| MST alfabetiza agricultores
Rodrigo Valente, de Recife
(PE). Brasil
de Fato, 6 de maio, 2004
Milhares de trabalhadores rurais jovens e adultos, organizados pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), fizeram uma grande festa, dias 29 e 30, em Recife, Pernambuco, para comemorar a entrega de seus certificados de alfabetização. O movimento, em parceria com o Ministério da Educação, no programa Brasil Alfabetizado, formou a primeira turma de cinco mil camponeses jovens e adultos no Estado. A cerimônia também foi marcada por um expressivo ato político por terra, trabalho e educação, que contou com a presença de representantes dos governos federal, estadual e municipal, movimentos sociais, intelectuais, artistas e políticos. Depois de uma homenagem ao educador Paulo Freire, a educadora Ana Maria Freire, viúva do educador, agradeceu. A parceria entre MEC e MST nasceu com o programa de erradicação do analfabetismo do governo federal. Foram formadas nos diversos assentamentos e acampamentos do MST, em Pernambuco, 354 turmas, que tiveram aulas noturnas entre os meses de junho de 2003 e janeiro de 2004. Os trabalhadores rurais com mais escolaridade foram capacitados pelo ministério e se tornaram monitores. O MST agora vai cobrar do poder público a continuidade dos estudos para os jovens e adultos formados. Segundo Rubineusa Leandro, do setor de educação do MST, "agora é preciso criar as condições para que essas pessoas possam continuar seus estudos". Hoje a parceria entre MST e MEC é responsável pela alfabetização de 27 mil pessoas em todo o Brasil. Jaime Amorim, da coordenação estadual do movimento, defende uma política de educação voltada para o campo: "Não queremos ter de ir às cidades para estudar; queremos uma pedagogia voltada para nossa realidade", diz. "Não queremos só terra. Queremos educação, cultura, esporte, lazer e tudo que é preciso para uma vida digna", disse Amorim. A vida recomeça Para muitos dos formandos, esse significativo passo representa o início de uma nova etapa de vida. Antônia Domingo dos Santos, de 51 anos, conta que não pôde estudar porque trabalha no campo desde cedo: "É um grande orgulho estar alfabetizada. Antes meus documentos eram assinados no dedo. Agora sei ler, escrever e quero aprender mais". O agricultor Arnóbio Francisco da Silva, de 48 anos, justifica sua felicidade: "Não dependo mais de outras pessoas para fazer muitas coisas". Sirlei Maria do Santos, que queria aprender, mas não ia à escola por vergonha de estudar com as crianças, ressalta: "Quando a gente estuda, vê o mundo diferente". Maria Antonia dos Santos Silva, de 50 anos, é testemunha de um drama comum entre os alfabetizados: "Estou muito feliz por saber escrever meu nome e um bilhetinho. Só não vou continuar a estudar pois tenho problema de vista e não tenho dinheiro para comprar óculos". A marcha planejada para encerrar
a cerimônia de formatura dos alfabetizados culminou com uma visita
dos sem-terra à praia de Boa Viagem. Alguns trabalhadores rurais,
na faixa de 50 a 60 anos, só conheciam o mar pela televisão.
Muitos mergulharam de roupa; alguns provaram a água para conferir
o gosto. O agricultor Cícero Alves da Cunha, de 41 anos, nunca tinha
visto as praias de Recife. "Achei lindo demais, fiquei até emocionado",
disse ele, avisando que não entraria no mar por medo "de toda aquela
imensidão de água".
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