Velhos e novos bárbaros
Luis Fernando Verissimo, O Globo, em 9 de maio, 2004
A pan-Europa atual tem outra genealogia e sua origem direta está no grande paradoxo da sua vida e do nosso tempo: o fato de que os dois maiores exemplos de barbárie da História, a carnificina mecanizada da Primeira Guerra Mundial e o genocídio científico da Segunda, foram dados pelos não-bárbaros cristãos. O objetivo básico de uma Europa unificada é que isso não se repita. A incorporação, agora, de países da ex-Cortina de Ferro soviética simboliza o fim de outra divisão antiga: a Guerra Fria oficialmente acabou e os americanos ganharam. O bloco econômico formado pela união, mesmo que exista para competir com a potência americana, é um triunfo da economia liberal de mercado cuja receita agora se estende aos países do ex-Pacto de Varsóvia, onde os McDonald’s e a Nike tinham chegado antes. Também significa que a fronteira psicológica entre Ocidente e Oriente andou um pouquinho mais pra lá. Só não querem, ainda, os turcos. Certos ressentimentos custam a acabar. Mas na medida que a nova Europa
tenta fazer o que os gregos não conseguiram, reagir a Roma e recuperar
sua relevância histórica, a união pode ser vista, ou
pelo menos imaginada, como uma alternativa a bárbaros do outro lado,
os hoje liderados por Bush, o Flagelo do Texas. Há leves indícios
de um renascimento da esquerda, como na Espanha, na França e em
outros países europeus mas, independentemente da ideologia, a própria
idéia de uma pan-Europa agregadora é uma idéia solidarista.
Pode voltar a ser uma idéia de resistência da civilização,
desta vez no bom sentido.
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