| "Mercado" sério?
Helio Fernandes, Tribuna da Imprensa, 12 de maio, 2004 Anteontem, segunda-feira, a Bovespa-Las Vegas caiu 5,46%. No mesmo final do dia, rádios e televisões "retumbavam de quebrada em quebrada": o medo do aumento dos juros nos EUA fez a bolsa despencar. Ontem, terça, os jornalões vieram na mesma linha. Aqui mesmo, ontem, escrevendo logicamente na tarde da véspera, denunciei a manobra na contramão de tudo o que os jornalões diziam. Mostrei que era venda em massa, para derrubar as ações e recomprar. Pois ontem mesmo, com 1 hora de pregão, já estávamos em plena reviravolta. Às 11, a alta era de 3,54%, com Índice em 18.832 pontos. Brasken, que caíra 14,5%, subia mais de 2%. Petrobras, que fechara a menos de 80, abria a mais de 82. Usiminas caíra 12%, estava com mais 2%. Bradesco, que caíra 7%, subia 5%. Como acreditar em "mercado" sério? Petrobras, que anteontem caiu 5,5%, ontem subiu 7,5%, foi de 68 para 74. Telemar caiu 4%, ontem subiu 4,4%, foi a mais negociada do dia. O volume passou de 1 bilhão e 200 milhões, 70% disso jogados pelas tesourarias de bancos, que não pagam corretagem, emolumentos, CPMF, exatamente como os multinacionais. Quem vai tomar providência? Queda de mais de 5% num dia por causa de possíveis 0,25% dos juros nos EUA. No outro, a seguir, alta também de mais 5%. E os juros dos Estados Unidos? Os jornalões fizeram a festa com a manipulação dos "mercados" financeiros. Com isso agradam à Febraban, a todos os bancos, principalmente os multinacionais, que vieram para o Brasil sem nada. Aqui receberam tudo. A Folha, bem no alto, em manchete ruidosa: "Dólar vai a 3,14 e mercado projeta nova alta dos juros". Ha! Ha! Ha! Disseram isso sobre a baixa de segunda, o que dirão hoje sobre a subida de ontem, terça "nobre"? O Jornal do Commercio não teve o menor constrangimento, deu o alto todo: "Bolsa cai 5,46; dólar vai a 3,142". Usaram até ponto e vírgula, violentação filológica. O dólar a 3,142 foi para completar a linha. O Globo, mais discreto, destacou Dona Rosinha Mateus, deixou o "mercado" em segundo plano. 4 linhas de uma coluna: "Bolsa cai 5,4 e o dólar vai a 3,14". Discreto, sem opinião, sem comentário, pelo menos isso. O Dia, que não tem leitores-investidores,
jogou o "mercado" lá pra baixo, e de forma correta: "Tudo é
pretexto, bolsa cai e dólar vai a 3,14". O alto da página
ficou para Mel Lisboa, que posou para a revista Trip. E fortíssimo:
"Não vai ter tropa nem tanque na rua". Perfeito.
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