| Visões de 2004
— Poder e Família
Por Renato Kress, editor Consciência.Net O homem Vemos esse novo homem na classe média do ocidente. Ele se preocupa com a mulher, não bate nos filhos, é gentil, sensível e provavelmente vegetariano. Para nós talvez não importe tanto se ele existe ou não, mas sim de onde vêm essa imagem, porque ela aparece agora, esses últimos 20 anos? A psique humana — para os psicólogos —, ou a cultura — para os antropólogos —, está produzindo essa imagem, mas em resposta a quê? Talvez a uma fraqueza humana, da psique, da cultura, ou da essência humana – para os filósofos -, mas mesmo dentro da filosofia, a fraqueza, seja da ordem que for ou tendo a origem que tiver, deve ter relação com alguma forma de força, de poder. Só se verifica a fraqueza a partir de um ponto de referência com a força, já dizia o segundo poema do Tao-te-ching de Lao-Tsé. E o homem é poderoso? Não digo da questão financeira nem trato “o homem” como entidade humana do gênero masculino, senão obviamente cairíamos na questão superficial de que normalmente os homens recebem mais do que as mulheres para efetuarem as mesmas tarefas. Estou falando de poder como capacidade do homem de fazer valer o seu arbítrio. É perceptível como o homem torna-se escravo do poder que ele mesmo engendra. Falemos de estatísticas econômicas na áfrica, por exemplo. Os nativos do Zimbabwe são poderosos? Os flagelados de Ruanda? E onde nos importamos mais, nos nossos países, sem-teto são poderosos? Gays são poderosos? Jovens são poderosos? Já que estamos falando de relações de poder, na antropologia ou na psicanálise, vamos mais fundo. Vamos seccionar os gêneros. Os homens tem medo das mulheres? (ou da mulher, da imagem que formam dela?) Diz a psicologia profunda que é lógico e perfeitamente saudável que haja sentimentos mixos em relação à mulher. Jung em 1910 inventou o conceito de ‘ambivalência’* como um sintoma da esquizofrenia. Em 1930 Melanie Klein defende que ter uma ambivalência e conviver com ela é o início da fase adulta. Os desejos diversos devem ser conhecidos, abertos, conscientes, para que sejam equilibrados e manifestados. A primeira imagem política Qual seria a primeira imagem política do ser humano? Alguns psicanalistas crêem que seja a imagem da família interna, a cena que denominam ‘Eros Gamos’. Essa cena primal, para os psicanalistas está, conforme era de se esperar, ligada a imagens sexuais. É como nossos pais estão na cama. A imagem dos pais na cama é importante. Como você agora considera a atuação de cada um dos dois? Harmoniosa, compenetrante, sensual? E o quarto... porta fechada, aberta, de maneira agressiva, etc? Essa é a primeira imagem política. A primeira relação de poderes. E como ela é para você? Talvez essa imagem auxilie a demonstrar a forma com que enxergamos, a forma com que nos expomos, nos manifestamos no mundo, se somos violentos, dominadores, sensíveis, igualitários, carinhosos, indiferentes. Essa imagem pode extravasar um pouco do que somos a partir do que vemos e, também, se tentarmos mudar a imagem, podemos quem sabe influenciar na nossa maneira de agir, na nossa forma de estar. Lutamos agressivamente contra a violência? Gritamos para que todos fiquem calados? Ouvimos, ou só esperamos nossa vez de falar? Se pensamos em nossa mãe como o lado oprimido, inferiorizado, sensível e, por isso mesmo frágil, o mito de Lilith pode dar uma ajuda.** O que ela se torna e o que ela representa? Na cabala judaica ela simboliza a igualdade entre os sexos na medida em que é uma mulher equal, feita da terra como Adão e não de uma costela deste. Algumas mulheres recusam a dominação do homem e certas imagens como a dos pais na cama, dependendo da forma com que forem compostas, representam uma dominância do poder e desestabilizam nosso inconsciente. Continuando a boa ‘limpeza de
ano novo’, passemos para as relações das díades em
família. Começando pela relação mãe-filho.
