Vôo cego; não temos uma teoria de país
César Benjamin, Caros Amigos, maio de 2004


Em certo momento de sua história, o brasil se orgulhou de ser um povo mestiço, aberto a novas experiências.

Hoje não temos mais esse orgulho.

Muitos motivos se somaram, ao longo de nossa história, para tornar especialmente difícil a tarefa de decifrar, mesmo imperfeitamente, o enigma brasileiro. Já independentes, continuamos a ser um animal muito estranho no zoológico das nações: sociedade recente, filha da modernidade, concebida desde o início para servir ao mercado mundial, alicerçada em um escravismo prolongado e tardio, única monarquia em um continente republicano, assentada sobre uma extensa base territorial situada nos trópicos, com um povo em processo de formação, sem um passado profundo em que pudesse ancorar sua identidade. Que futuro estaria reservado para uma nação assim?

Durante muito tempo, as tentativas feitas para compreender esse enigma e constituir uma teoria do Brasil foram, em larga medida, infrutíferas. Não sabíamos fazer outra coisa senão copiar saberes da Europa, onde predominavam os determinismos geográfico e racial que irremediavelmente nos condenavam. Só na década de 1930, depois de mais de cem anos de vida independente, começamos a pegar o fio da nossa própria meada. Devemos ao conservador Gilberto Freyre, em 1934, com Casa-grande e Senzala, uma revolucionária releitura do Brasil, visto a partir do complexo do açúcar, à luz da moderna antropologia cultural: abandonando o enfoque da “raça”, enfatizando a cultura, Freyre virou tudo de ponta-cabeça, com um tremendo resgate do papel civilizatório de negros e índios dentro da formação social brasileira. Devemos a Sérgio Buarque, em 1936, com Raízes do Brasil, um instigante ensaio – “clássico de nascença”, nas palavras de Antônio Cândido – que tentava compreender como uma sociedade rural, de raízes ibéricas, experimentaria o inevitável trânsito para a modernidade urbana e “americana” do século 20. Devemos a Caio Prado, em 1942, com Formação do Brasil Contemporâneo, o definitivo desvendamento das nossas origens como uma empresa colonial, acompanhado da hipótese forte de que a história do Brasil tem um sentido, o da transformação dessa empresa, que fomos, em uma nação, que seremos. Devemos depois a Celso Furtado uma brilhante síntese da Formação Econômica do Brasil, num texto que falava de história para mostrar os desafios fundamentais da modernização brasileira no século 20.

Um país que deixou de existir

Tributárias de diferentes influências – notadamente Franz Boas, Max Weber, Karl Marx e John M. Keynes, nessa ordem –, essas quatro obras seminais lançaram as bases da moderna ciência social brasileira e permitiram o início de uma fecunda reinterpretação do Brasil. Como pano de fundo havia o ciclo desenvolvimentista, com a força de processos estruturais (e estruturantes) que nos conduziam do passado (agrícola, rural e espacialmente fragmentado) ao futuro (urbano, industrial e espacialmente integrado). Sabendo falar sobre nós mesmos, com a nossa própria linguagem, tínhamos agora uma identidade em construção. Sabendo diferenciar passado e futuro, tínhamos as condições de um projeto. Os impasses do império escravista e a pasmaceira da República Velha haviam ficado para trás. Na seqüência desse processo, Darcy Ribeiro ousou inverter os velhos argumentos europeus contra nós, afirmando altivamente as vantagens da mestiçagem tropical diante de uma pretensa pureza temperada e fria. A composição ficava completa: éramos um país mulato, sensual, alegre, sentimental, culturalmente antropofágico, aberto ao outro e ao novo, cheio de oportunidades diante de si. O passado nos condenava, mas o futuro nos redimia. A figura mítica de Macunaíma e a figura real de Garrincha – figuras fora dos padrões, que faziam tudo errado, para no fim dar tudo certo – nos divertiam e nos encorajavam.

