Um governo escalafobético
Sebastião Nery, Tribuna da Imprensa
23 de março, 2004


João Minervino Araujo era uma das maiores firmas comerciais da Paraíba. Veio a crise, embananou-se. Um dia, apareceu um advogado de Recife para cobrar títulos atrasados. Coronel Minervino ficou furioso:

 Doutor, nunca atrasei um título em toda a minha vida. Não sou culpado pela crise, que pegou todo mundo, no estado todo, no País todo. Volte para Recife. Quando tiver dinheiro, pago.

 É, coronel, estou vendo que o senhor vai ficar em nossa firma como um cliente relapso.

 E eu estou vendo que o senhor é um advogado muito escalafobético.

 O que é escalafobético, coronel?

 Não sei não, doutor. Só sei que é um palavrão muito forte.

Rodrigues e Mantega

O ministro Roberto Rodrigues, da Agricultura, suave cantor de chorosos boleros, passou seis meses pedindo uma audiência a seu colega ministro Guido Mantega, do Planejamento, e não conseguiu. Mandou um recado por um amigo de Mantega:

"Diga àquele vagabundo que ele vá à puta que pariu" ("O Globo").

E contou a homenagem numa reunião com 30 deputados do governo. Com o escândalo, Roberto Rodrigues disse que "não teve intenção de ofender". Imaginem se tivesse. Lula teria que mandar o governo todo sair da sala.

Caetano Veloso já tinha avisado que estes não são tempos amenos. Mas um ministro dizer isso a outro e continuarem os dois no governo, sentados lado a lado ou frente a frente nas reuniões ministeriais, é muito escalafobético.

(...)


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