| O segundo Roberto Marinho
Sebastião Nery, Tribuna da Imprensa, 22 de setembro, 2004 Figura saída de uma foto antiga, terno escuro, gravata cinza, colete, chapéu e bengala, Prudente de Morais Neto, o saudoso Doutor Prudente, o Pedro Dantas, articulista da imprensa paulista e carioca, escrevia a mão, pausadamente, em sua mesa coberta de jornais, no "Diário Carioca". O general Castello Branco o convidou para ministro do Supremo Tribunal, não aceitou para não sair do Méier e ir para Brasília, porque era casado com uma negra e achava que lá ela iria sofrer constrangimentos. Tinha um fino e magnífico senso de humor. À noite, antes de pegar o táxi na Rio Branco, ao lado da praça Mauá para voltar para casa, tomava dois ou três chopes no bar atrás do jornal. E contava coisas de muito antigamente: - O Roberto (Roberto era Roberto Marinho, seu amigo) é um gênio. Gênio é aquele que descobre o óbvio. Roberto descobre o óbvio. Criou o Dia do Bom Motorista. Uma unanimidade. Quem pode ser contra o bom motorista? Criou o Dia do Bom Filho. Quem é que não gosta de sua mãezinha? Lula Lula é um segundo Roberto Marinho. Descobre o óbvio. Descobriu a fome como cruzada política. Lançou o Fome Zero na ONU, em Nova York. Bush não foi. A fome de Bush é de guerra. Mas Chirac, da França, estava lá, com mais de 50 outros presidentes e chefes de governo do mundo todo. Como promoção internacional é uma boa sacada. Quem pode ficar indiferente à fome no mundo, que cresce e se alastra com a ignominiosa fraude da globalização e condena bilhões de pessoas a uma vida escabrosa? Apesar da genocida indiferença dos países ricos, algum dia terá que ser encontrada uma fórmula financeira para ajudar a combater a fome universal. Aí, Lula está certo. O que é inacreditável é ele não perceber a flagrante contradição de defender uma causa justa lá fora e aqui no Brasil ser serviçal e cúmplice de uma política econômica que fomenta a fome que diz combater. Meirelles É tão fácil mostrar a óbvia contradição, que até mesmo Lula entende. Na semana de Lula viajar para os Estados Unidos como dedicado e eficiente ministro de Exterior que é, o bostônico Henrique Meirelles, que acumula a presidência do Banco Central com a presidência da República que Lula lhe entregou, aumentou os juros "sem nenhuma razão", segundo José Dirceu. Se aumentar juros fosse mais um excitado "baile temático", dos três que a "Veja" contou que Meirelles, antes de assumir o BC, fazia todo ano com 150 amigos, em São Paulo, Genebra e Nova York, menos mal. Gosto dele. Mas, com uma dívida interna (sem falar na externa) que já chegou a R$ 1 trilhão, qualquer 0,25 ponto de aumento sobre juros de 16% representa bilhões a mais que o País tem que pagar de juros a cada ano. Onde buscar? Mais uma vez Lula vai tirar das verbas sociais, até do Fome Zero. Frei Betto O "superávit primário" (todo o dinheiro para os banqueiros) já está em escandalosos 4,25%, raspando do Orçamento todas as verbas de investimentos públicos e sociais. Os arautos oficiais da Febraban (Merval Pereira, Miriam Leitão, Mailson da Nóbrega, outros) já avisaram que Meirelles e Palocci querem aumentar o "superávit primário" para 5% e acabar com as vinculações constitucionais mínimas do Orçamento para educação, saúde, combate à fome. Como Lula vai ter moral para falar em combate à fome lá fora, se aqui cometer dois imperdoáveis crimes de fomento à fome? Com o atual "superávit" de 4,25%, ele já seqüestra hoje R$ 70 bilhões do Orçamento para os banqueiros, além dos R$ 100 bilhões já destinados aos juros no Orçamento. Com 5% de "superávit", esses R$ 70 bilhões vão tornar-se R$ 100 bilhões. Somados aos R$ 100 bilhões já vinculados para juros no Orçamento, são R$ 200 bilhões. As obras sociais e o Fome Zero vão para o brejo. Não sobra nem para pagar o salário do generoso e exemplar cristão Frei Betto. Getulio dizia que voto não enche barriga. Discurso, muito menos. Kotscho Lula, na "Folha": "O Brasil está em uma posição privilegiada (sic) de retomada do crescimento econômico e bem-estar social" (sic). Ricardo Kotscho, secretário de imprensa de Lula, também na "Folha": "Você (Clovis Rossi) não vem a Brasília, não vai aos fundões do Brasil, onde há fartura (sic) e emprego"... (sic). Parece que bebem. Erundina e Maluf Conta a revista "Época", do grupo Globo e portanto oficiosa. "O PT fez dois movimentos (para ajudar Marta em São Paulo): obteve do PSB o compromisso de punir Erundina caso ela apóie Serra no segundo turno. E prometeu a Maluf que a CPI do Banestado continuará inofensiva". Eles chamam isso de "ética".
