A Cidade e o Cidadão na
sociedade de mercado
Por
Renato Kress, junho de 2004
Quando o quadro de guerra-civil
bate à porta de uma área nobre de uma cidade como o Rio de
Janeiro fica difícil — como
nos chamados ‘bolsões de miséria’ em que se encontram outras
áreas de guerra-civil, o ‘Complexo do Alemão’ e demais áreas
da zona norte carioca por exemplo —
desviar
a atenção pública, ou mesmo editar mais um ‘Globo
Repórter’ sobre a fauna e flora atlântica ou amazônica.
Não tenho a pretensão
de discutir a fundo o viés econômico ou antropológico
da formação dessa ‘crise’ que a imprensa ‘descobriu’ há
algumas semanas. Aliás, para que exista uma ‘crise’ deve haver um
estado de ruptura com uma certa ordem estabelecida, o que não é
bem o caso no Rio de Janeiro. Em inúmeros artigos, especialmente
os do falecido Aloysio Biondi e outros de Luiz Eduardo Soares e Hélio
Luz, se pode chegar a conclusões muito mais profundas e assertivas
sobre a situação sócio-econômica ou cultural
que forma, ou mantém, a guerrilha urbana no Rio.
Poderão falar da favela
como fetiche, como local de status para adolescentes ou pós-adolescentes
abastados que, incentivados pela perspectiva do perigo, pela atmosfera
da violência que instiga, põe à prova e confirma suas
pretensas ‘virilidades’ à frente dos amigos e amigas. Poderão
falar dessa interação superficial estabelecida entre esses
garotos da zona-sul carioca e os ‘outsiders’ cariocas, marginalizados,
do quanto essa interação, para manter a utilidade dela na
comprovação da ‘masculinidade’ ou do status do garoto que
sobe o morro à busca de drogas ou para participar de festas, causa
uma necessidade de manutenção da favela como local perigoso,
marginal. Sem o perigo, não há prova, sem a prova, não
há risco ou virilidade comprovada. É um ritual urbano de
passagem, como qualquer outro. A minha questão nesse artigo – e
esse é um artigo que não se propõe a dar respostas,
mas a levantar diversos pontos de vista acerca do tema - é: onde
a cultura da ‘cidade grande’ influencia na criação de determinados
rituais ou mesmo mantém situações que, a primeira
vista, iriam contra o interesse dos citadinos?
O “urbano” como “fato cultural”
A princípio seria interessante
diferenciar a urbanização, do conceito de urbanismo. A primeira
procura explicar a lógica dos movimentos que redefinem o lugar dos
indivíduos no território, seria o movimento físico
(primevo) que dá origem ao urbanismo, a lógica da vida que
se estabelece na aglomeração tal qual a conhecemos hoje,
que mantém uma estreita proximidade com a consolidação
da sociedade de mercado.
O indivíduo urbano produz
um “estilo de vida” em face da sociedade de consumo. É neste “estilo
de vida” que pretendo pousar atenção. Ele se dispõe
a ocupar-se da produção de bens e serviços para outros
e não age – no que produz – de maneira autônoma, na realidade
transfere sua autonomia para o salário, limitando-se a uma autonomia
financeira. Mais tarde essa autonomia financeira vai sendo ampliada até
que ela suporte algo próximo do grau de autonomia que se possuía
antes da sociedade na cidade, mas de qualquer forma o aspecto financeiro
continua sendo um filtro para essa autonomia. A princípio desenvolve-se
uma ética da frugalidade, do pouco gasto – o que Marx chamaria de
acumulação primitiva de capital e o que Weber denomina ascetismo
com afinidade eletiva ao espírito do capitalismo.
O Estado e a cidade como
sínteses do poder urbano
- história e sociologia
–
A aglomeração
espacial de população e de produção foi um
fenômeno simultâneo à evolução do capital
industrial. Esse processo da produção e do trabalho, pelos
interesses específicos que engendra, fortalece uma dimensão
periférica, a estruturação do Estado.
