ABC da cessação de fumar

Redução de danos
BMJ 2004; 328:885-887 (10 de abril). Ann McNeill, consultor independente em saúde pública e Professor honorário do Departamento de Psicologia, St George's Hospital Medical School, Londres. Nota do editor: Para visualizar o texto completo, incluindo tabelas e fotos, clique no link a seguir: http://bmj.bmjjournals.com/[...]

Introdução

 Embora o ideal para todos os fumantes seja parar de fumar completamente, uma boa proporção destes não quer ou não tem sido capaz de parar de fumar, apesar de muitas tentativas. As estratégias de redução de danos têm como objetivo minimizar nestes indivíduos os efeitos desfavoráveis à saúde conseqüentes ao uso do tabaco.
 

Diminuindo a quantidade de cigarros

 A redução do número de cigarros fumados por dia é uma estratégia comum usada pelos fumantes para redução de danos e para mover esforços no sentido de deixar de fumar ou economizar dinheiro. Alguns profissionais de saúde aconselham a diminuição do número de cigarros fumados para os fumantes que não conseguem ou não querem parar de fumar. No entanto, não existem evidências de que esta estratégia reduza os principais riscos à saúde. A explicação provável para isto é que o tabagismo é, basicamente, uma busca pela manutenção de níveis de nicotina no organismo que propiciem satisfação. Ao diminuírem o número de cigarros, os fumantes tendem a compensar aumentando o número de tragadas – que se tornam também mais profundas – por cigarro. Isto resulta numa menor redução proporcional da quantidade de ingestão da nicotina (e do alcatrão e outras toxinas associadas) do que é sugerida por meio da idéia da redução do número de cigarros fumados.

A diminuição do número de cigarros associada à terapia de reposição da nicotina (TRN) é uma estratégia mais promissora com vistas a manter os níveis de nicotina, embora a utilização da TRN com esse objetivo não seja atualmente licenciada no Reino Unido e em vários outros países. Estudos preliminares têm sugerido que essa abordagem pode ajudar na manutenção da redução de cigarros fumados e na redução da ingestão de toxinas, mas ainda não há fortes evidências do benefício desta estratégia para saúde.

Mudando para cigarros de “baixos teores”

 Vários fumantes que estão preocupados com os riscos do tabagismo para a saúde mudam para cigarros de baixos teores, acreditando que estes são menos perigosos que os cigarros comuns. Esta percepção tem sido encorajada pela indústria do tabaco e, em vários países, por políticas governamentais que visam uma progressiva redução dos teores de alcatrão dos cigarros.

No entanto, o teor de alcatrão dos cigarros é medido por máquinas que “fumam” artificialmente os cigarros, e boa parte da redução do teor de alcatrão dos cigarros de baixos teores, medida pelas máquinas de fumar, resulta dos buracos de ventilação introduzidos nos filtros para diluir a fumaça puxada pela máquina. Na realidade, a relação alcatrão-nicotina na fumaça do tabaco dos cigarros de baixos teores é muito similar àquela dos cigarros convencionais. Logo, baixo teor de alcatrão significa também baixo teor de nicotina.

Sendo assim, da mesma forma que na diminuição do número de cigarros fumados, fumantes que mudam para marcas de baixos teores tendem a compensar a redução na liberação de nicotina alterando o padrão de fumar. Com os cigarros de baixos teores, os fumantes fazem isso de duas formas: fumam os cigarros mais “fortemente”, dando mais tragadas e tragadas mais profundas; ou tapam os buracos da ventilação do filtro com os dedos ou com os lábios, para prevenir ou reduzir a diluição da fumaça. Isto resulta numa mudança bem pequena, ou nenhuma, na real ingestão de nicotina – e conseqüentemente de alcatrão – e, em última análise, em pouca redução nos danos.

Mudando para charutos ou cachimbos

 Alguns fumantes de cigarros, particularmente homens, mudam para charutos ou cachimbos como uma forma de diminuir os danos. Os riscos de fumar charutos ou cachimbos para indivíduos que nunca foram fumantes regulares de cigarros são, de fato, bem menores do que os que já foram fumantes regulares de cigarros, principalmente porque eles tendem a não tragar a fumaça, levando a uma absorção de nicotina através da mucosa oral. Fumantes de cigarros que mudam para charutos ou cachimbos tendem a continuar a tragar a fumaça e, portanto, obter pouco ou nenhum benefício para a saúde com a troca.

Cigarros alternativos

 Algumas companhias de cigarros têm desenvolvido e, em alguns casos lançado no mercado, produtos alternativos que aquecem o tabaco ao invés de queimá-lo. Um exemplo é a marca de cigarros Eclipse, atualmente comercializada nos Estados Unidos com a afirmação de ser uma alternativa segura ao cigarro convencional. Apesar de liberar menos alcatrão que o cigarro convencional, esta marca produz mais monóxido de carbono, limitando a redução de dano advinda do uso deste produto. Nenhum estudo mostrou benefícios associados com a mudança para o Eclipse ou produtos similares.

