Scheidt sangue bom

Guilherme Fiuza, No Mínimo, 25 de agosto, 2004

Por que a campeã mundial, cujo nome batizou um salto que não existia antes dela, treme no momento mais importante de sua carreira? Ninguém pode ter dúvidas de que Daiane dos Santos estava emocionalmente derrotada na hora de buscar a medalha de ouro. Sua expressão de pânico, em close, segundos antes de se apresentar, e sua respiração brusca prenunciavam os erros grosseiros. Ninguém nunca vira Daiane terminar um salto quicando daquele jeito, tendo que puxar o freio de mão para não descarrilar de vez. Tecnicamente estava fora de si, e na hora da consagração – ao contrário do iatista Robert Scheidt – fez tudo errado.

Scheidt fez tudo certo, embora infelizmente, afora a minoria de iniciados, não saibamos o que ele fez. O Brasil quer se ufanar de seu maior atleta olímpico, mas não tem a menor idéia de quais foram as suas manobras de craque, do que o diferencia, enfim, do medalha de prata – ou do último colocado. Até o duplo twist carpado é mais fácil de entender. O iatismo talvez seja o único esporte olímpico que quase não faz diferença acompanhar por fotos ou pela TV. Alguém captou a imagem de uma ultrapassagem decisiva do campeão sobre seu maior rival?

Robert Scheidt já passou à história como um grande brasileiro, e além de tudo é um personagem simpático. Mas está na cara que o Brasil preferia ter sido feliz com Daiane, a gauchinha voadora. E nessas horas, aparece ali no fundo da alma nacional aquela pergunta incômoda: o que o lourão tem que a neguinha não tem? Nem vale a pena mobilizar psicanalistas e antropólogos em busca dessa resposta, mas é curioso observar o que passa na cabeça dos brasileiros, mesmo através dos atos falhos.

Na reta de chegada da última regata da classe laser, os locutores se desdobraram para agregar à cena a emoção que ela não provocava. Afinal, faltavam poucos metros para o ouro. Embora diante de uma imagem virtualmente parada, alguns narraram aqueles minutos finais como se transmitissem uma prova de turfe. Lembrava um pouco as transmissões de futebol pelo rádio, em que até a jogada tediosa no meio-campo ganha clima de vida ou morte. “Lá vem Robert Scheidt, é a arrancada final, agora ninguém segura...!”, exclamavam os locutores, num tom crescente de quem estava prestes a soltar um grito de gol a qualquer momento.

Foi nessa hora que o comentarista de iatismo da Globo, na sua difícil missão de traduzir as virtudes do herói e as características gerais da prova (“são quantas bóias mesmo?”, perguntava-lhe o locutor), proferiu seu comentário definitivo. O desafio era compreender algumas das qualidades, como regularidade e velocidade, que destacavam Scheidt dos demais, e aí veio o diagnóstico certeiro: “Nessas horas, o sangue alemão faz a diferença.”

Ou seja: por muito pouco a felicidade verde-amarela não foi completa. Se a maior ginasta brasileira se chamasse Daiane Scheidt, ela haveria de saber triunfar também. Mais seguro mesmo seria se a grafia fosse “Diane”, deixando a Daiane, ou mesmo a Daieine, só para a pronúncia. Com um nome desses, dificilmente ela tremeria na hora decisiva.

Disparates à parte, Scheidt foi frio, calculista, olímpico, enquanto Dos Santos afundou sua técnica numa tempestade de emoção. Mas Dos Santos é para sempre o nome de uma manobra olímpica sobre-humana, enquanto Scheidt continuará sendo apenas um digno e honrado sobrenome humano. 

O que aconteceu com Daiane – combinando-se de deixar para lá a tal da frieza alem㠖 talvez tenha sido o mesmo que aconteceu com os locutores na prova final do iatismo: síndrome de patriotismo exacerbado. Com um pouco mais de sobriedade, talvez se aceite um dia que iatismo não é futebol, que o campeão não é o Pelé da vela e que mito não se cria com palavra de ordem. Aí, com a emoção livre das distorções ufanistas, ficará evidente que é muito mais fácil dar o duplo twist carpado sem um país pendurado nas costas.
 

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