Antes do capitalismo, no ocidente,
as relações de poder eram estabelecidas em função
da tradição, por reis, direitos divinos, etc. A partir da
passagem para o capitalismo ocorreu a transferência do poder divino
para o poder profano [‘estranho à religião, secular, leigo’,
do latim ‘profanus’ ], onde o homem assume as responsabilidades perante
o Estado, um organismo à parte teoricamente formado em acordo com
os membros da sociedade.
Seria interessante verificar
a sociologia de Weber para se estudar as relações sociais
dentro da cidade. Afinal, Weber foi na contramão de seu tempo, ou
adiante dele: todas as teses anticapitalistas dos séculos XVIII
e XIX, na Europa, e que foram transferidas para o novo mundo, colocavam
as mudanças ou a destruição do Estado como condição
sine qua non para superar o processo de exploração capitalista
- a exemplo do Manifesto Comunista ou das teses anarquistas de Fourier
e Phroudon. Weber procura analisar a estrutura inerente ao Estado moderno,
suas hierarquias, a meritocracia e a burocracia.
Na metade do séc. XX,
a partir de Foucault, a questão do poder passa a ser recolocada,
com ênfase sobre a diversidade de lugares de exercício do
poder. O poder então passa a ser compreendido como um substantivo
plural: falamos de ‘poderes’ do Estado e de ‘poderes’ dentro do Estado.
Se para Weber a principal característica do Estado era o monopólio
legal da força, o que temos no Rio de Janeiro, ao contrário
do que tenta fomentar nossa imprensa televisiva e algumas revistas decadentes
como a Veja, não é um ‘Estado Paralelo’ já que em
momento algum o acesso a que traficantes tenham ao uso da força
– muito longe do que se possa chamar de ‘monopólio’ – nunca foi
legalizado pela população, tanto a que reside no morro, quanto
a que reside no asfalto. Portanto o máximo a que se pode chegar
é ao ‘Poder paralelo’, mas a influência social é um
poder, tanto quanto o poder econômico das grandes empresas que se
apropriam do poder jurídico, de forma que ‘poderes paralelos’ são
obviedades programadas para camuflar o que possa ser realmente inquietante.
Sem cair na discussão de que um ‘poder paralelo’ existe a partir
do momento em que ele se relaciona a um outro poder, com o qual estará
em paralelo. E qual seria o grau do poder restante na cidade do Rio de
Janeiro após o sucateamento de todas as suas empresas estatais,
do funcionalismo público e do aparato policial? De onde vem a arrecadação
para a manutenção desse poder, não só do policial,
mas da influência, do prestígio que um detentor do poder legal
necessita?
- A atual fase do capitalismo
e a formação da cidade –
Quando encontramos o poder do
Estado minado nos mais importantes aspectos, principalmente graças
ao avanço das políticas neoliberais propagadas pelos centros
ideológicos e pelos centros hegemônicos de geração
do pensamento único, a dominação deixa de ter no Estado
seu lugar principal. Agora existem os ‘poderes paralelos’ – expressão
que vem deixando de ser usada porque legitima o ‘Poder’ dos ‘paralelos’.
Aos poucos a idéia de
‘nação’ deixa de constituir uma referência cultural.
Seja pela influência cultural externa, uma espécie de movimento
centrífuga cultural onde se procura desesperadamente referências
culturais no exterior; seja pela sua reação, o movimento
centrípeta cultural, onde se gera também uma introspecção
mais acentuada acerca das especificidades de cada região, descaracterizando
a possibilidade de um nationalgeist (espírito nacional).
- A ótica weberiana
sobre a cidade -
É interessante verificar
a ótica de Weber acerca das cidades por diversos fatores que depois
seriam ampliados por outros cientistas sociais. Para ele a cidade consistia
num espaço urbano visto como estruturador da cultura dominante capitalista,
é o espaço projetado para funcionar de acordo com as regras
da sociedade de consumo, são seus feudos.