Mas voltemos à nossa sociedade ocidental pós-moderna computadorizada e midiática. Aqui qualquer mãe sabe que deseja que seu filho vá e fique, ela naturaliza – através da cultura específica ocidental e não de uma ‘natureza universal do ser humano’ – a ambivalência no relacionamento e vive isso. É nesse ponto que se encaixa o pai. O ‘novo homem’ do século 21 como fator terciário O papel do pai sendo o salvador do filho e da filha fica complicado. Por um lado pela questão de colocar-se, dentro do universo dos filhos, como contraponto da representação da mãe e por outro lado por colocar-se como um fator terciário, já que segundo Lacan, o pai fica como um terceiro termo nessa relação. E voltamos à questão inicial do texto, já que qualquer pai que “se preocupa com a mulher, não bate nos filhos, é gentil, sensível e provavelmente vegetariano” deseja ser mais do que um mero ‘terceiro termo’. Na maior parte da literatura psicanalítica - de maneira quieta, escura - a função do sexo paterno nessa história entre pais e filhos é ocupar a mãe para que o filho possa sair. Sinceramente: é um insulto para a mãe essa leitura. E é um insulto ao pai que deseja ter uma relação melhor com seus filhos. Essa centralidade no sexo dentro da psicologia freudiana não abarca toda a miríade do comportamento humano, nem suas possibilidades. Obviamente existem outros graus de representação, além do ramo sexual da coisa. Senão teríamos um homem que se limitaria a ser um macho, um cara duro, embrutecido e que nunca vai afundar no “pântano” - que acredita mesmo que a mãe, que essa esfera da sensibilidade, seja um pântano - que assume essa persona e foge pelo trabalho, pelo poder, dinheiro, etc. Pais e filhas Das filhas com seus pais também se observa nos psicoterapeutas uma fixação na questão do abuso sexual ou na parte excessivamente erótica do pai em relação às suas filhas. São dois pólos. Claro que há também o problema do pai seco. O pai pode nunca ter te abusado, mesmo tentado, mas que não manda um aviso de que se importa. Muitas vezes, quando o pai está sendo carinhoso, está tomado de um sentimento de posse e não de admiração pela filha, como se espera que seja lida essa relação. Irmãos O que dizer então da relação irmão-irmã? Os livros dizem – porque os livros universais da psicologia que se pretende universal foram escritos em uma cultura particular – que, se forem amigos, são insestuosos, melhor serem competitivos, tentarem ter uma dominância na família. Talvez se houvesse uma abordagem mais harmônica nessa relação, poderíamos aprofundar determinadas questões políticas e sociais que se arrastam e formam verdadeiras patologias sociais. Não se conseguem muitas evidências sociais de trabalho conjunto entre sexos para promover um equilíbrio mútuo. Não se alcança o equilíbrio e o cérebro parte para generalizações imbecilizantes de que mulheres são isso e homens aquilo, de que todos os homens são iguais e mulheres idem. Isso é de um pauperismo de espírito que esgota qualquer possibilidade de relacionamento saudável. As mulheres Voltando à questão anterior: As mulheres são poderosas? O que as mulheres podem dizer como grupo? Que ‘não tem problema ser fraco, vulnerável, sem problema se você não vai bem no trabalho’ ou ‘você não precisa ser a fortaleza, não precisa ser o máximo’. É uma visão contraditória na medida em que representa um ideal de mulher. Será que é a mulher que precisa dizer isso ao homem ou é isso que se espera que a mulher, enquanto massa homogênea e desconsiderada em sua especificidade, tenha o dever de dizer? Enquanto os homens questionam o heroísmo, tentando construir novos modelos do mesmo como o ‘homem modelo’ referido no início do texto (aquele provavelmente vegetariano), as mulheres questionam seu aspecto e pertencimento ao ambiente cultural. Talvez fosse interessante explorar as possibilidades de apoio mútuo. Já que, em se tratando de um ser humano, gêneros à parte, o plural devia ser proibido por mera questão de bom senso. Será que os homens tem medo das mulheres? Não estou convicto de que homens e mulheres estejam subindo patamares idênticos social e espiritualmente. Mas estou convicto de que é claro que é possível imaginar algo harmônico e não uma eterna guerra sexista. É possível imaginar qualquer coisa, por que não uma nova questão, um paradigma para além do sexista? Esse conceito de ambivalência é uma das jóias da psicologia hoje, porque possibilita viver e alimentar a vivencia das questões possíveis. Perguntar sim e não, secos e puros, dificulta e incomoda pela essência existente da ambivalência. Ambivalência não é não se importar, é amar e odiar ao mesmo tempo e isso ocorre simultaneamente e é um modelo que funciona para ambas as raças de povos distintos. Quando não se consegue lidar com a ambivalência vem a esquizofrenia e a depressão, quem não tem senso de humor se influencia com tudo isso, e fica mais complicado. O humor é uma grande fonte de equilíbrio para aturar o deserto do real. Sem ele, com muita facilidade o homem se torna um sapo, e daí num girino... – ou a mulher numa bruxa e daí numa víbora. Princesas e sapos, deuses e deusas, contos de fadas, etc. Parece tão difícil falar de gente, sem esses gêneros em mitificação e arquetipicação universal. Inquietante: é muito difícil ficar aqui nessa cadeira falando de mulheres quando não sou uma. Muitas escolas feministas críticas estão escrevendo sobre a culpa feminina. Alguns papéis saídos dessas escolas colocam a culpa na mulher. De certa forma é interessante rever o quanto se culpa o pai. Não podemos estar culpando o pai por mais do que lhe cabe? Pode se parar de tomar responsabilidade em si. Talvez tenhamos que aceitar que nem sempre se pode culpar a mãe e o pai, mesmo pelo filtro de vários arquétipos, talvez não seja a melhor maneira de agir. Renato Kress, maio de
2004
Lilith tornar-se-há inimiga de Eva, a instigadora dos amores ilegítimos, a perturbadora do leito conjugal. Seu domicílio será fixado nas profundezas do mar.
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