Uma semana sem televisão,
um mês sem jornal e revista
Marilene Felinto, Caros Amigos, abril de 2004
A distorção dos fatos é tão evidente, que qualquer leigo perceberá. A mentira é tão flagrante, que o indivíduo não demora a se sentir enganado, subestimado na sua capacidade de leitura e interpretação do mundo. Uma notícia que me chamou a atenção quando voltei (em meados de fevereiro) daqueles nove dias de isolamento numa fazenda do interior do país, sem televisão e telefone, sem Internet e mídia impressa, foi a "iniciativa" da TV Globo de organizar um seminário de mobilização pela "defesa e valorização da produção artística e intelectual brasileira" (assim se anunciava em jornais e telejornais). O evento aconteceu na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC), reuniu as figurinhas carimbadas de sempre - os mesmos deslumbrados e marqueteiros donos de ONGs, os mesmos atores de televisão (da Globo), os mesmos jornalistas pau-para-toda-obra e que, de verdade, só servem para promoção de eventos, são os colunistas-garotos-propaganda, os mesmos "produtores" de televisão e cinema - e era liderado pelo apresentador oficial do Jornal Nacional (da Globo), William Boner. De início, não entendi nada daquela salada mal-amanhada: a Globo, em campanha pela produção artística nacional? Como assim, se é a própria Globo que fala inglês e importa o que há de mais superficial e artificial nas produções live (ao vivo) da televisão dos Estados Unidos? Como assim, se é a própria Globo que bombardeia o telespectador com o espetáculo de fabricação do engodo, o BBB (Big Brother Brasil), assim em letras garrafais e em inglês? A Globo da Globo News ("notícias", em inglês) e da NET ("rede", em inglês)? Como assim? Na verdade, aquele era mais um evento para promover a própria TV Globo e confundir a opinião pública - organizado numa universidade para dar uma mão de cal erudita a, digamos, Regina Duarte (ela que tinha tanto "medo" de que Lula fosse eleito presidente, coitadinha, lembram?, durante a campanha presidencial) e mais um bando de artistas-relações-públicas ali presentes. O que se chamava ali de "produção artística" não passava das próprias novelas e minisséries globais, ou de uns filmezinhos de cinema aqui e ali, em nome dos quais todos torcem (e a Globo faz campanha) por um Oscar (pronunciado "óscar", é claro) norte-americano. De "nacional", portanto, não havia nada, a não ser, talvez, a suposta "abrangência nacional" a que a cara de William Boner poderia remeter, vinculada sempre ao telejornal que ele apresenta. Uma invenção de ponta a ponta. Montada talvez para sensibilizar novamente o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para a crise financeira do grupo Globo. No governo Fernando Henrique (PSDB), o BNDES aceitou renegociar a dívida que a Globo Cabo, empresa de televisão por assinatura controlada pelas Organizações Globo, tinha com o banco - aceitou esticar prazos, em outras palavras, de um empréstimo feito com dinheiro público. O jornal inglês Financial Times (bíblia e fonte de todo tipo de citação a que a pior imprensa paulista de hoje recorre) já dizia em meados do ano passado que a morte de Roberto Marinho obrigaria a Globo a se reestruturar, inclusive financeiramente. O encontro na PUC não passava de uma propaganda abusiva (e enganosa) da TV Globo para chamar atenção sobre si mesma, travestindo o objetivo do encontro em "defesa ou valorização da produção artística nacional". Nada se informava ali. Que cultura nacional? Qual produção artística? Que valorização? Quem acha que há cultura nacional e que há desvalorização? Quem desvaloriza? Desde quando? Nada se informava. O encontro era apenas um ajuntamento de notáveis reunidos para confundir a opinião pública. Não havia debate, havia espetáculo midiático; não havia informação, havia relações públicas. Há cerca de uma década e meia, o processo de esvaziamento da função essencial da imprensa de informação é notório, como diz o crítico francês Ignacio Ramonet. Segundo ele, não existe mais separação entre os setores da cultura de massas, da comunicação e da informação. "Estas três esferas antes eram autônomas: por um lado, a cultura de massas com sua lógica comercial, suas criações populares, seus objetivos essencialmente mercantilistas; por outro, a comunicação, no sentido publicitário, o marketing, a propaganda, a retórica, a persuasão; e, finalmente, a informação com suas agências de notícias, os boletins de rádio ou televisão, a imprensa, os canais de informação contínua, enfim, o universo de todos os jornalismos." O chamado "quarto poder", antes representado pela imprensa, esvaziou-se de sentido, perdeu sua função de contrapoder, como observa Ramonet: "A globalização é também a globalização dos meios de comunicação de massa, da comunicação e da informação. Preocupados sobretudo em preservar o seu gigantismo, o que os obriga a cortejar os outros poderes, estes grandes grupos (de mídia]) já não se propõem, como objetivo cívico, ser um 'quarto poder' nem denunciar os abusos contra o direito, nem corrigir as disfunções da democracia para polir e aperfeiçoar o sistema político. Também já não desejam erigir-se em um 'quarto poder' e, menos ainda, atuar como um contrapoder". Pensar sob essa ótica o caso da imprensa escrita paulista hoje (depois da eleição de Luiz Inácio Lula da Silva) rende conclusões espantosas sobre a orquestração montada aqui para desmoralizar este governo. Nenhum governo está acima de críticas. O que ocorre aqui, porém, não é crítica, é uma espécie de síndrome da imprensa venezuelana (que, insuflada pela oposição conservadora, tenta a todo custo derrubar o governo de Hugo Chávez, eleito democraticamente em 1998). Aqui, a campanha é encabeçada pelo jornal Folha de S. Paulo, e seguida mais timidamente pelas revistas semanais decadentes, perdidas entre cavar um "furo" político arrasador, à governo Collor, ou dar uma capa mais comercial e comestível de comportamento. A campanha encabeçada pela Folha prima pela manipulação grosseira dos fatos, pela distorção da linguagem, pela caricatura de "contrapoder" em que, especialmente este jornal, tenta pateticamente se escorar (basta mencionar que recorreu recentemente a uma propaganda de televisão que lembra os tempos em que julga ter tido uma função cívica: a "Folha das diretas já", para ver se vende assinaturas). Veja-se ainda a incoerência descarada de certos colunistas antes "de esquerda" e hoje afinados (como reza o manual) com os ditames da linha editorial da social democracia do candidato derrotado à presidência, José Serra (PSDB), um dos colunistas nobres daquela publicação. Ao menos o outro jornalão, o Estado de S. Paulo, mantém uma certa decência de estilo no trato da notícia e na redação do texto. Vale a pena comparar um jornal com outro, analisar as escolhas editoriais, os títulos, o texto. Mas isso é longo assunto para outra coluna. Resta aos leitores de boa-fé
e aos cidadãos de alguma inteligência se juntarem para constituir
o "quinto poder" sugerido por Ramonet, que permita opor uma força
cívica cidadã a essa nova coalizão dominante - o superpoder
dos meios de comunicação e dos grandes grupos midiáticos.
Marilene Felinto é
escritora e jornalista. [marilenefelinto@carosamigos.com.br]
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