Democracia do improviso
 
Prefeitura do Rio e ex-subprefeito da Tijuca usam decreto para criar sistema de integração do metrô e ganhar votos na Zona Norte. Da redação, 10 de setembro, 2004


O petista Jorge Bittar não perde a chance de ressaltar o tal do "bilhete único", idéia importada de São Paulo. Já Luiz Paulo Conde, do PMDB, anuncia para a "geral" o "ônibus a um real", mais uma medida oriunda do assistencialismo populista do governo do Estado, que pretende transferir recursos públicos para empresas privadas e quebrar o caixa da prefeitura a exemplo do que ocorre no plano estadual com remédios, refeições e outros serviços pelos quais se cobram preços abaixo do custo e o poder público (ou seja, o povo) banca o resto.

As críticas surgem da constatação de que o sistema de transporte das áreas menos privilegiadas da cidade não está satisfazendo a população e/ou é muito caro.

O atual prefeito César Maia, em posição privilegiada, já está agindo para afundar de vez seus adversários também neste tema. Como bom estrategista que é, César corre na frente e adota medidas não exatamente de acordo com o interesse público. O marketing eleitoral parece falar mais alto, e com isso alguns respingos de progresso atingem os cariocas. Ao lado dele, está Luiz Humberto, até onde se sabe ex-subprefeito (ou seja, "antigo", "não-atual", "que não é mais") da região administrativa da Tijuca e Adjacências. [veja mais à frente]

A imagem de pai

Não basta construir escolas alaranjadas, com crianças alaranjadas, em lugares bem visíveis (como as da Av. Presidente Vargas) para depois dizer à população: vejam esta escola laranja com suas crianças laranjas. É tudo obra da prefeitura, e não do Estado ou do governo federal. A educação, nesta antiga e reacionária visão, precisa trazer dividendos eleitorais.

É preciso camuflar o economista rabugento que coloca apelidos desrespeitosos em qualquer um que ouse cruzar seu caminho. A melhor forma de fazê-lo parece ser a utilização de crianças sorridentes que mal sabem a quem estão servindo. Não é à toa que no propaganda eleitoral na TV do dia 25/8, um eleitor chama César de "quase um pai".

"O jeito é ir improvisando"

O jornal O Globo, uma espécie de diário oficial do prefeito em época de eleição, anunciou nesta quinta (9/9) que "a partir deste sábado (11/9), os moradores da Tijuca já poderão contar com o sistema de integração entre ônibus e metrô, a exemplo do que já acontece na Zona Sul". Os bairros Usina e Muda (Grande Tijuca) agora passam a ter o mesmo sistema de integração já adotado na Gávea e em Ipanema, bairros nobres da cidade. Com um certo ar tijucano, o autor começa a reportagem com um "Enquanto o metrô não chega, o jeito é ir improvisando".

Outra "novidade preparada pela prefeitura", conforme anuncia o jornal, será o início de operação das linhas de integração entre o Grajaú e a estação Carioca, no Centro. "Até o fim deste mês, o município dará a autorização para as linhas 226 (Grajaú-Carioca) e 422 (Grajaú-Cosme Velho)".

Abro aqui um parênteses: percebe-se que o repórter nem sequer conhece a região. Criar um ônibus do Grajaú para a Estação Carioca como forma de integração é um absurdo que, nem que estivesse bêbado, o secretário de transportes cometeria. O jornal não entendeu que a linha será entre o Grajaú e o metrô mais próximo, na Tijuca.

Segundo a última pesquisa IBOPE/TVGlobo, divulgada no começo de setembro, é justamente a Tijuca (e região) um dos lugares onde os opositores de César Jandira, Crivella e Conde, empatados com 11% possuem o maior número de votos.

O desespero da prefeitura em mostrar um trabalho que nunca fez unido ao interesse eleitoral de um vereador da região fica claro no último trecho da reportagem-barra-comunicado de imprensa: "No Diário Oficial de hoje (9/9), o município cria sistema semelhante ligando o Andaraí à estações do metrô. A data do início da circulação dos ônibus, no entanto, ainda está sendo estudada pela prefeitura". Quando começará a funcionar? Por que a data, e não a forma como é feita a integração, é que "está sendo estudada"?

Continua o diário carioca: "A integração ônibus-metrô aliviará o bolso de quem tinha que sair da Muda ou da Usina para a Saens Peña para pegar o metrô. Como o percurso normalmente só era possível tomando duas conduções, os passageiros deverão economizar R$ 1,60 com o novo sistema". Esta é uma carta na manga que dá aquela vantagem básica nesta tão "democrática" disputa eleitoral.

"O subprefeito que você conhece"

É ali, no número 764 da Conde de Bonfim, na Usina, que fica localizada a Subprefeitura da Tijuca e Adjacências. Luiz Humberto, que foi subprefeito até abril de 2004, quando se licenciou para se candidatar a uma vaga na Câmara Municipal, pode ser visto hoje nos panfletos distribuídos em toda a região. O meu eu ganhei em Vila Isabel. Em letras grandes: "METRÔ-Ônibus Integração - Parabéns César Maia!"

Menos de um dia depois do decreto da prefeitura, Luiz Humberto já estava com o panfleto pronto, de forma que fosse distribuído já no dia seguinte ao decreto. Apesar de não estar definida a data do começo da integração entre o metrô e o Andaraí/Grajaú, o candidato a vereador, ao lado de César Maia e Solange Amaral (candidata ao governo do Estado em 2002), destaca que "esta é uma vitória de Luiz Humberto, o subprefeito que você conhece".

Não há qualquer referência ao fato de Luiz Humberto não ser mais o subprefeito da região. Além disso, fica evidenciado que quem tem livre circulação nos corredores da prefeitura e subprefeituras têm muito mais o que falar sobre suas "realizações em prol da comunidade". Ao perguntar à assessoria de imprensa da prefeitura qual era o nome do subprefeito da Tijuca, nossa revista deparou com a seguinte resposta:

Hum... deixe-me ver... [com voz bem baixa, diz:] Luiz Humberto... [voz alta novamente] ok, achei... ele se chama Vinicius Chueri, C-H-U-E-R-I, da Silva Barbosa. Ele entrou em abril.

O "improviso" como referido na matéria é, na verdade, uma forma de dizer ao morador desta região que o transporte é uma das prioridades do prefeito. Pelo menos nas eleições. Pouco importa, em uma sociedade onde o "aqui e agora" parece prevalecer, em detrimento das estratégias de longo prazo, que pensem de forma mais racional o futuro da cidade.

Alguns cariocas parecem não entender que a política não é um teatro onde apenas um pode fazer o papel de "populista", anulando qualquer outro projeto igualmente reacionário. Se o carioca é cúmplice disso tudo, votando nas mesmas pessoas cujas práticas critica nos bares e becos da vida, merecerá então sofrer por conta de seus próprios atos? Tem gente que acha que sim. Mas até quando seremos meras marionetes.
 

Gustavo Barreto é editor da revista Consciência.Net (www.consciencia.net), colaborador do Núcleo Piratininga de Comunicação (www.piratininga.org.br), estudante de Comunicação Social da UFRJ e bolsista do Programa Institucional de Bolsa de Inciação Científica (PIBIC) pela ECO/UFRJ

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