrão, homossexual ou maluco – daí os parafusos a menos que não escondia de ninguém –, esse pendurou as chuteiras mais ou menos na mesma época em que se mudou para um big apartamento de frente para o mar de São Conrado.

Entrevistei o prefeito algumas vezes para a revista “Veja” no tempo em que ele era menos rico, mais divertido. Foi numa dessas conversas que César lançou a expressão “factóide”, termo que o projetou maluco em todo o país. Na semana seguinte, entrevistado no “Roda Viva” da TV Cultura sobre a origem da expressão, saiu-se com essa: “Factóide nasceu como as parcerias de Roberto e Erasmo Carlos, tem letra minha e música de Tutty Vasques”. Era um maluco-beleza, uma espécie de Raul Seixas da política, nem sombra da imagem do “político sério e competente” que vende hoje em dia.

Comecei esse texto com a firme intenção de esculhambar o cara e, de repente, cá estou com saudades do maluco. Naquele tempo, restava ao carioca o consolo de eleger um doido, o que não deixa de ser uma forma de protesto. Por essas e por outras é que mantenho o voto luta de classes: Jandira Feghali (prefeita) e Andréa Gouveia Vieira (vereadora). Viva a anarquia!!!
 
 

Visite o NoMínimo

Rio | Monitor eleitoral


Busca no site | Café da Manhã | Principal..Consciência.Net


Publicidade

.