Jornalistas americanos
Luis Fernando Verissimo, 20 de maio, 2004

Estou há mais de um mês fora do Brasil. Informações sobre o que acontece aí não faltam, na internet e nas notícias de familiares e amigos. Mas se fosse depender da imprensa local para saber do Brasil poderia desconfiar que ele deixou de existir quando viajei, ou existe como a Mongólia ou Luxemburgo, vagas curiosidades geográficas à margem de qualquer interesse sério. Desde que estou na Europa só li três notícias sobre o Brasil. Uma, pequena, tratava da vitória brasileira na Organização Mundial do Comércio na questão dos subsídios. A outra nem me lembro qual foi, provavelmente sobre música ou futebol. A que teve destaque foi a reação desproporcional do governo à matéria do “New York Times”. 

O que é desprezível deve ser desprezado, não transformado em caso internacional de previsível péssima repercussão. Na minha opinião, era tão inaceitável pensar em expulsar alguém do país daquele jeito que quem teve a idéia deve ser expulso imediatamente. Para não ter outra idéia parecida. 

O enfoque e o tom da matéria do correspondente do “Times” (não li, me contaram) não são novidade — como não são novidade as sugestões de que ele seguia sombrios desígnios americanos de represália e desmoralização. Pior do que mal-intencionada ou secretamente dirigida, a matéria é tradicional, apenas outro jornalista americano sucumbindo aos estereótipos de sempre sobre estes pitorescos latinos — com a vantagem de, no caso, mirar num presidente especialmente pitoresco. A própria arrogância da peça não é maliciosa, é um hábito de pensamento senhorial, como o da elite brasileira que não consegue ver um ex-torneiro mecânico ou qualquer outro de origem popular no poder a não ser como um acidente social, um vexame sempre prestes a nos envergonhar diante dos estrangeiros. Pois nossos pobres não são por natureza cachaceiros sem linha? O americano não escreveu que o Lula é vergonhoso. 

Mas tomou o preconceito de classe que a figura e a história do Lula atiçam como subsídio para os seus próprios simplismos pré-fabricados, que são os mesmos de quase todos os seus antecessores. 

Um jornalista americano que realmente merece atenção, Seymour Hersh, já tinha contribuído para mudar a história do seu país com reportagens sobre o desastre americano no Vietnã e está fazendo história outra vez com seu jornalismo investigativo para a revista “New Yorker” sobre outro desastre, o que Bush e seus neoconservadores armaram no Iraque. Suas revelações atuais sobre os responsáveis graúdos pela tortura de prisioneiros iraquianos e pela tragédia iraquiana em geral aumentam a preocupação nacional com a conduta no cargo de um presidente, filho da aristocracia do seu país, que, como se sabe, abandonou a bebida há anos. Também merece ser dito que Seymour Hersh não corre perigo de ser expulso de lugar algum.

Publicado no jornal O Globo


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