| Senso de proporção
Luis Fernando Verissimo, 17 de junho, 2004 Na semana em que 40 senadores aprovaram a nomeação para o Tribunal de Contas da União de um homem que deve explicações em juízo das suas próprias contas, a notícia mais destacada do Senado da República foi o beijo que a Heloísa Helena deu no Suplicy. Alguém poderia alegar que, longe de ser uma falha na avaliação da importância relativa das duas coisas para a nação, a ênfase no beijo em vez de no absurdo da votação foi um exemplo de síntese jornalística: o beijo simbolizava o absurdo. Assim como o beijo da Heloísa Helena no Suplicy, não importa a que distância da boca, não significaria mais do que afeto, a votação dos 40 senadores não seria mais do que uma manifestação de carinho por um par, descartadas todas as outras considerações e rejeitadas todas as interpretações maliciosas. Ou então seriam duas amostras de falta de decoro parlamentar, só que uma era mais fotogênica do que a outra e merecia mais espaço. Outros alegariam que a imprensa brasileira simplesmente perdeu todo o senso de proporção, uma hipótese menos generosa mas não menos irrealista. Nunca a grande imprensa brasileira teve tanta noção da proporção que convém manter entre os fatos. Exemplo: na mesma semana em que a nação se horrorizava com novas notícias de um dos mais cruéis e reincidentes efeitos da privação em que vive o país, a desumanidade do seu sistema carcerário, a mesma imprensa que denunciava o horror parecia ter se reunido e combinado exaltar como o grande, senão o único, sucesso do governo Lula, o ministro Palocci — que, com todas as suas boas intenções e qualidades pessoais, representa a continuação da política econômica responsável pela privação. O grande desafio para os grandes interessados na continuação da política do governo anterior é impedir que se faça a simples, singela, óbvia, inescapável ligação entre causa e efeito. É preciso, de todas as maneiras, evitar a conclusão de que os compromissos embutidos no modelo mantido são o que impede o investimento social que diminuiria o horror. Ou seja, a perigosa, impensável conclusão de que dois mais dois são quatro. http://oglobo.globo.com/jornal/colunas/veriss.asp
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