De acordo com o fabricante, R J Reynolds (RJR), os cigarros Eclipse são “desenvolvidos para queimar somente 3% do tabaco normalmente queimado pelos cigarros convencionais.” A RJR também explica que eles “produzem fumaça pelo processo de aquecimento do tabaco no lugar da queima” (http://www.eclipse.rjrt.com).

Mudando para tabaco sem fumaça

 As formas mais utilizadas de tabaco não fumígeno são o aspirado e o mascado. Os tipos de produtos usados no mundo variam consideravelmente, assim como os riscos para a saúde advindos do seu uso. Por exemplo, na Índia o uso de tabaco não fumígeno é a maior causa de câncer oral. Todavia, os riscos para saúde associados ao tabaco não fumígeno são consideravelmente menores que aqueles associados com cigarros.

Na Suécia o tabaco oral úmido (conhecido como “snus”) vem sendo utilizado por homens por várias décadas. Os riscos para saúde relacionados ao uso deste produto parecem ser extremamente pequenos, quando comparados aos do cigarro. Estima-se que sejam amplamente usados por fumantes como uma alternativa aos cigarros, contribuindo para a baixa prevalência total de fumantes e doenças relacionadas ao tabagismo na Suécia.
Deste modo, os Snus e outros produtos orais do tabaco não fumígeno, atualmente desenvolvidos por algumas companhias, poderiam proporcionar uma alternativa viável ao tabagismo para muitos fumantes, proporcionando ganhos substanciais para a saúde. No entanto, estes produtos são proibidos na União Européia (exceto na Suécia), em razão de não serem seguros.

Snus Sueco

 Alguns especialistas têm sustentado que, mesmo sendo uma forma menos prejudicial de ingestão de nicotina, o snus pode trazer conseqüências indesejáveis, como causar prejuízos a pessoas que poderiam ter parado de fumar completamente. Outros especialistas argumentam que os fumantes devem ter o direito de escolher formas menos prejudiciais de ingerir nicotina, como o snus. Eles sustentam que a proibição dos produtos do tabaco menos prejudiciais deve ser suspensa – em um contexto de uma regulação baseada em evidências que favoreçam as formas de menor prejuízo do tabaco não fumígeno – e que os fumantes deveriam ser encorajados a usá-los. 

Alguns especialistas afirmam que o tabaco não fumígeno pode atrair mais os jovens a usar tabaco e subseqüentemente a fumar.

Mudando para os produtos farmacêuticos de nicotina

 Mudando de cigarros para produtos farmacêuticos de nicotina – utilizados na TRN – é uma prática comum no manejo da cessação de fumar, mas estes produtos não estão licenciados para uso prolongado, como uma alternativa ao tabagismo. Uma vez que os riscos associados com a TRN são bem menores que aqueles associados ao tabagismo, o uso prolongado da TRN é uma estratégia racional de redução de danos.

No entanto, como muitos fumantes alegam que a satisfação proporcionada pelos produtos usados na TRN não é a mesma que a proporcionada pelo cigarro, a viabilidade desses produtos como substituto de longo prazo é limitada. Existe na indústria farmacêutica tecnologia para o desenvolvimento de formas seguras de tabaco inalado que proporcionem uma alternativa satisfatória aos cigarros atualmente disponíveis, mas, no contexto da atual regulamentação do Reino Unido e de vários outros países, estes produtos não estão licenciados, não sendo possível a sua comercialização. Como discutido acima e no artigo anterior desta série, a desigualdade na regulamentação do tabaco e de seus derivados precisa ser corrigida urgentemente em favor da saúde pública.

Leitura Adicional: 

• Tobacco Advisory Group of the Royal College of Physicians. Regulation of nicotine intake by smokers, and implications for health. In: Nicotine addiction in Britain. London: RCP, 2000. (A report of the Tobacco Advisory Group of the Royal College of Physicians, Chapter 6.)

• Stratton K, Shetty P, Wallace R, Bondurant S, eds. Clearing the smoke: assessing the science base for tobacco harm reduction. Washington, DC: National Academy Press, 2001.

• Ferrence R, Slade J, Room R, Pope M, eds. Nicotine and public health. Washington, DC: American Public Health Association, 2000.

• Tobacco Advisory Group of the Royal College of Physicians. Protecting smokers, saving lives. The case for a tobacco and nicotine regulation authority. London: RCP, 2002.

• National Cancer Institute. Risks associated with smoking cigarettes and low machine-measured yields of tar and nicotine. Bethesda, MD: US Department of Health and Human Services, National Institutes of Health, National Cancer Institute, 2001. (Smoking and tobacco control monograph No 13; NIH publication No 02-5074.)
 

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