Alvos e erros
Luis Fernando Verissimo, 4 de julho, 2004

Segundo o Tutty Vasques, a diferença entre o Clinton e o Bush é que quando o Clinton errava o alvo só acertava o vestido da moça. Historicamente, não foi bem assim: o Clinton também acertou outras coisas que não devia, como um laboratório no Sudão que não era o que se pensava e (ups!) uma embaixada chinesa em Belgrado. Mas nada comparável, em repercussão, ao vestido da moça. Já qual era o alvo que o Bush errou no Iraque, ou se errou, será discutido por muito tempo.

Os alvos declarados — as armas de destruição em massa disponíveis para o terror mundial e o arsenal nuclear operacionável em 45 minutos — não existiam. O objetivo era apenas bons negócios pós-guerra para o Cheney e seus favorecidos e para os petroleiros patrocinadores da sua carreira e do seu governo? Por favor, cinismo não. Era só a gana de pegar o Saddam? Não se sabe quantos morreram naqueles bombardeios humanitários iniciais da guerra, quando tentaram matar o homem “de primeira”. Erraram, e continua morrendo gente numa guerra que começou com mentiras e só acabou de mentira. E o Saddam continua aí, agora com um púlpito.

O alvo maior dos ideólogos neoconservadores do governo Bush, de controlar a região e seus recursos para a potência americana seria o mais plausível e até o mais defensável, em termos de realpolitick , conhecido eufemismo para amoralismo prático, de todos. Mas errar esse alvo também seria o maior desastre de todos. Um desastre com precedentes. O resultado da intervenção americana no Irã, quando derrubaram o Mossadegh para instalar o Xá, foi a teocracia dos aiatolás — a que os americanos acabaram tendo que escalar o Saddam, que já era um ditador sanguinário mas um ditador sanguinário conveniente, para enfrentar. Como tudo isso vai acabar ninguém sabe, mas pode muito bem acabar em ironia. E ironia histórica, o pior tipo. Com o Iraque governado por aiatolás fundamentalistas e, quem sabe, um Irã secularizado aliando-se aos americanos para contê-los.

Mas, enfim, dizem que só tem petróleo na região para mais uns 40 anos.
 

Publicado no jornal O Globo em 4/7/2004

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