Velhos e novos bárbaros
Luis Fernando Verissimo, O Globo, em 9 de maio, 2004


Napoleão Bonaparte e Adolf Hitler, entre outros, sonharam com a pan-Europa que, com a inclusão de mais 10 países no último 1 de maio, se tornou uma realidade irreversível. Os antecedentes da União Européia são assim, alguns mais respeitáveis do que outros. Durante muito tempo depois da tentativa de Carlos Magno de substituir o império romano pelo seu, uma identidade européia se definia mais pelo que não era do que pelo que era: cristã e não muçulmana, civilizada em vez de bárbara (e portanto com o direito de subjugar e europanizar os bárbaros — isto é, o resto do mundo). Li que um dos primeiros a ter uma idéia de Europa como entidade foi o Papa Pio II e o que o animava era uma oposição aos turcos, sempre os turcos, e ao poder do cristianismo dissidente do império bizantino. A idéia da Europa era uma idéia de oposição, e de superioridade racial ou moral. Hitler chegou tão longe no seu projeto de Carlos Magno porque muitos o viam como a salvação da civilização européia ameaçada pelas novas hordas asiáticas, os bolcheviques. No tempo em que, para a mentalidade européia, o Oriente começava no lado de lá do Danúbio, onde havia sempre algum tipo de flagelo de Deus acampado.

A pan-Europa atual tem outra genealogia e sua origem direta está no grande paradoxo da sua vida e do nosso tempo: o fato de que os dois maiores exemplos de barbárie da História, a carnificina mecanizada da Primeira Guerra Mundial e o genocídio científico da Segunda, foram dados pelos não-bárbaros cristãos. O objetivo básico de uma Europa unificada é que isso não se repita. A incorporação, agora, de países da ex-Cortina de Ferro soviética simboliza o fim de outra divisão antiga: a Guerra Fria oficialmente acabou e os americanos ganharam. O bloco econômico formado pela união, mesmo que exista para competir com a potência americana, é um triunfo da economia liberal de mercado cuja receita agora se estende aos países do ex-Pacto de Varsóvia, onde os McDonald’s e a Nike tinham chegado antes. Também significa que a fronteira psicológica entre Ocidente e Oriente andou um pouquinho mais pra lá. Só não querem, ainda, os turcos. Certos ressentimentos custam a acabar.

Mas na medida que a nova Europa tenta fazer o que os gregos não conseguiram, reagir a Roma e recuperar sua relevância histórica, a união pode ser vista, ou pelo menos imaginada, como uma alternativa a bárbaros do outro lado, os hoje liderados por Bush, o Flagelo do Texas. Há leves indícios de um renascimento da esquerda, como na Espanha, na França e em outros países europeus mas, independentemente da ideologia, a própria idéia de uma pan-Europa agregadora é uma idéia solidarista. Pode voltar a ser uma idéia de resistência da civilização, desta vez no bom sentido.
 

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