Carta de um estudante de jornalismo no Rio de Janeiro

Senhores, eu tenho aqui, comigo, diversas denúncias. Integrantes do governo do Estado, delegados, PMs, nomes e datas com detalhes. Eu tenho a possibilidade, como jornalista, de conseguir muito mais. Em cada comunidade, sem me arriscar muito, eu posso coletar nomes e fazer metade dessa gente, paga pelo Estado, ser denunciada por esta casa.

Vocês sabem o que eu posso fazer com isso? Nada.

Se hoje, sexta-feira, eu colocar essas denúncias na ouvidoria do Estado, se levar para a delegacia, em dois dias, talvez três, todos os meus companheiros, que estão na favela construindo creche, levando remédio e tratando dos idosos, estarão mortos. Todos eles.

Esse é o mínimo que pode acontecer. É a hipótese mais “light”. Em outras duas hipóteses, mais comuns nestes últimos anos, eles serão torturados e não morrerão, ficando com as seqüelas e traumas do acontecimento; Ou, o pior, terão suas filhas mortas, e serão condenados por suas mulheres, com quem estão há 20, 30 anos.

Eu sou morador da Zona Sul do Rio de Janeiro. Esta vem a ser praticamente a única região na qual observamos a ação do Estado. No meu bairro, Laranjeiras, muitos secretários e a própria governadora residem. Sempre tive uma família grande e compreensiva.

Senhores, vocês possuem filhos? É o que acontece na favela. Muitos possuem filhos, netos, bisnetos. Estão todos lá, em meio ao fogo cruzado, fugindo todos os dias dos traficantes e dos policiais. Na favela, não existe trabalhador para a polícia. Ela entra atirando, e todos são culpados até que se prove ao contrário.

E quem vai ajudar? Todas essas associações, deputados e secretários correm da comunidade na hora H. Eu não posso citar por medida de segurança. “Não conheço, nunca vi vocês”, dizem os governantes que em outros tempos prometerem proteção. E os moradores que lutam pelos Direitos Humanos, que não se envolvem com o tráfico, que estão tentando guiar os moradores para as escolas e para o trabalho, todos são abandonados.

São ameaçados, em 95% dos casos, por delegados, traficantes e PMs. Por todos os lados, estão cercados. “Mas eu tenho que fazer o que é justo”, me disse um, ontem. De onde será que ele tira força? E quem pode ignorar o chamado da população? Só pessoas muito inescrupulosas, podem ter certeza.

Sabem qual é o crime desses moradores? Botam associações para funcionar, criam legitimidade realizando eleições com a comunidade. Enfim, lutam por algum progresso. Tudo sem o dinheiro do tráfico. Tudo com a força de vontade que Deus – o único representante do poder público que chega na favela – lhes deu.

Esse meu amigo, que está marcado pelo delegado local, está pensando em deixar a família. É muito arriscado ter esse tipo de relação por estas áreas. Se a filha morre, a mulher vai falar para ele: “Você foi quem matou minha filha”.

Portanto, senhores e senhoras, impotentes e imobilizados diante da nossa irreversível situação a curto prazo, vamos trabalhar para que a próxima geração de parlamentares e secretários de Estado possam fazer alguma coisa. Irreversível, sim, porque todas as instâncias da Segurança Pública no Estado estão em situação de calamidade pública. 10, talvez 20% de integrantes dessas instâncias ativos na luta pelos direitos do destituído. O resto, omissos e perpetuadores de injustiças diárias.

Esta semana morreu um garoto nessa comunidade. Era iniciante no tráfico. As pessoas da comunidade estavam levando ele para o caminho do estudo, de Deus, qualquer que seja a forma para que ele saísse daquela vida. O garoto foi classificado como uma espécie de meio-termo, ou seja, não estava com a vida perdida, mas poderia se perder a qualquer momento.

A polícia entrou na casa dele e pediu R$ 1.500. “Vai pegar na boca de fumo”. Ele não podia, não tinha nada com lá. Morreu, três tiros, dois na cabeça. Acontece todos os dias, às vezes sai na mídia e a Globo se escandaliza. Só quando Tim Lopes, que falava demais – como é característica de uma pessoa alcoolizada regularmente, situação de conhecimento de todos os moradores dos locais onde ele trabalhava – ou alguém do tipo é morto, é que nos mobilizamos.

Para que pobre ganhe destaque, tem que acontecer o seguinte: “o rapaz recebeu choques elétricos, levou chutes na barriga e foi empalado com um cabo de vassoura. Levado para o Hospital Miguel Couto, onde chegou urinando sangue”. Matéria do Globo de hoje, o rapaz é Nelis Nelson Souza dos Santos, de 31 anos, morador do Morro da Coroa, em Santa Teresa.

Voltando ao garoto morto. Esse garoto, cruelmente morto, tem direito a um enterro de R$ 300, porque era carente. O funcionário do governo do Estado, atualmente nas mãos do casal Garotinho, disse para os parentes dele para que “guardassem o corpo por três meses”. Justificativa: “Eu não vou liberar agora porque senão, na época da eleição, vem outro deputado aí, faz um churrasco e todo mundo vota nele. Vamos esperar as eleições”.

E por que eu não posso fazer essa denúncia? Por que o Estado de Direito faliu. O Estado faliu e estamos na Terra de Ninguém. E seja o que Deus – repito, o único representante do poder público nas favelas – quiser.
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Gustavo Barreto
Rio, 19 de fevereiro de 2004

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