Medo
do medo
Luis
Fernando Verissimo, O
Globo, 18.mar.2004
Na
semana passada estivemos todos na estranha situação de ter
que escolher nossos terroristas preferidos.
Na
torcida para que os culpados pelas explosões em Madri fossem os
separatistas bascos estavam o governo do Aznar e quase todo o mundo. O
Aznar porque a culpa da ETA o favorecia eleitoralmente e a culpa da al-Qaeda
só daria mais razão aos que eram contra o envolvimento espanhol
na aventura no Iraque, quase todo o mundo porque um atentado parecido com
o de 11/9, em Nova Yorque, no centro de uma das grandes nações
européias abria uma fase nova e assustadora na guerra do terror
contra o nosso sistema nervoso. Eu, como o Zé Maria, torci para
que fosse a ETA. Nem o consolo de ver a insensatez americana e sua encampação
pela direita espanhola punida pela eleição dos socialistas
compensa o fato de que — se foi mesmo a al-Qaeda ou coisa parecida a responsável
pelo horror de Madri — acabamos de passar do mau ao pior.
Na
guerra de Estados europeus contra seus descontentes explosivos — a ETA
na Espanha pós-Franco, o IRA na Inglaterra, grupos radicais na Itália
e Alemanha em décadas recentes — muitas regras de correto procedimento
policial e jurídico foram tapeadas mas a democracia, de um jeito
ou de outro, sobreviveu. A Espanha e os outros eram, mesmo, exemplos de
como se pode enfrentar o terror sem necessariamente perder a cabeça.
Com o fundamentalismo islâmico inaugurando sua temporada européia,
todos os países da comunidade passam a enfrentar o mesmo desafio
a suas instituições e valores que enfrentam os americanos
desde 11/9. Os americanos não estão tendo muito sucesso em
manter a cabeça no lugar, vamos ver o que acontece na Europa sob
a mesma ameaça. Paradoxo: o que deu a vitória aos socialistas
na Espanha pode muito bem dar força à direita mais dura no
resto do continente.
Há
70 anos, para animar seus compatriotas abatidos pela depressão e
a desesperança, o presidente Franklin Roosevelt disse uma fase que
ficou famosa: eles não tinham nada a temer a não ser o próprio
medo. Nesta questão, é difícil saber do que ter mais
medo, do terror ou do medo do terror. |