64: A ditadura do capital
Emir Sader, Jornal do Brasil
28 de março, 2004


O golpe militar foi executado pelas FFAA brasileiras, reproduzindo aqui um tipo de movimento que já se havia dado na Argentina, em 1955, na derrubada de Perón, quando foi cunhada a expressão ''gorila'' para o tipo de militar troglodita que protagonizava esse tipo de movimento. Aqui, numa crise de sinceridade, um deles os auto definiu como ''vacas fardadas''.

As FFAA, de braço do aparelho de Estado, tornaram-se sua espinha dorsal, militarizando o Estado e estendendo suas garras até onde pôde— processo em que o SNI foi um instrumento essencial. Porém, o golpe militar e o regime ditatorial que foi introduzido por ele, serviram interesses muito mais profundos do que simplesmente os da corporação militar. A violenta repressão serviu para reforçar as posições do grande capital nacional e estrangeiro no processo de acumulação de capital.

Houve quem acreditasse que a ruptura com a democracia levaria o Brasil a um retrocesso econômico, até mesmo a voltar a ser uma economia primário exportadora. Não foi, no entanto, o que aconteceu. Ao contrário. A democracia fortalecia a capacidade de reivindicação dos setores populares, pela primeira vez se sindicalizavam os trabalhadores rurais, se estendia assim o mercado interno de consumo popular. Porém, desde a instalação da indústria automobilística, dez anos antes, houve um deslocamento acentuado no eixo do processo de acumulação na direção do consumo de luxo e da exportação. Não interessava às grandes corporações nacionais e estrangeiras que passaram a dominar a economia do país o aumento do poder aquisitivo das camadas populares, que demandavam produtos de consumo de indústrias tradicionais. Assim, a aceleração do processo de concentração de renda seria funcional à hegemonia desses setores sobre a economia— foi o que aconteceu com a instalação da ditadura militar.

O novo regime decretou o arrocho salarial, comprimindo o mercado interno de consumo de massas, que também sofreu com o aumento do desemprego, a deterioração dos serviços públicos, o fechamento de todos os sindicatos do país. Enquanto isso, favoreceu abertamente ao grande capital e ao mercado de consumo de luxo, assim como à exportação.

A degradação dos salários e dos serviços de saúde e de educação do Estado, por sua vez, teve como uma de suas graves conseqüências a fuga da classe média para escolas privadas e planos privados de saúde. De lugar de convivência e de aliança entre as camadas mais pobres e a classe média, a escola pública passou a ser reduto dos mais pobres, enquanto a classe média passou a fazer um enorme esforço para pagar escolas particulares. A escola pública, embora siga abrigando 90% das crianças e jovens do país, passou a ser assunto de pobre, com pouco destaque na opinião pública, mais informada sobre o preço caro das escolas particulares do que sobre as condições de funcionamento ruins do ensino público.

O capitalismo brasileiro cresceu mais com ditadura do que com democracia, mas cresceu consolidando uma estrutura produtiva voltada para o consumo de luxo e para a exportação. O desenvolvimento econômico não se traduziu em avanços sociais, a renda concentrou-se ainda mais, os serviços públicos pioraram, enquanto a mentalidade mercantil avançou.

A transição para a democracia política, no entanto, não rompeu com essa estrutura produtiva que, ao contrário, se prolongou. Os monopólios avançaram na indústria, no comércio, no sistema financeiro, na agricultura, na mídia, porque a democracia política se limitou a restaurar os mecanismos institucionais de funcionamento do sistema político e jurídico, sem atacar os grandes interesses que tinham faturado tanto com a ditadura. Estes, ao contrário, se reciclaram.

Isto se deu porque a democracia renasceu não conforme a imagem e semelhança da campanha das diretas, mas à imagem e semelhança do Colégio Eleitoral, onde se congregaram o velho e o novo, gerando um governo que, por contingências, acabou sendo presidido por quem havia sido, até poucas semanas antes, presidente do partido da ditadura e chefe da campanha contra as eleições diretas.

Assim, a forma do regime político mudou, mas a democracia política não foi acompanhada da democracia social, a ponto de o Brasil ser considerado o caso mais típico de ditadura social no mundo, por conservar a pior distribuição de renda do planeta. Derrotada a ditadura como regime político, os beneficiários no plano econômico— assim como os agentes da violência estatal — não foram punidos, nem sequer tiveram destacado seu papel de beneficiários do regime de terror que vitimou o povo brasileiro durante mais de duas décadas.
 


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