Notícias esparsas mas correlatas
Milton Temer, 24 de agosto, 2004
 

São todos fatos concretos, divulgados sexta-feira, sem a merecida repercussão. Num deles, uma consultoria da Pricewaterhouse revela o aumento de 50% nas operações de compra de controle de empresas brasileiras por estrangeiros, entre janeiro e julho deste ano. Foram 47, em 2004, contra 31, nos mesmos sete meses de 2003. A consultoria, evidentemente, mostra isso como dado positivo, ''reversão de uma tendência de queda que se afirmava desde 1999''. Na verdade, trata-se de desnacionalização de nosso parque industrial e comercial; do verdadeiro caráter da retomada dos tão decantados investimentos ''produtivos'' em nosso país, em nada distinto do período das grandes privatizações predatórias do mandarinato tucano-pefelista de FHC. 

No outro dado, relatado por correspondente da Folha de S. Paulo em Washington, Fernando Canzian, as maiores empresas norte-americanas com negócios no Brasil voltaram a lucrar, mas não reaplicam no país que lhes gerou a benesse. Privilegiam, segundo os balanços recém-divulgados nos Estados Unidos, países da Ásia, como China e Índia. 

Ou seja, as multinacionais se empanturram em reais, aqui, mas remetem seus lucros e dividendos, já convertidos em divisas fortes, para que suas matrizes reinvistam na Ásia, onde fluxos de capitais externos são bem-vindos, mas submetidos a rigoroso controle. 

É bastante oportuno que tais informações venham à luz no bojo das celebrações do cinqüentenário da morte de Getúlio Vargas. Melhor ainda, em tempo de destaque, ora intenso, dado, sem nenhum senso crítico ou analítico, a índices econômicos favoráveis a segmentos com alto poder de concentração de riquezas - o agronegócio, exportador de alimentos, e o sistema financeiro, que não cessa de ver seus lucros crescerem de forma obscena. 

Mas tais dados servem também como balizamento para comparação entre os dois espaços marcantes de nossa história republicana. 

De um lado, a Era Vargas, nos seus dois momentos - o autoritário, do Estado Novo, e o democrático, dos anos 50. Do outro, o fim de século neoliberal. Collor, dando a partida, no início dos 90; FHC, aprofundando, nos seus anos de mandarinato tucano-pefelista; e o presidente Luiz Ignacio Lula da Silva, consolidando, na abertura do terceiro milênio. Para, lamentavelmente, deixar claro que andamos para trás.

Estamos aí cantando loas a uma retomada de crescimento previsível, em função de péssimos resultados anteriores, sem nos darmos conta, uma vez mais, do que se passa com a vizinha Argentina, em seus confrontos ininterruptos com o FMI. E basta recorrer ao noticiário da mesma sexta-feira, lá num canto de página do caderno especializado da mesma Folha paulista, a matéria da correspondente em Buenos Aires, Claudia Dianni, para constatar o que se tenta ocultar. ''A economia argentina cresceu 8,4% no primeiro semestre de 2004 sobre o mesmo período do ano passado. O resultado revela que o país manteve praticamente o mesmo ritmo de atividade econômica do ano passado, quando o PIB teve expansão de 8,7%''. 

Enquanto isso, depois da lamentável redução de 0,2% no nosso PIB em 2003, festejamos, com generoso otimismo, a possibilidade de um crescimento de 4% para 2004. 

É a saga triste do povo brasileiro. Justamente o governo Lula, o que era esperado como agente de um profundo processo de mudança qualitativa de nossas relações sociais; de um processo que, para além de recuperar direitos suprimidos na década de 90, geraria um ciclo de desenvolvimento nacional soberano e radicalmente democrático; dá mais um passo para o grande retrocesso. E, mais grave, um retrocesso camuflado por retórica assistencialista altamente deseducadora. Numa vertente, garantindo os privilégios do grande capital, por meio de políticas totalmente acordes com os ditames do FMI. Na outra, neutralizando as mobilizações do movimento social que, na década de 90, junto com o saudoso PT de lutas, havia conseguido frear algumas das iniciativas predatórias, que lhe vieram a ser impostas pelo PT pragmático, no governo. 

PS - Para descrever em detalhes os paradoxos da Era Vargas - a tragédia autoritária, no contraponto das enormes conquistas socioeconômicas -, livro excelente de Juremir Machado da Silva, Getúlio, está sendo lançado. Complemento perfeito para O dia em que Getúlio matou Allende, de Flávio Tavares. Ambos, editados pela Record.
 

Milton Temer é jornalista. Publicado no Jornal do Brasil de 24/8/2004
 

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