"Conosco ninguém podemos"
Carlos Chagas, 10 de setembro, 2004

BRASÍLA - Pentacampeão mundial de futebol, o Brasil caminha célere para se transformar no grande vencedor do campeonato promovido pela Organização Internacional do Comércio. Vencemos recentemente a guerra do algodão, como agora a do açúcar, contra os Estados Unidos. Antes, derrotamos a União Européia na briga do álcool e o Japão, na batalha do minério de ferro. Ainda agora, continuamos disputando com os Estados Unidos o torneio do aço, do suco de laranja e dos calçados. Com a Rússia, a carne bovina, e com a China, o frango. 

As vitórias são nossas, alardeiam tecnocratas, economistas e exportadores, entre entusiasmadas celebrações da mídia. A cada semana o presidente Lula deveria promover uma reunião com os campeões de cada setor, até benzendo as medalhas, perdão, os certificados, da mesma forma como seus antecessores faziam. A evidência é a mesma de sempre: "Conosco ninguém podemos"...

Só que há um pequeno detalhe. Ganhamos mas não levamos, porque a entrega dos prêmios pelas vitórias, na OMC, está condicionada a uma premissa fundamental: só as nações poderosas têm direito a eles. Só o mundo rico dispõe de força para impor as sentenças da OMC. Países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento podem vencer, como nós, mas as vitórias não se traduzem em vantagem. 

Porque a organização é gerida e dominada, assim como foi fundada, pelos que efetivamente comandam a economia mundial. Eles simplesmente não cumprem as decisões dessa singular corte comercial que criaram, porque quando estão bonzinhos recorrem delas, sempre com efeito suspensivo. Ou criam novos obstáculos, quando não encontram outras formas de subsidiar seus produtos. 

Pior do que estarmos sendo enganados é acreditarmos e comemorarmos o engano, sem protestar. Missões de patetas são enviadas mundo afora para tentar negociar, toda vez que sofremos os efeitos de mais uma truculência. Acabamos enrolados, acovardados, mesmo diante de países tão fracos como nós. Aí está o exemplo da Argentina, na sensacional partida dos eletrodomésticos. 

Essas histórias se contam ao tempo em que o governo e as elites acabam de lançar a campanha do patriotismo, pretendendo ver todos de verde e amarelo e esgoelando-se pelas ruas em comemorações como a do Sete de Setembro. 

Solução: inverter equação neoliberal

Fazer o quê? Nem de longe declarar guerra à Organização Mundial do Comércio, muito menos aos nossos contendores. De jeito nenhum, também, erigir muralhas nas fronteiras do País, determinando que quem está fora não entra e quem está dentro não sai. A única solução seria inverter a equação neoliberal que nos assola. Cuidar prioritariamente do mercado interno. Sem fechar os canais externos, é óbvio, mas, acima de tudo, olhar para nossas necessidades.

Se os argentinos não querem mais comprar fogões e geladeiras, azar o deles, porque mantida a produção e estabelecidos mecanismos internos de crédito e subsídio, que tal ver uma geladeira e um fogão na casa de cada brasileiro? 

Os chineses fazem beicinho para importar nosso frango e nossa soja? Lig-lig-lé para eles, vamos botar as penosas na panela dos pobres enquanto o grão servirá para engordar o gado, quem sabe proporcionando um bife por semana para cada trabalhador aqui dos trópicos, mesmo em detrimento dos antigos camaradas das estepes.

Como seria bom se cada brasileiro calçasse ao menos um sapato, ou se pudesse tomar um copo de laranjada de manhã. O aço, que precisa aprender a falar inglês? Ora, a construção civil nacional seria a maior beneficiada, mas não a única. 

E assim por diante, com ênfase para o álcool, capaz de ser cada vez mais misturado ou até de substituir definitivamente a gasolina, muito mais cara. Algodão, minério de ferro e quanta coisa mais, de que dispomos aos montes, serviriam para tornar o Brasil não só um país rico, que já somos, mas um país com uma população rica, que não somos? 

Fica evidente que uma virada dessas prejudicaria as elites interessadas em enriquecer a custa do nosso enfraquecimento, como exigiria um governo disposto a promover mudanças de verdade, daquelas sempre prometidas mas raramente cumpridas. Enquanto esse milagre não acontece, vamos continuar festejando nossas vitórias na Organização Mundial de Comércio...
 

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