DESPERTAR
Pela manhã,
quando o corpo acorda,
nasce mais um dia como outro
qualquer.
O que fazer com essa alma que
não pára de ir?
Insólita.
Arrastando-te pelas dores que
criaste.
Queiras ou não, tens
de ir.
Às vezes, vítima;
às vezes, construtor.
Vítima, dás explicações,
justificativas.
Alienas-te.
Belo bicho preso na cela de
tua inconsciência.
Construtor, mesmo na merda,
sentes-te adubo.
Se o corpo dói,
sê delicado com ele.
Escuta-o.
Se ele se permitiu à
doença, ele sabe o que fazer para curar-se.
Tudo que sofreste está
aí guardado.
Da pele pra dentro.
Cada rejeição,
cada abandono,
cada cobrança,
cada agressão,
cada espera,
cada olhar,
cada indiferença,
cada despedida.
É uma dor que ficou e
que não quer sair.
Se grande,
expande-se até não
mais calar.
Como não tem sentido,
acaba acabando com tudo
até tudo acabar.
Mas apesar do todo,
agente não deixa de
ir.
Ele dói então?
O que fazer se não há
saída nem para,
nem com.
Resta estar.
Não ficar.
Quem fica aceita.
Quem está é co-autor
e só tu sabes aonde
podes chegar.
Só tu te conheces.
Não blasfemes a maravilha
que é teu corpo.
Tu não fazes idéia
do que significa para o mundo dos espíritos
pedra falar.
Mesmo inerte e mórbido,
sem que tu tenhas consciência,
ele não deixa de lutar.
Até o último
poente de tua vida.
Faze-te um aliado,
não um juiz.
Entrega-te àquilo que
sentes
e não queiras resolver.
Tua ignorância de ti
mesmo te levou aonde estás.
Aceita apenas e perscruta os
caminhos que teu corpo indica.
Se a lombar dói
é porque suporta o mundo
das idéias e todos os fantasmas que criaste,
o mundo da comunicação
e tudo que não disseste,
o mundo das emoções
e tudo que guardaste,
o mundo do mal formado ego
e tudo que mentiste,
o mundo da presença
orgânica e visceral e tudo que fingiste.
Se te pesa tudo isso, como não
queres que ela doa?
Então, há um
novelo a desvendar
que só o teu silêncio
pode revelar.
Se dói é porque
está congestionado.
Cheio de toxina.
Tudo empoçado,
grudado,
mal amado.
Quando acordas, tudo está
ainda meio adormecido, lento.
As articulações
estão frouxas.
Os líquidos passam devagar.
Por isso, antes de dares rédeas
à tua mente e afazeres,
namora teu corpo dando bom
dia a cada articulação.
Flexiona.
Estende.
Torce.
Agradece por mais um dia a ser
criado a partir do agora
de carícias e aceitação.
Não penses.
Sente.
Se alguma parte do corpo pede
para ser alongada,
obedece.
A linguagem do corpo é
o movimento.
Mesmo quando estás parado,
o sangue corre.
Pratica este namoro várias
vezes ao dia.
É claro que, no trabalho,
não tens tempo.
É mentira.
Em verdade, não foste
educado,
acostumado e preparado a investir
no aprimoramento corporal.
Tua auto-estima é baixa.
No máximo, fazes ginástica,
praticas esporte.
Terapias.
Sempre guardando para aquela
hora a hora de te cuidar.
Autorizando a um outro, que
te conhece pouco,
a saída encontrar.
Aí, só naquela
hora,
com aquele outro,
autorizas-te a investir na
tua saúde corporal?
É um começo.
Não, a saída.
No resto do tempo
tu és tu,
fazendo as coisas,
subjugando teu corpo às
conseqüências de tuas atitudes e posturas.
Ele está ali à
tua disposição.
Só quando dói
é que dás atenção?
Ele precisa gritar de dor ?
Só então tomas
providências?
Até teu corpo gritar
de dor
houve um processo de
trancamentos, bloqueios, opressões.
Parte da tua vida não
fluiu.
Empoçou.
Cristalizou.
Brigar não adianta.
Deixar pra lá também
não.
A dor vem sempre te avisar:
houve ali um abuso de uso ou um desuso do funcionar.
Não te dás conta
de que o corpo é vinte e quatro horas por dia?
Perene a cada instante.
Não o abandones.
Se foi assim até
agora, rebela-te.
Namora-o um minuto a cada hora.
Ou mais.
Nas oito horas em que
deres tua valiosa energia para os outros,
para o teu empregador,
para a família,
estarás dando-a a ti
também.
Realimenta tua energia,
faze-a voltar à fonte.
Ao fim de oito horas de trabalho,
terás investido em ti
oito minutos.
Tu vales este investimento?
Reflete um pouco.
Estar louco por si
é dar à
vida um momento pra sorrir.
Se tu não fores a saída,
nada mais será.
Grato por Tua Existência,
Rosam.