No ar: Falta feijão com arroz na campanha!
Daniela Name, O Globo, 29 de agosto, 2004
 

Vi o programa eleitoral de sexta-feira em Londres. E, olha, nem precisei da vassoura do Harry Potter para ir até lá. Londres é uma encruzilhada da Cidade de Deus, a favela carioca que até Hollywood já conhece — ou acha que conhece — depois do filme de Fernando Meirelles. E foi lá, em Londres, que encontrei os funkeiros Cidinho e Doca, que iam passar meia hora comigo e os candidatos a prefeito.

Os dois são autores do “Rap da felicidade”, aquele que dizia “Eu só quero é ser feliz/ Andar tranqüilamente na favela onde eu nasci”. Fui recebida com os cumprimentos locais (E aí, família? Fala, sangue!), saímos de Londres e atravessamos uma ponte. E embaixo dela não passava o Tâmisa, é claro, mas uma baita vala negra. Chegamos num boteco e ligamos a TV de frente para o prato-do-dia: arroz, feijão, bife, batata frita.

Aí Nilo Batista (PDT) lembrou que Luiz Paulo Conde (PMDB) propôs a construção de um muro isolando as favelas. Não demorou para abalar Doca:

— O muro sempre existiu. Só falta o tijolo.

Cesar Maia (PFL) comemorou o crescimento do turismo.

— Ele quer deixar a Zona Sul bonita para o turista, que gasta uma grana lá, enquanto a Cidade de Deus tem um único posto de saúde, tá ligada? — perguntou Doca.

Eu tava. E eles também: logo depois Conde (PMDB) falou da Linha Amarela.

— Pô, isso foi legal — opinou Cidinho. — O problema é que depois eles privatizaram, né? E aí um bacana tá lá, mamando o dinheiro da gente...

Jorge Bittar (PT) falou do CEU, escola inventada pela prefeitura de São Paulo que quer adotar aqui.

— Ih, rapaz, parece um Brizolão! — reconheceram os dois, em coro, numa referência aos Cieps, hoje escolas mais do que comuns.

O programa acabou e Doca ficou lembrando das imagens da guarda municipal batendo nos camelôs:

— O governo joga o povo contra o povo. Tem gente aqui na Cidade de Deus que é policial ou guarda municipal. E aí vai bater no velho que vende bala em outro bairro. Tem bandido, mas trabalhador também apanha. Igual ao funkeiro, que sofre preconceito. Posso fazer um apelo para os candidatos? 

Fala, Doca, já é.

— Queria pedir a eles que olhem para a cultura feita nas favelas. A favela não apareceu agora na TV. E é por isso que a violência continua, porque a favela não recebe atenção e educação. Isso pode tirar os moleques da pista do tráfico, né?

É, formou. Deixei Londres e a Cidade de Deus com gosto de feijão na boca. E achando que Cidinho e Doca tinham me dado uma refeição mais completa do que o PF requentado na propaganda. Valeu, família!
 

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