Funk da Monga: a Monga é
você
Wilian Pereira, 18 de março, 2004
Se não teve o prazer de participar de uma das inúmeras sessões diárias da mágica de jogos de espelho em que a mulher vira um gorila, pelo menos deve ter ouvido falar que tal coisa existe. Pesquisei e me disseram que é uma herança remota, provavelmente derivada de alguma lenda ou tradição cigana (a maioria dos parques e circos pertence ainda a descendentes de ciganos). Mas isso deve ser mentira. Como saberiam disso? Tudo bem. E você pergunta: o que eu tenho a ver com a Monga? Monga, Monga, a mulher que vira macaco... Até agora, nada. Porém que cabe à música fazer justiça a todos os gêneros, categorias e bolsões sociológicos esquecidos, como o caso da Monga, por exemplo. Veja o Roberto Carlos compondo para taxistas, gordinhas e pessoas de óculos. Veja o Amado Batista compondo para lixeiros e empregadas. E, de repente, logo somos levados a uma série de nomes que estão ali, entre a justiça social e o golpe de mídia. Abençoados por uma boa produção midiática (com ou sem bunda, mas geralmente com muita bunda – entenda-se por isto o que se puder), o sobe-e-desce (oops!) das atrações do show business vez ou outra nos traz coisas terríveis e, graças a Deus, também passageiras. Tiazinha, Feiticeira, Kátia (aquela cega da Xuxa, “não está sendo fá-á- cil”), Gretchen, Xuxa, Carla Perez, Sheila’s, Lacraia, axés e pagodes de todos os naipes. A lista de pessoas que não só sobrevivem, mas FAZEM CARREIRA com golpes de mídia é realmente enorme. Há neste extremos os PopStars, as Celebridades, os BigBrothers de todos os tamanhos, bustos e bitolas possíveis. Há os cometáveis apresentadores, todos muito Mignons, bonitinhos mesmo. Tudo tudo muito Fantástico!!! No meio campo dos golpes, há os rebarbas do que já foram. Gente como os Rolling Stones, Rita Lee e Caetano Veloso, exímios artistas, infelizmente teriam mais respeito e muito maior credibilidade se tivessem parado de gravar há 5, talvez 20 anos atrás. Porque há tempos sabemos que a qualidade genuína degringola quando a$$ume-$e e resolve fazer carreira Pop. Exemplos? Titãs, Ira, por exemplo. Ou Arnaldo Antunes e seus Tribalistas. Ou Aerosmith. É mais ou menos assim: imaginem que os The Beatles estivessem vivos e resolvessem se juntar para gravar de novo um álbum comemorativo: venderia tudo, até o último exemplar. Mas, como beatlemaníaco doente fervoroso que sou, mesmo assim DUVIDO que sairia algo que prestasse. Du-vi-do. Porque isso, caros amigos, é impossível. E há, no outro extremo dos show-businessmen, os muito muito espertos que, para não perderem tempo já nascem no pop. PORQUE SÓ O POP DÁ DINHEIRO, minha gente!!! É o caso dos Gorillaz, que não se apresentavam porque diziam que no fim tudo vira pop, e eram portanto já a caricatura do que seriam (desenhos animados em vez de pessoas). Há os Skanks, L-Ass Jacks e Felipes Dions da vida, as Kelly Keys (essa sim é um gênio!), Vanessas Camargos, Sandys e sobretudo muitos Júniors: os filhos dos filhos dos caras, tipo... ah, vocês sabem os nomes... Jair-zinhos, Elis-zinhas e, podem apostar, Xuxinhas, Angelikinhas, Elianinhas, Galisteuzinhas etc etc etc. Há, por fim, os que tentam uma arte genuína e sólida, mas deparam-se com as terríveis condições deste mercado-mundo alienado, massificado, idiotizado. Os revoltados são nossos ídolos, tipo Lobão: não é que o cara sabe mesmo o que está falando? Que raro!! Já os sarcásticos entram pro underground e fazem panelinhas de fãs, fiéis e poucos: Falcão, Wander Wildner e outros do Cult Brega. E há os que tentam um golpe, para capitalizar, entrar no sistema, ganhar o seu, pagar as contas e depois saírem. Como Los Hermanos, excelentes, com sua bruaca Ana Júlia. Ou o De Falla com sua Popozuda. Ou, aqui sim, o Funk da Monga. Estes, meus caros, são talvez os mais audazes e – pasmem! – condizentes, íntegros e fiéis artistas musicais. VENDEM SIM a alma para o capeta. Mas não por serem vudus e bonecos de Marlenes Mattos e similares, joguetes de mídia, produtos pasteurizados e sem alma. Vendem-se de sarcasmo. De verem que a grande massa é COMPLETAMENTE IDIOTA e que se, devidamente embalado, pode-se vender qualquer tipo de PRODUTO musical (a música atual é só uma mercadoria abstrata). Exemplos finais: funk carioca, éguas pocotós, axés de manivelas e encaixa-encaixa-encaixa... Por essas e outras, terminei um curso de graduação em filosofia e, após ter passado pela história das idéias e tal e eticétera e aquela coisa toda, resolvi simplesmente que, no zoológico das bestas-feras, minhas chances eram mesmo maiores no golpe de mídia do que à espera de reconhecimento intelectual como pensador, artista, cronista ou o escambau ou bacalhau que fosse (“Ôooo Terezinha... vocês querem bacalhau?”). E é com um sorriso satânico de ponta-a-ponta na minha cara execrável e sórdida que os convido a escutarem a merda do Funk da Monga. É merda mas é próprio. Horrível mas genuíno. Mas o que dizer, se isso não pesa nos valores nem toca no rádio. Ai, se eu fosse um Júnior....... Humpf! Acusam-me de traidor, fomentador volumétrico do lixo cultural. Obrigado! Não poderia esperar reconhecimento maior. Acredite, amigo: frente aos fatos, você provavelmente teria feio o mesmo. Baba baby baby baba. Baba. Baba baba baba bei-be, baba... Ah, por último, só pra falar de música mesmo, fora do bla bla bla dos jornais, redes e lojas de CD estão os estereotipados Yuppies, brancos chatos bobos melancólicos, com seus óculos quadrados e pretos, seus discos de Belle & Sebastian e Björk e, sobretudo, cheios de uma vontade imensa de continuarem tortos, ingleses deslocados de calças frouxas e tênis furado com sílver teipe. Infelizmente, esses esquisitos estão melhor servidos de música que quase todos nós. Porém que, agora que sou Eme-Ci, sou mais a Lacraia que a Mother Queen.
E tenho dito.
Wilian Pereira é filósofo por formação, aloprado de nascença e funkeiro por manifesto estético-político-social. Escute seu funk horrível no endereço abaixo. É pelo bem da nação. Opinião | Arquivo
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