A questão começa
a se complexificar com Weber quando ele analisa que uma cidade seria uma
grande localidade onde os habitantes morariam em casas pegadas umas às
outras, o que definiria um fenômeno sociológico caracterizado
pelas relações de vizinhança. Essas relações
de vizinhança concorrem com o estímulo à competição
social, à busca de um fator que torne os vizinhos – arquitetônica
e fisicamente alojados como ‘iguais’ – diferentes, únicos. Weber
admite que obviamente existiam vizinhos antes disso, mas as relações
de vizinhança, com a cidade, se estruturam de formas diversas das
que até então ocorriam na ‘Cidade Antiga’ de Fustel de Coulanges
(essa visão pode ser melhor analisada em ‘As Causas Sociais do Declínio
da cultura Antiga’, de Weber) e estariam no gérmen da produção
de um indivíduo peculiar que guardaria algumas especificidades.
Da estreiteza que se forma a
partir da nova configuração dessas relações
de vizinhança, o medo, a vergonha, ou a já relatada competição,
e outros fatores sociais coercitivos passam a influenciar de maneira mais
intensa, não podendo mais ser ignorados como categoria a ser considerada
num estudo sociológico acerca da cultura da cidade.
- O Mercado –
Weber entende o mercado como
o fator dinâmico da vida urbana. Mas isso não garante, por
si só, uma caracterização definitiva de toda uma complexa
cadeia de fatores que envolvem a vida urbana, já que ‘toda cidade
é local de mercado’, mas nem todo mercado -por mais desenvolvido
que seja- é uma cidade. As cidades produzem e se formam por características
mais peculiares do que o caráter meramente econômico.
De qualquer forma a cultura
que se desenvolve numa ‘cidade grande’, com suas relações
atomizadas e impessoais, demanda um poder, um meio de troca universalmente
aceito. É essa lacuna que vem a ser preenchida pelo dinheiro. O
poder econômico, como característica universal, serve como
o mediador entre as relações pessoais numa ‘cidade grande’.
| Para weber existiriam diversos
tipos de cidade: As cidades medievais, como Constantinopla, as Gregas que
dividiriam-se entre intelectuais, como Atenas, e bélicas como Esparta
e cidades portuárias, etc.
[Tipo ideal da cidade moderna:
‘...a cidade é dos produtores
ou dos comerciantes e o crescimento da sua população e de
seu poder aquisitivo repousa na característica que lhe é
peculiar de nelas estar localizadas fábricas, manufaturas e indústrias
domiciliares, as quais abastecem tanto o seu sítio como áreas
exteriores a ele.’ —>Tal
cidade não existe. Trata-se de um corte, efetuado por Marx.]
Para Weber seriam necessários
estudos, caso a caso, caso houvesse a tentativa de se enquadrar determinado
sítio urbano em alguma dessas categorias. |
- O habitante das cidades
-
O típico habitante de
uma cidade é aquele indivíduo cuja existência depende
de terceiros, alguém que não cobre as próprias necessidades,
um indivíduo primordialmente dependente. Essa dependência
causa inúmeras patologias psicológicas e sociais quando confrontada
com a imagem idílica do homem integral, auto-suficiente, o self-made
man. A auto-suficiência numa cidade grande, a princípio, deriva
do caráter meramente financeiro. A própria quantidade de
habitantes em uma cidade do século XXI acaba dificultando outras
formas de socialização. Obviamente elas existem, mas estão
sujeitas a uma degeneração até mesmo pelo espaço
físico percorrido – calcule-se a influência dos meios de transporte
nos diversos ‘meios’ físicos em que um mesmo citadino ocupa e as
suas diversas ‘máscaras’ ou ‘performances’ sociais em cada espaço
ocupado, a interação e a integração da personalidade
tende a se fragmentar pelo espaço - por um citadino.
