| Quanto pagam e quanto ganham
Jayme Dantas, ex-correspondente
da revista Time, chefe de redação na Globo e suspeitamente
esquecido no livro dos 35 anos do "Jornal Nacional". Por Sebastião
Nery, Tribuna
da Imprensa, 21 de setembro, 2004
Jayme Dantas, moreno, pequeno e atarracado, menino de Natal, no Rio Grande do Norte, vizinho de uma família americana, brincando com os garotos da casa ao lado, aprendeu o inglês como aprendeu o português. Veio a guerra, os americanos desembarcaram em Natal, para construir e operar a base aérea, ligação fundamental dos Estados Unidos com a África. Precisavam de intérpretes e Jayme, adolescente, foi contratado. Trabalhou com os americanos dois anos seguidos. Ao fim da guerra, a norte-americana revista "Time" decidiu nomear um correspondente no Brasil. Jayme, nem ele sabia por que, foi indicado ao gringo da "Time" que veio ao Rio escolher o correspondente. Jayme recebeu em Natal uma passagem e o endereço do hotel, no Rio, veio e se apresentou ao gringo, que o recebeu sem maiores rodeios: - A "Time" é uma revista americana e republicana, feita para americano republicano. O senhor aceita trabalhar em uma revista assim? - Quanto pagam? - Está contratado. Jayme Dantas Em fins de 65 e em 66, quando a TV Globo começou a funcionar, Jayme Dantas foi o chefe de redação do jornal "Ultra-Notícias", que em 67 virou "Jornal da Globo", com José Ramos Tinhorão como editor-chefe, e, em 69, tornava-se "Jornal Nacional". Chefiando a redação do primeiro "Jornal da Globo", o potiguar Jayme Dantas, baixinho e competente, era, no jornalismo da Globo, o representante do grupo "Time-Life", que foi sócio de Roberto Marinho e financiou a criação da TV, até que a CPI do Congresso, inspirada por Carlos Lacerda e comandada por João Calmon, dos "Diários Associados", anulou o "Acordo Time-Life" e obrigou Roberto Marinho a desfazer oficialmente a parceria. Não sei se por isso, para esconjurar velhos pecados, ou por um lapso, Jayme Dantas foi suspeitamente esquecido no livro dos 35 anos do "Jornal Nacional" ("Jornal Nacional, a notícia faz história"), entre os primeiros que participamos da criação do jornalismo na TV Globo. Mais surpreendente ainda, no livro sobre o "Jornal Nacional", é a omissão do nome de Reinaldo Jardim, que foi diretor do Departamento de Jornalismo em 66. Foi ele quem me levou pra lá em janeiro de 66. Por que o rasparam? Banco Central Mas essas são coisas desimportantes. Grave é o presidente da República e o ministro da Fazenda passarem um mês mendigando a Henrique Meirelles e seus homens de ouro, diretores do Banco Central, para não subirem os juros, e o poderoso chefe da Casa Civil, José Dirceu, o dono do PT, avisar que não havia razão nenhuma para os juros subirem, e mesmo assim os juros subiram. Quem perde com isso, todos sabemos, o povo brasileiro e a economia nacional. E quem ganha? A pergunta que o País faz é a mesma que Jayme Dantas fez ao gringo da "Time": "Quanto pagam"? Quanto estão pagando? Antonio Ermírio de Morais, antigo e escolado, também ele dono de banco, o Votorantim, mas sobretudo empresário da produção, até ele está escandalizado. Na "Folha" de domingo, abriu a boca no mundo. Antonio Ermirio 1. "Viva a especulação! - Esse foi apenas o primeiro de uma longa série de aumentos. O Banco Central deu o seguinte recado: `Prezados participantes da ciranda financeira, preparem-se para ganhar muito dinheiro, porque a ciranda vai rodar - e muito'!" 2. "Atenderam aos interesses de quem não produz. Os investimentos estrangeiros diretos (em empresas brasileiras) neste ano ficarão em torno de US$ 10 bilhões, enquanto o total para os países emergentes de todo o mundo chegará a US$ 230 bilhões. Se estamos fazendo tudo certo, por que eles não vêm investir em nossa produção"? 3. "A resposta é
muito simples. Para os especuladores, estamos fazendo tudo certinho para
encher os seus bolsos! É por isso que eles aplaudem. Procuram provar
que o Brasil não pode crescer: `Não deixem a economia se
aquecer! Aumentem os juros! Segurem os produtores!' Só pensam no
enriquecimento sem trabalho. Está na hora de darmos um basta".
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