Mistério e Beleza do Inconsciente
Contemporâneos do Museu de Imagens do Inconsciente são apresentados em mostra no Centro Cultural da Saúde, no Rio; o Museu Vivo de Engenho de Dentro soma-se às comemorações pelas conquistas da Luta Anti-manicomial. Por Juliana Lanzarini, junho de 2004
 

O Museu Vivo de Engenho de Dentro reúne trabalhos dos atuais clientes dos ateliês terapêuticos do Museu de Imagens do Inconsciente e mostra que os estudos da psique humana continuam a fascinar pela beleza e mistério. Nise da Silveira costumava comparar a produção do ateliê do Museu de Imagens do Inconsciente a uma padaria, pois a toda hora estava saindo "um pão quentinho".

Quatro anos após a morte da psiquiatra que revolucionou os métodos de tratamento de portadores de transtornos metais, o público vai poder conferir o resultados  da "última fornada". A mostra “O Museu Vivo do Engenho de Dentro” apresenta, de 17 de junho a 02 de outubro, no Centro Cultural da Saúde, obras inéditas dos atuais freqüentadores desses ateliês.

A mostra é composta por 51 trabalhos entre pinturas, desenhos e modelagens. Um conjunto de obras impressionante, seja pelo fascínio das formas como também pela revelação do inconsciente. São imagens que levantam questões clínicas que não encontram resposta na formação psiquiátrica acadêmica. Criações enigmáticas como o óleo sobre tela pintado por Carla Muaze, que foi considerada pelo crítico Frederico Morais “uma pintora no sentido pleno da palavra – ousada na forma, na cor e, sobretudo, nos temas, esbanjando sensualidade e fantasia".

Peças que fascinam pelas formas como as modelagens em barro de Ênio Sérgio, que freqüenta o ateliê desde 1995 revelando um talento impressionante para a modelagem. E trabalhos que nos fazem refletir sobre a importância da luta pela inclusão social dos clientes psiquiátricos como sugerem os quadros de Sônia Catarina, brutalmente assassinada em uma favela do subúrbio em janeiro de 2004, numa demonstração de intolerância da sociedade às diferenças.

O Museu Vivo de Engenho de Dentro soma-se às comemorações pelas conquistas da Luta Anti-manicomial e também pelo reconhecimento da universalidade do acervo de Imagens do Inconsciente por meio do tombamento das coleções, efetivado recentemente pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN.

Mesmo depois da morte da sua querida mestra, o Museu continua seguindo as diretrizes de Nise, como destaca Gladys Schincariol, coordenadora de projetos da Instituição. "Continuamos a nos dedicar essencialmente ao processo de evolução clínica do cliente, num conjunto de ações que trabalhem o indivíduo de forma mais global, como um todo, exclusivamente direcionado à inclusão social", afirma Gladys.

Segundo a coordenadora, Nise da Silveira foi, sem dúvida, uma precursora da Luta Anti-manicomial: "Nise foi além, ao propor um processo terapêutico, no qual o indivíduo entra em contato com seu mundo interno. É um trabalho muito mais profundo porque vai de dentro para fora".

Há mais de 50 anos, Nise modificou o conceito de tratamento psiquiátrico, com a criação da Seção de Terapêutica Ocupacional no antigo Centro Psiquiátrico Nacional do Rio de Janeiro. Passou a oferecer a seus pacientes oficinas nas quais podiam liberar sua criatividade em trabalhos com argila, pintura, dança, costura e outras formas de expressão.

Foi através dessas atividades expressivas que surgiria, em 1952, o Museu de Imagens do Inconsciente. As obras coletadas diretamente dos ateliês logo tiveram o reconhecimento de artistas, de intelectuais e de críticos de arte. Passaram então a fazer parte de exposições em congressos e museus em todo o mundo.

No entanto, para os profissionais que trabalham no setor, essas criações continuam a significar um objeto de estudo dos mistérios do inconsciente. "Preferimos chamar de atividades expressivas, criativas ou livres", acrescenta Gladys.

Além de participação nos ateliês de pintura e modelagem, o Museu de Imagens do Inconsciente oferece a seus clientes um grupo literário e atividades de higienização e auto-estima.

Serviço
A mostra O Museu Vivo do Engenho de Dentro pode ser visitada de terça a sábado, das 10 às 17 horas, no Centro Cultural da Saúde, que fica na Praça Marechal Âncora, s/n.º (Próximo à Praça XV). A entrada é franca. Informações: (21) 2240-5568.
 

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