Propaganda e revisionismo histórico
Gustavo Barreto, 1 de setembro, 2004

Tentando reformular sua obscura história, a Rede Globo lança nestes dias o livro "Jornal NacionalA Notícia que Faz História" (foto). Além de uma propaganda sobre a suposta importância do programa para o país, o livro traz versões próprias sobre temas que geraram grande indignação popular.

No dia 28 de julho de 1998, por exemplo, o JN dedicou dez minutos ao nascimento do parto de Sasha (filha de Xuxa), enquanto que o anúncio do recorde de inflação em São Paulo mereceu apenas 20 segundos. Apenas uma conseqüência, segundo os próporios editores, de uma estratégia de marketing para tornar o noticiário mais "leve". Um pouco antes, em 89, diretores e editores se acusam no livro quando o assunto é a famosa e criminosa edição do debate entre os presidenciáveis Collor e Lula.

Estes e outros casos de reportagens baseadas em pesquisas de mercado geraram arrependimento e receio frente ao público. E, em vez de pôr fim no marketing para se redimir do passado, a Globo aumenta a dose de propaganda. Está investindo forte na divulgação dos 35 anos do Jornal Nacional, com palestras, debates, matérias especiais e muito mais, escolhendo como um dos principais alvos os jovens jornalistas, que formarão o quadro de profissionais do futuro. Participar de todos os debates dos principais fóruns parece ser o esforço concentrado a partir dessa semana de comemoração.

A Escola de Comunicação da UFRJ, por exemplo, recebeu nesta quarta (1/9) a equipe principal do diário televisivo e a revista "Veja" deu capa para o "acontecimento", afirmando entre outras coisas que o livro é uma "corajosa e transparente discussão" e diz que hoje o Jornal Nacional se concentra "em sua verdadeira vocaçãoa notícia".

Revela ainda que o fundador da Globo, Roberto Marinho, considerava que a realização dos comícios pelas Diretas Já, em 1984, "poderia ser um fator de inquietação nacional"e por isso o magnata vetou uma ampla cobertura das manifestações a favor da Democracia. O país quieto, calmo, parado onde estava parecia ser mais importante para Roberto Marinho do que as eleições diretas e a volta a um regime de governo um pouco mais democrático.

Em meio a tantas "auto-críticas" que os entusiastas do Jornal Nacional ressaltarão, algumas são sempre "esquecidas": o nascimento do jornal em 1969, amigável ao regime militar em um de seus mais violentos momentos, e a concentração de propriedade e de verbas publicitárias, igualmente sustentada pelo governo federalresponsável pela fiscalização das tevês —, permitindo que a Globo mantenha 600 jornalistas em 118 cidades e acabando com qualquer possibilidade de concorrência.
 

Gustavo Barreto é editor da revista Consciência.Net (www.consciencia.net), colaborador do Núcleo Piratininga de Comunicação (www.piratininga.org.br), estudante de Comunicação Social da UFRJ e bolsista do Programa Institucional de Bolsa de Inciação Científica (PIBIC) pela ECO/UFRJ

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