Não importa discutir se essa imagem do Brasil estava “certa” ou “errada”, pois a representação ideológica de uma sociedade sobre si mesma cumpre a função de sinalizar valores, e não de retratar fielmente “o que existe”. Em certo momento de sua história, o Brasil reconheceu-se assim e percebeu-se portador de potencialidades insuspeitadas, isso basta. Incorporada à “ideologia brasileira”, essa construção permanece viva. As análises de Gilberto Freyre ganharam existência de carne e osso nos personagens de Jorge Amado, cujas obras viraram novelas e minisséries da Globo, completando o ciclo de sua transformação em senso comum.

Até que ponto essa imagem ideológica – mesmo considerada apenas assim, como imagem ideológica – continua a viger? Não pergunto – reparem – se ela é “verdadeira” ou não, pois isso não faria sentido. Pergunto apenas se continua a organizar o nosso imaginário coletivo, pois é nessa medida que ela se torna verdadeira. Começo a suspeitar que não, e lamento profundamente isso. Os noticiários das últimas semanas nos falam de outro país. Os inomináveis massacres que chegam aos jornais em seqüência – no Rio de Janeiro, em Rondônia, em São Paulo – são apenas a ponta espetacular de um imenso iceberg, pois a grande barbárie do cotidiano permanece dispersa e silenciosa. Emerge, anônima e burocrática, nos números frios do IBGE: 600.000 homicídios nos últimos dez anos. Presídios e Febens superlotados, favelas dominadas pelo tráfico, garimpos que se multiplicam e periferias gigantescas não são o hábitat de mulatos dengosos, criativos e sensuais. Não se constrói, nesses espaços, futuro nenhum. A antropofagia, agora, não é mais cultural.

O esforço dos pensadores que nos antecederam deixou pontos de partida muito valiosos. Mas começo a suspeitar que eles nos falaram de um país que, pelo menos em parte, deixou de existir. O Brasil de Gilberto Freyre girava em torno da família extensa da casa-grande, um espaço integrador dentro da desigualdade; o de Sérgio Buarque apenas iniciava a aventura da urbanização; o de Caio Prado mantinha a perspectiva da libertação nacional e do socialismo; o de Celso Furtado era uma economia dinâmica, que experimentava uma acelerada modernização industrial.

Não temos uma teoria do país

Os elementos centrais com que todos eles trabalharam foram profundamente alterados nos últimos 25 anos. A economia mais dinâmica do mundo, que dobrou seu produto cinco vezes seguidas em cinqüenta anos, caminha para experimentar a terceira década rastejante; tornou-se uma economia de baixo crescimento. Todos os mecanismos que garantiram, no século 20, alguma mobilidade social foram impiedosamente desmontados, a começar da escola pública. A urbanização acelerada concentrou multidões, enquanto a desorganização do mercado de trabalho multiplicava excluídos. Tornado refém do sistema financeiro, o Estado nacional deixou de cumprir funções estruturantes essenciais. A fronteira agrícola foi fechada, estabelecendo-se nas áreas de ocupação recente uma estrutura fundiária ainda mais concentrada que a das áreas de ocupação secular. Nessa sociedade urbanizada e estagnada, os meios de comunicação de massas tornaram-se a principal instituição difusora de desejos e valores, inoculando diariamente, maciçamente, irresponsavelmente uma necessidade de consumo que não pode ser atendida.

Todos esses processos estão aí, a nos desafiar, exigindo de nós um esforço de análise talvez mais árduo do aquele realizado pelas gerações dos nossos mestres. Ainda não sabemos bem até que ponto tais processos alteraram definitivamente as condições sociológicas da nossa existência, e em que direção. Não temos uma teoria do Brasil contemporâneo. Estamos em vôo cego.

PS.: Pertence a esse novo contexto de desmonte cultural do Brasil a informação de que a Universidade de Brasília começou a fotografar os candidatos, no ato de inscrição, para que uma comissão – será uma comissão acadêmica? – possa decidir quem entra e quem não entra, conforme o regime de cotas raciais. A exata gradação da cor da pele de cada um será examinada e julgada. É um arianismo às avessas, que será lembrado como uma das decisões mais vergonhosas já tomadas por uma instituição brasileira de ensino.
 

César Benjamin, autor de "A Opção Brasileira" (Contraponto, 1998, nona edição) e de "Bom Combate" (Contraponto, 2004); escreve uma análise mensal de economia e política econômica na página www.outrobrasil.net; fonte: Caros Amigos
 


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