Detentor de conceitos de natureza
política, o cidadão é muito mais munido dessa esfera
nas suas preocupações que o habitante do campo ou mesmo o
habitante das cidades rurais. Por isso, quando um diplomado de economia
da PUC do Rio Grande do Sul toma as rédeas de um movimento social
rural ele tende a crescer e a se desenvolver da maneira como o Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra cresceu, buscando pela via legal e pressionando
o mais alto grau da autoridade política estabelecida, é pontual,
estratégico. Diferente dos diversos movimentos dos ‘bóias-frias’
e da maneira como eles atuam.
Todas as cidades, independente
da prática de gestão do seu território (medievais,
operárias/industriais, comerciais, agrárias, etc) mantêm
mecanismos sociais que garantem a reprodução do modelo. Por
exemplo, uma cultura que delimita a especificidade do pertencimento ao
espaço urbano: Quem se considere ‘carioca’, ‘paulista’, ‘baiano’,
‘londrino’, ‘romano’, etc antes de ‘brasileiro’, ‘inglês’ ou ‘italiano’.
Essa descentralização do pertencimento nacional auxilia na
manipulação ideológica ou desvio da atenção
das grandes questões nacionais. Insistir nesse tipo de relação,
de confronto, por exemplo, entre a cidade do Rio de Janeiro e São
Paulo, ou Brasil e Argentina, é de um analfabetismo político
primário. [Leia O
Analfabeto Político, de Brecht]
- Os três status individuais
produzidos pela cidade ocidental -
A cidade produz três personagens
que interagirão em seu seio, o cidadão – que vem sendo esquecido
em nome do ‘consumidor’ –, o estrangeiro – para o qual são criadas
instituições fantasiosas como a Rio Tourist Police que funciona
somente na zona sul carioca e com o qual a preocupação mor
prima pelas possibilidades financeiras que ele possa dispender no território
–, e o empresário, aquele que, no espaço urbano, gera o paralelismo
do campo econômico com o político. O empresário, uma
espécie de ‘consumidor-cidadão’, detém maior parcela
de ‘cidadania’, ou maior direito a ela –maior direito a seus direitos –
por ser membro de grande status na ‘sociedade de consumo’.
O pertencimento urbano, desde
que ligado a uma atividade econômica fortemente rentável,
é livre. Qual a cidade não gostaria de ser residência
de Bill Gates?
- Formas de sociabilidade
que ressurgem e são criadas –
Em Weber a cidade aparece menos
como uma estrutura de equipamentos e funções , tal como interpretava
Durkheim, e mais como um lugar de emergência de uma multiplicidade
que não se liga apenas a uma diversidade de situações,
de relações e de redes, mas gera uma ação social
específica.: a troca. Essa rapidez e periodicidade na esfera quantitativa
que gera riqueza na esfera qualitativa da interação social.
‘...a questão não
seria mais a de delimitar o espaço físico das cidades, e
sim seus contornos muitas vezes francamente inscritos no espaço
de seus conjuntos, ou ainda a de interrogar sobre a “cultura” nas suas
periferias, isto é, sobre a maneira como aí se organiza o
social em torno do medo, do enfraquecimento [posterior] das redes de vizinhança
e do reforço daqueles cuja escolha estaria no futuro mais ligada
a comandos visuais” – Alain Bourdin e Monique Hirschorn (Org.), Figures
de la Ville: autour de Max Weber, p. 149.
A partir do momento em que a
cidade cresce e gera novos núcleos, esses incorrem num movimento
de autocentralismo administrativo. Isso é muito comum não
só na sociedade ocidental como nos registros de Marco Polo cobre
como Kublai-Khan governava toda a extensão da Ásia conhecida
em 1298. Mas esse movimento administrativo e político é acompanhado
pelo movimento social e cultural, de forma que diferentes espaços
da cidade grande são ‘preenchidos’, ‘geram’ ou ‘facilitam’ determinadas
manifestações culturais que se apropriam não só
de um discurso como forma de expressão, mas também de um
espaço.
Que espécie de expressão
determinadas áreas da cidade do Rio de Janeiro podem proporcionar
aos seus cidadãos?
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