'Jornal do Brasil' demite Alberto Dines
Esqueça o Jornalismo: agora é tudo Política; Presidente do Conselho Editorial do JB demite um dos mais tradicionais jornalistas da imprensa brasileira por criticar relação amistosa do jornal com autoridades do Governo do Estado. Por Gustavo Barreto, 11 de junho, 2004
 

Jornais são poderosos instrumentos políticos de oligarquias locais para aumentar sua base de poder e manipular o povo da maneira que desejarem. Poucos (ou nenhum) são os jornais independentes que pelo menos se esforçam para mostrar alguma realidade: é tudo política.

Esse quadro poderia muito bem ser a descrição parcialmente correta do que ocorria no começo do século passado, em uma época em que a televisão e o rádio ainda não existiam e os jornais representavam, em grande parte, o poder estabelecido. Ao que tudo indica, os "empresários da comunicação" parecem ainda acreditar nisso. Ou então estão mesmo desesperados.

O jornalista Alberto Dines esteve por 12 anos à frente da Redação do Jornal do Brasil, tendo assumido pela primeira vez o cargo de editor em janeiro de 1962. Numa época de ditadura militar e censura aos órgãos de comunicação, Dines comandava o jornal em pelo menos dois momentos históricos: em dezembro de 1968, após a decretação do AI-5, e em 1973, driblando os censores e noticiando de forma original o golpe militar no Chile.

Amanhã, sábado, dia 12 de junho de 2004, a tradicional coluna do jornalista não será impressa. Motivo? Simples e direta retaliação.

A decisão foi comunicada esta tarde por José Antonio Nascimento Brito, presidente do Conselho Editorial do Jornal do Brasil e herdeiro da família que dominou o diário carioca por muito tempo. Segundo o editor do Observatório da Imprensa, Luiz Egypto, a suspensão foi uma retaliação ao artigo "A imprensa sob custódia", de Dines, publicado no Observatório no dia 08/06 último.

O próprio autor confirma. "Ele [Nascimento Brito, por e-mail] deixou claro que fui suspenso por causa de um artigo que escrevi para o Observatório da Imprensa", disse o jornalista para a reportagem do Portal Comunique-se. (leia aqui)

"Pior do que a mentira é o silêncio"

Além do sáite, o Observatório vai ao
ar terças e sábados na Rede Brasil
No artigo em questão, Dines começa criticando a cobertura dos jornais O Dia e O Globo em relação à crise da Casa de Custódia de Benfica, onde ocorreu uma chacina sangrenta de pelo menos 30 pessoas. "Pior do que a mentira é o silêncio", afirmou. Para o Comunique-se, declarou: "Não inventei nada, não foi notícia de bastidor, mas sim analisei a forma como a cobertura foi feita. Fiz um trabalho técnico".

Em outro artigo, o Governo Federal também é lembrado: "O mais dramático é que enquanto em Benfica ruía a integridade moral e física do Estado brasileiro, na Praça dos Três Poderes festejava-se o envio da tropa para estabelecer a integridade do Estado haitiano."

JB foi o alvo principal

Depois, concentra seus questionamentos, fortes e bem fundamentados, no Jornal do Brasil, no qual possui uma coluna semanal aos sábados. Além disso, Dines é reconhecidamente um dos maiores nomes da história da publicação, tendo realizado importantes feitos para o desenvolvimento do JB.

Segundo Dines, o que o jornal faz não pode ser considerado mais jornalismo: "O JB abdicou de fazer jornalismo. Parece jornal, tem periodicidade de jornal, tem os atributos formais de um jornal, tem uma história incorporada ao jornalismo brasileiro, mas neste momento é movido por dinâmica e prioridades diferentes das de um jornal. Pode até estar reinventando o jornalismo, mas este não é o jornalismo do qual foi um dos expoentes e continua sendo praticado pela maioria dos seus concorrentes".

Uma das provas deste processo teria sido a edição do jornal de terça-feira (1º/6). Afirma: "Neste dia crucial, o JB fez o balanço do caso com uma chamada insignificante na parte inferior da primeira página! Ao lado, com destaque dez vezes maior, para satisfazer o enorme contingente de socialites que devoram suas colunas sociais, enorme foto de uma carioca friorenta ostentando um 'casaquinho básico'." (veja a capa ao lado)

Dines também faz uma acusação que bate com as práticas recentes do Jornal do Brasil:

"E, como se não bastasse, na quinta-feira (3/6) — depois da manchete correta do dia anterior, "Inquisição do tráfico mata 30 presos" — o jornal recuou acintosamente para enveredar pela linha business com esta pérola em oito colunas: "Rio troca imposto por segurança".

Trata-se de mais uma pilantragem desenvolvida nos laboratórios do casal Garotinho para esconder sua dupla incompetência como responsável pela segurança pública e para atrair incautos defensores da livre iniciativa: empresas que financiarem a segurança pública terão desconto de 10% no ICMS.

Descobre-se então que esta manchete foi financiada pelos patrocinadores de um seminário organizado pelo Grupo JB, estrelado pela deslumbrante governadora Rosinha e convertido no sábado seguinte num caderno especial".


