Massacre tucano
Mauro
Braga, Tribuna
da Imprensa, 5/7/2004
O Brasil é, sem dúvida,
um estranho país. Comemora o décimo aniversário do
Plano Real, como se estivéssemos no melhor dos mundos. No entanto,
estudo realizado pelo Departamento Intersindical de Estatística
e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese) denuncia o massacre a
que o governo Fernando Henrique Cardoso submeteu a população
brasileira, que continua cada vez mais sacrificada.
De agosto de 1994 até
maio de 2004, os preços administrados subiram 258,8% no município
de São Paulo, enquanto a inflação aumentava apenas
165,8%. Ou seja, os reajustes dos preços sob controle do governo
superaram a inflação em quase o dobro.
O pior são as tarifas,
que hipoteticamente estariam sob controle das agências do governo.
Desde agosto de 94, os serviços de telefonia subiram 715,1%, mais
de quatro vezes a inflação do período. O gás
de botijão também teve espantoso reajuste de 525,9%, embora
os combustíveis tivessem aumentado somente 199,3%, ocorrendo uma
disparidade inexplicável.
Os transportes aceleraram bem
acima da inflação, seja de trem (259,1%), ônibus (239,9%)
ou táxi (211,8%), mas os correios foram além, com 376%, mais
de duas vezes a inflação, enquanto a eletricidade era reajustada
em 212,6%, água e esgoto aumentavam 261,7%. Foi realmente um massacre,
à moda tucana.
Indexador I
Inopinadamente, quinta-feira
passada o Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu restabelecer
o IGP-DI como indexador das tarifas de telefonia fixa. Ou seja, as tarifas
vão subir 17,45%, bem acima dos 7,43% autorizados pela agência
reguladora. Mas será que os diligentes advogados da União
se deram ao trabalho de informar aos ministros do STJ que as tarifas de
telefonia estão fora da lei desde a privatização do
setor, no início da era FHC? Afinal, não há lei ou
contrato que justifique o reajuste de 715,1%, mais de quatro vezes a inflação
de 1994 para cá?
Indexador II
Se o tribunal tivesse sido
alertado para os privilégios concedidos por FHC às concessionárias
de telefonia, certamente jamais teria derrubado a providencial medida liminar
que estabelecera como indexador o Índice de Preços ao Consumidor
Amplo (IPCA), reduzindo o reajuste do ano passado de 25%, em média,
para cerca de 14%.
Festival
A decisão do STJ foi
apontada pelos investidores como a principal causa da alta de quinta-feira
na Bolsa de Valores de São Paulo. As ações da Telemar
movimentaram R$ 280 milhões, quase 21% do movimento financeiro da
Bovespa. Um verdadeiro festival.
Sacrifício
O estudo do Dieese mostra que
a população já deu sua cota de sacrifícios
na política liberal de FHC, que privatizou as concessionárias
e liberou geral as tarifas. Portanto, quando forem decidir novos reajustes
de energia, telefonia e até mesmo combustíveis, as tais agências
reguladoras precisam levar em conta os aumentos abusivos concedidos na
era FHC. Será um crime não o fazer.
Magnânimo
O presidente da Telefônica,
Fernando Xavier, magnanimamente confirmou que há um entendimento
de que a decisão do STJ não terá efeito retroativo.
Além disso, afirmou que "a Telefônica será sensível
para compreender o efeito da recomposição para o usuário".
Puxa, como ele é compreensivo...
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