Essa aí rima com "titica".
O porre indesejável da
política econômica
Com o fim da ditadura de Vargas em 45, o ex-presidente Washington Luiz voltou do exílio. Veio de navio, foi recebido na Praça Mauá, no Rio, por uma multidão emocionada. Saudou-o o general Euclides de Figueiredo, herói do levante paulista de 32 e pai do ex-presidente Figueiredo. Depois do discurso, Washington Luiz entrou em um carro aberto e saiu desfilando pela Avenida Rio Branco, grávida de gente. A seu lado, o general Alcio Souto, chefe da Casa Militar do presidente Dutra. Na esquina da Avenida Presidente Vargas, o jovem jornalista baiano Nilson de Oliva César, o saudoso Pixoxó, que na época bebia muito e estava inteiramente alcoolizado, subiu no carro de Washington Luiz e começou a gritar: - Viváááá!!! Vivôôôô!!! O velhinho ex-presidente, a barba toda branca e o terno preto, sorria manso e passava a mão na cabeça de Nilson. De repente, outros começaram a subir também no carro. Na esquina da Almirante Barroso, o carro não resistiu ao peso e parou. O general Alcio Souto mandou os caronas todos descerem: - Desce todo mundo, exceto o neto! O neto era Nilson, de porre, gritando Viváááá!!! Vivôôô!!! O Iepes No Iepes (Instituto de Estudos Políticos e Sociais), aqui no Rio, fundado por Helio Jaguaribe, cujo decano é Francisco Weffort e presidente Jorio Dauster, o bravo economista e professor João Paulo de Almeida Magalhães fez a segunda palestra-debate do seminário "Por um modelo alternativo para o Brasil", apresentando um longo, denso e lúcido estudo, com comentários de Mauricio Dias David e Armando Castelar. Ele não disse assim, mas de tudo que ele disse ficou claro que a política econômica a serviço dos banqueiros, implantada no Brasil pelo Fundo Monetário e pelo Banco Mundial, no governo de Fernando Henrique e mantida e agravada por Lula, é um porre irresponsável, confuso e enganador como os vivas do falso "neto" de Washinton Luiz. Tudo começou com a tese (colonialista, imperialista, hoje globalizada) do Consenso de Washington, e que comanda as políticas econômicas da América Latina, de que "os processos dinâmicos de países desenvolvidos e subdesenvolvidos são similares, o que levou a desastrosos resultados". João Paulo Magalhães 1) "A aplicação da receita do Consenso de Washington levou à semi-estagnação crônica da América Latina, enquanto os países do Leste da Ásia, que ignoraram o Consenso, registraram acelerado crescimento. O sucesso dos países asiáticos é confrontado com o estrondoso fracasso de toda a América Latina, em termos de políticas de desenvolvimento econômico". 2) "Por que isso aconteceu? A América Latina, contrariamente dos países asiáticos, se curvou aos ditames do Consenso de Washington, cuja falsa concepção era a total igualdade entre processos de crescimento dos atuais desenvolvidos e das economias retardatárias. Os erros cometidos no passado resultaram na adoção da cartilha neoliberal". 3) "No período recente, as poupanças estrangeiras registraram grandes entradas na região, sem que se observasse elevação correspondente dos investimentos como percentagem do PIB. No caso específico do Brasil, entre 1999 e 2002, os ingressos de poupança externa ficaram em torno da média anual de US$ 20 bilhões e, apesar disso, a percentagem dos investimentos sobre o PIB se manteve em 19%. Ou seja, na ausência de mercado de dimensões e dinamismo adequados, o ingresso de poupanças externas não proporciona incremento de investimentos e nem do PIB". Alca e economistas O professor João Paulo tratou de pontos concretos: 1) "A Alca, nas condições em que hoje se acha colocada, implica na aceitação do grave risco de desaparecimento, ou estagnação, dos setores da economia brasileira, ou do Mercosul, de alto valor adicionado e rápido crescimento, levando-nos à especialização em commodities agrícolas e industriais. Na medida em que isso venha a ocorrer, teremos renunciado à possibilidade de eliminar nosso atraso econômico, resignando-nos à situação de permanente semidesenvolvimento". 2) "O crescimento não tem ocupado parte central das preocupações e reflexões da maioria dos economistas brasileiros, em extrema preocupação com o curto prazo e em especial com as políticas de estabilização. Mantida a situação atual, pouco ou nada se deve esperar dos economistas brasileiros em termos de contribuição para a economia do desenvolvimento". Tito Ryff Hoje, dia 23, a partir das 18h30,
na Fecomércio (Marquês de Abrantes 99), o Iepes realizará
a terceira etapa do seminário "Por um modelo alternativo para o
Brasil", com conferência-debate do economista Tito Ryff e comentários
de Sergio Bessermann Vianna e André Urani.
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