No sáite do Observatório da Imprensa, Dines também reclamou do jornal por ter publicado na terça-feira (08/06), uma carta do secretário de Comunicação Social da governadora do estado do Rio de Janeiro — Ricardo Bruno — em resposta ao artigo "Benfica e Haiti", de Alberto Dines, publicado no sábado (05/06), sem oferecer a Dines o direito de resposta.

Crise irreversível

Dines comenta também sobre a crise interna do JB, e "não apenas a crise financeira". Lembra que três dos nove vice-presidentes — Augusto Nunes, Cristina Konder e Wilson Figueiredo, este com 42 anos consecutivos de casa — já deixado seus cargos por motivos parecidos.

Outro ex-diretor de redação do Jornal do Brasil, Fritz Utzeri teve recentemente seu salário cortado em 75%. Preferiu se demitir. Atualmente nas mãos de Nelson Tanure, o JB passa por uma de suas maiores crises, tanto financeira quanto jornalística. "Ele não entende muito de jornal", avisa Fritz.

E denuncia as saídas que Tanure propunha: "Já era uma coisa que me foi proposta quando eu era diretor de redação do jornal e eu não aceitei. Era fazer um jornal com o mínimo de pessoas, comprando material de agências, chupando matéria da Internet."

Estas declarações foram dadas à equipe da publicação Fazendo MEDIA (www.fazendomedia.com). Quando se achava que o jornal ainda tinha jeito, foi claro: "Eu acho que não, quer dizer, pode se arrastar por aí, etc. Mas como jornal não. Não é mais o Jornal do Brasil, é outra coisa."

Na justificativa oficial do JB, divulgada pelo Comunique-se, o editor-executivo, Marcos Barros Pinto, disse que o colunista fez uma análise errada do JB. “Se ele considera tudo aquilo deste jornal, não deveria nem trabalhar nem receber dele. Como ele não tomou a iniciativa de deixar a empresa, a direção do JB tomou por ele”.

Antecedentes

Juca Kfouri, apresentador de TV, comenta: "Kajuru ontem, Dines hoje. Nada a ver uma história com outra, a não ser a óbvia incapacidade de absorver críticas demonstrada, mais uma vez, pelos que têm o chicote nas mãos. E uma novidade: todos aqueles que porventura discordarem da linha dos veículos para os quais trabalharem (mesmo que como colaboradores/colunistas) devem pedir demissão. Brilhante!"

Kfouri faz referência a Jorge Kajuru, apresentador do programa 'Esporte Total', da TV Bandeirantes. Kajuru foi demitido nesta quarta (09/06) por denunciar injustiças cometidas pelo governador Aécio Neves (PSDB/MG) e pelo presidente da CBF, Ricardo Teixeira, no jogo da Seleção Brasileira contra a Argentina, no Mineirão. (leia aqui sobre este episódio)

Em outro fato relacionado, em setembro de 2003, o deputado estadual Carlos Minc (PT) declarou que iria entrar na Justiça com uma ação civil pública contra Garotinho, por malversação dos recursos públicos.

Segundo o jornal O Globo de 22/09/2003, uma inspeção do Tribunal de Contas do Estado constatou que o atual secretário de Segurança do Rio usou R$ 118 mil de recursos da publicidade do governo, em 1999, para pagar quatro reportagens favoráveis à sua gestão no Jornal do Brasil.

A denúncia foi feita pelo jornal Folha de S. Paulo, em 20/09/2003, reproduzindo uma investigasção do TCE. Em seu voto, de 19 de dezembro de 2002, o conselheiro e relator do caso Marco Antônio Alencar afirmou que as reportagens, "pagas a título de despesa com publicidade com recursos da Secretaria de Comunicação Social destinados à publicidade institucional, foram publicadas com o intuito de assumir cunho jornalístico. Ao assumir a forma de notícia, as matérias dispensariam, por si só, qualquer espécie de pagamento".

O próprio O Globo relembra outro caso: "Em reportagem publicado no dia 02/09/2003, a Folha de S.Paulo mostrou que o governo do Paraná, durante a gestão de Jaime Lerner (PFL), em 2002, comprou reportagens em 68 jornais e seis revistas. Entre os veículos que fizeram a operação estão o Diário dos Campos (de Ponta Grossa), o Diário Popular (de Curitiba), O Estado do Paraná (também da capital) e a Tribuna do Norte (de Apucarana)."

Resposta

Em relação ao episódio envolvendo Alberto Dines, o autor afirmou hoje que escreverá um artigo explicando o que aconteceu na próxima edição do Observatório da Imprensa, que sai dia 15/06 (terça-feira). O endereço é www.observatoriodaimprensa.com.br
 


Gustavo Barreto é editor da revista Consciência.Net (www.consciencia.net), colaborador do Núcleo Piratininga de Comunicação (www.piratininga.org.br), estudante de Comunicação Social da UFRJ e bolsista do Programa Institucional de Bolsa de Inciação Científica (PIBIC) pela ECO/UFRJ
 


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