Lula e o "álcool" no
New York Times
Gustavo Barreto e Raquel Moraes, 8 de maio, 2004
Para isto cita a revista Veja, segundo eles "a principal revista de notícias do país", e Brizola, "líder do Partido Democrático Trabalhista de esquerda". Pelo visto, para o NYT, partido de esquerda é partido que faz aliança com o PFL, assim como "principal", em termos de mídia, é vender muito, mesmo que a Veja descarregue semanalmente seu ódio pelos movimentos sociais e ambientais, assim como seu apreço pelo sistema financeiro e por tudo que vem de fora. Continua sendo "principal", segundo o NYT. A matéria diz ainda que a renúncia inesperada de Jânio Quadros, "após menos de um ano no governo, durante o que dizem ter sido uma maratona de bebedeira, iniciou um período de instabilidade política que levou a um golpe em 1964 e 20 anos de dura ditadura militar". Um estupro histórico do jornalista Larry Rohter, que certamente não estava no auge de suas faculdades mentais para escrever em um texto jornalístico — repito, jornalístico — a palavra "dizem". Na próxima pauta de minha revista, vou escrever que "dizem que o redator-chefe do New York Times é um doente mental", me baseando no que escreveu Rohter, correspondente do diário em Brasília. Eu faria isso, se fosse escritor de ficção científica. Como não sou, tendo a me basear em fatos. Em vez de falar da estrutura fundiária excludente, do sistema perverso e desumano das cidades, da falta crescente de investimentos na seguridade social, do sistema financeiro sufocante, dos agiotas nacionais e estrangeiros que burlam a lei e lucram com o suor dos trabalhadores, da classe política que não representa a população — entre outras coisas — prefere dar asas a preconceitos que não são da nossa conta e que pouco mudariam nossa realidade. Lula é, atualmente, o homem mais capaz de governar este país. Bêbado, sóbrio, do jeito que for, é o único. Eu falo isto ao mesmo tempo em que sou um dos maiores críticos do atual governo, que vem sistematicamente se entregando de corpo e alma ao capital financeiro, calando a oposição propositiva de maneira truculenta e retirando verbas da educação, da saúde, da infra-estrutura e da segurança pública. Mesmo assim — diante de todas as severas ressalvas que faço — este governo é mais capaz do que qualquer outro "projeto" de Nação que temos por aí. Isto porque dentro do governo — não duvidem — o pau literalmente come solto. O Partido dos Trabalhadores tem uma história reconhecida de lutas em prol do andar de baixo. Mesmo possuindo em seus quadros carrascos ignorantes como "professor" Luizinho, José Genoino, Antonio Palocci, José Dirceu e tantas outras lideranças regionais e nacionais, não se apagam 22 anos de História com uma cartinha de compromisso com o capital especulativo e acordos medíocres com a oposição corrupta sob o pretexto da "governabilidade". A menos que se expulsem todos os bravos parlamentares e líderes que não se tornaram esquizofrênicos só por estar no poder, a briga ainda vai ser muito feia lá dentro. Paulo Paim, Olívio Dutra, Ivan Valente, Eduardo Suplicy, Chico Alencar, Walter Pinheiro, Luizianne Lins, Alessandro Molon, Frei Sérgio, Dionilso Marcon, Odilon Guedes, Eliomar Coelho e tantos outros homens e mulheres, nobres em seus ideais, não me deixam mentir. O PT vai ter que expulsar um a um, sem dó, porque a consciência tranqüila é algo que não se compra de uma pessoa comprometida com a população. Não se trata, neste momento, de um elogio ao PT, nem de uma crítica. Trata-se de um elogio às pessoas que entendem que o PT foi eleito para cumprir promessas de campanha simples, diretas e objetivas — algo que claramente não está fazendo. E qual partido — retomando a questão inicial — possui resquícios de um projeto de esquerda tão fortemente enraizado em sua História? Não foi à toa que a ex-petista Luciana Genro — expulsa em dezembro em 2003 da sigla — reafirmou, durante ato de criação de um novo partido de esquerda, no Rio de Janeiro, a necessidade de se usar a plataforma de lutas que o PT esqueceu ao entrar no governo. É preciso criar uma alternativa consistente para a esquerda em outro partido, sem dúvida, sem esquecer a importância dos movimentos sociais. No entanto, o discurso que ataca com unhas e dentes o atual governo e esquece dos conservadores mais à direita só beneficia um tipo de projeto: o da manutenção da ordem vigente, excludente e concentradora de renda. É preciso medir com discernimento a relação de poderes no Brasil para que não haja injustiças políticas. Críticas contundentes devem ser direcionadas de forma proporcional ao tamanho do retrocesso. Fortalecer partidos como o PFL e o PSDB, símbolos do atraso e da continuidade — mesmo que indiretamente — é o cúmulo da falta de respeito pela construção de um Brasil mais justo. É preciso medir até que ponto os retrocessos do governo Lula podem se equiparar aos gigantescos e inimagináveis atrasos históricos que figuras como FHC, ACM e Sarney nos trouxeram. Ficar escrevendo que "sob Lula, a caipirinha virou bebida nacional por decreto presidencial", como relatou no mês passado o jornal Folha de S.Paulo, servindo inclusive de subsídio para a matéria do New York Times, é um claro sinal de irresponsabilidade midiática — mesmo reconhecendo a importância do jornal em questão no processo de enriquecimento do debate público, abrindo espaço para personagens da vida pública que pouco ou nunca são ouvidos. Corremos freqüentemente o risco de nos embriagarmos — seja com a sedução do poder estabelecido, seja com a ausência completa deste, abrindo brechas para os oportunistas. No caso de Larry Rohter, a ausência
de crítica faz dele ou um embriagado ou um oportunista.
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