O avesso da fé
Adilson Luiz Gonçalves, 8 de setembro, 2004
 

Sobre política, futebol e religião não se discute!

Isso é verdade, para quem não está preparado para conviver com o contraditório. Se estivesse, com certeza, saberia tirar proveito de uma saudável troca de opiniões; mas quando o único interesse é ganhar, todos saem perdendo, principalmente a verdade.

Por isso uma afirmação do comentarista Arnaldo Jabor - no “Jornal da Globo”, de 06/09/04 – me deixou profundamente perturbado: ao falar sobre a morte de crianças, no malfadado desenlace da ocupação da escola na Ossétia, ele concluiu que para os muçulmanos isso não representava nada. Segundo Jabor, para os adeptos do Islã nós não passaríamos de “cães infiéis”, qualquer que fosse a idade. Assim, para nós só haveria duas opções: a conversão ou a morte, para glória de sua fé...

A evolução de sua linha de raciocínio já me incomodava terrivelmente, quando ele concluiu que essa seria a ótica do fanatismo, que, infelizmente, vem ganhando muitos adeptos no oriente. Acrescentou, entretanto, que preocupava muito o silêncio de lideranças esclarecidas, religiosas e políticas. Enquanto os extremistas de praxe defendiam a “natureza” do ato, ninguém condenou os ataques! Seria aquiescência ou medo de ser vítima do próprio remédio doméstico?

Felizmente, Jabor terminou neutralizando um pouco da acidez e aspereza de seus comentários, com um apelo ao entendimento e à união dos esclarecidos contra toda a espécie de fanatismo.

De fato, a religião não é o problema: este, gravíssimo e histórico, reside no mau uso da religião! 

Na maioria dos casos, o que está em jogo não é a salvação das almas, mas o poder sobre elas, pois poucas educam para o congraçamento entre os povos. Preferem, em vez disso, fomentar a discriminação e a contenta. 

Não seria surpresa se, ao juntarmos todas num mesmo recipiente, verificássemos que, apesar de oriundas da mesma substância, não se misturariam. Pelo contrário, cada uma buscaria, a qualquer custo, ocupar a superfície. Talvez as moléculas buscassem o equilíbrio, mas o invólucro da mútua ignorância e ódio – doutrinados desde o berço – impediria a formação de uma substância universal. O resultado é que, em vez de água para saciar todas as sedes, a mistura produz nitroglicerina, altamente instável!

O pior é que essa disputa não opõe, apenas, as grandes religiões entre si: cada uma delas também tem seus problemas internos, seus cismas e correntes, que também disputam entre si. Sob o mesmo “teto”, uns tratam os outros como infiéis e oferecem as mesmas duas opções: a conversão ou o inferno, pela morte induzida ou natural. Todos são “povos escolhidos” e únicos herdeiros e merecedores das benesses divinas. Se todos acreditam nisso, por que não crer, então, que todos realmente o são, e pronto? Todos ficariam felizes... E o mundo em paz!

A fé poderia curar feridas e unir os seres humanos, mas as lideranças preferem cultivar as chagas e apelar para guerras santas que, quase sempre, não passam de manobras para manter o poder secular. O que deveria tornar a vida das pessoas melhor, a torna um inferno de ódio, que torna a morte única alternativa para encontrar o paraíso.

Todos falam que suas doutrinas prezam a paz e a convivência pacífica, mas poucos as praticam. Preferem a doutrina da conveniência, pois justificam seus atos extremos, enquanto condenam os dos outros.

O desvirtuamento de princípios chega a tal ponto, que todo o ato humano desprezível deixa de ser julgado individualmente, para ser considerado um defeito da “espécie”. 

Os EUA invadem o Iraque, em busca de petróleo árabe, mas a culpa não é dos interesses comerciais, que os árabes também têm: é dos cristãos, infiéis! Rebeldes chechenos ocupam uma escola no Cáucaso, mas a culpa não é dos russos, que mantém a Chechênia dependente, por ser região petrolífera: é dos muçulmanos, terroristas!

Sobra culpa, mas falta perdão! Transborda loucura, mas inexiste razão!

Mas todos alegam ter razão! Todos são os verdadeiros guardiões da fé! Todos prezam pelos fundamentos de suas religiões! Mas, afinal, que fundamentalismo é esse, que não tem a paz e o amor como base, que prega a aniquilação de outros filhos do mesmo Deus, apenas por não pensarem igual?

Jabor afirmou constar que a maioria dos terroristas do mundo era muçulmana! Se terrorismo é destruir vidas, semear o medo e rejeitar o contraditório, então isso não é uma condição única desse povo, que já deu poetas e cientistas maravilhosos; ela faz parte, infelizmente, de nosso cotidiano, mesmo entre irmãos da mesma fé! E qualquer que seja a religião, nunca ninguém, por mais “iluminado” que se acredite ou faça crer, conseguirá provar ou justificar que o ódio, a vingança e a morte, com o sangue de inocentes nas mãos, fazem parte do projeto de Deus para a humanidade!
 

Adilson Luiz Gonçalves é Engenheiro, Professor Universitário e Articulista. Contato: algbr@ig.com.br ; Leia outros artigos do autor na página: http://www.algbr.hpg.com.br/artigos.htm
 

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