Recomeço
por Rolando Lazarte, 28 de mayo, 2004.
“Nenhum de nós pode vencer sozinho
nossas principais dificuldades.
A parceria, a colaboração, a aliança,
são as chaves para vencer os desafios”
.
As palavras escritas na louça verde. Um coelho desenhado a giz, uma criança que parecia índio, e uma mãe contente. Um menino brincando fechando os olhinhos. Gonzaguinha. Um piano de nova era era uma escalera.

Era difícil não relembrar Pessoa. Não relembrar Cabedelo. Um tropeço, uma interrupção, podem ser o reinício de uma dança. Viver cada segundo como se fosse o último, um privilégio invejado pelos deuses.

Se se pode começar de qualquer coisa, como Cortázar nos lembra – e ésta é uma noite de lembranças -, por quê não relembrar o olhar da senhora que se despediu na saída com uma mirada que nunca olvidaria.

Tinha terminado a reunião de comemoração do dia das mães na Associação de Moradores do Conjunto dos Ambulantes, bairro de Mangabeira, João Pessoa, Paraíba, Brasil. O piso de cimento na sala da reunião parecia uma teia de aranha gigante a sustentar os nossos pés.

Um círculo, as mãos dadas, e cada um a dizer o quê esse círculo simbolizava. Abraços, troca de presentes. Uma mãe chorou. As mulheres precisam ser cuidadas. Valorizadas na sua condição. Uma senhora de bengala se emocionou.

Um lanche partilhado, suco de limão, guaraná, uva, mamão, bolachas. Parecia um banquete. As paredes brancas calhadas mostravam os relevos dos tijolos e lembravas de retiros em lugares parecidos. Na idade tudo é lembrança.

De um caminho que não se repete. Recomeça. De lugares distintos. De modos distintos. Mas o caminho és tu mesmo. Relaxando, respirando juntos. Quarenta pessoas na tarde ensolarada no ponto final do ônibus Trans Nacional.

Olhavas o jardim. As pessoas do povo esperando, olhando também os contornos do bairro de casas populares e os coqueiros a se estampar contra o céu celeste. O burburinho de um dia que recolhia tempos recentes e antigos. Um caldeirão e um rio.

A água a percorrer todas as linhas. As pernas esticadas formavam como uma mandala e a energia crescia. Murmúrios de aprovação às palavras que contêm. Palavras como mãos que cuidam. Uma família grande crescia.

Agradeço. Recomeço.
 

Rolando Lazarte
 


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