Camisinha de Platão
Gustavo Barreto e Renato
Kress
18 de março, 2004
Na política, temos
a impressão de que boa parte de nossa História pode ser analisada
do ponto de vista do “façamos a revolução antes que
o povo a faça”. Nestes momentos, a classe dominante percebe que
o poder estabelecido passa por uma crise e vê a necessidade de realizar
uma simulação de mudança de rumo apenas para manter
tudo como está.
Esta apropriação
do discurso de contraposição à hegemonia dominante
obtém sucesso por conta de um fator que é entendido e utilizado
por qualquer corrente de pensamento representativa: a coesão.
O discurso progressista sob
a óptica dos conservadores difunde-se necessariamente com a ajuda
de reprodutores de informação que não se dão
o trabalho de pensar e que, no entanto, são tidos equivocadamente
como ‘formadores de opinião’.
Freud foi e é um
dos pensamentos mais ‘estuprados’ de todos os tempos, e apenas a união
de muitas pessoas pode explicar como uma única pessoa pôde
ser tão mal interpretada como ele é. O freudiano acéfalo
pensa que nossa sociedade é demasiadamente sexualizada, mesmo que
Freud seguramente discordasse deste ponto de vista, já que para
o autor a palavra certa seria ‘genitalizada’. O foco estaria muito provavelmente
no fetiche da genitália, não sobre uma questão de
gênero.
Esta é apenas uma
ilustração que se assemelha a uma partícula de água
em um mar de difusões equivocadas – se o prezado leitor quiser alcançar
as raias da loucura interpretativa pode simplesmente penar um pouco sobre
Marx, o “jovem” Marx, o Marx “maduro” e as diversas correntes do Marxismo,
Marxianismo, Rosa Luxemburgo, Stálin, Lênin, Gramsci e outras
beldades da sociologia –, iniciadas por pessoas de má-fé
ou com posições díspares e impulsionada por gente
que está mais preocupada em ter opinião do que formular uma.
Essa poderosa fórmula
é capaz de se apropriar de qualquer autor, em qualquer momento
da História, já que esconde ao máximo pensamentos
dissidentes e, quando foge do controle, toma o raciocínio como seu,
adequando-o à lógica vigente.
Faz-se um simples jogo de
cortar e colar que nos ensinam nas academias, o famoso ‘recorte epistemológico’,
que acaba sendo utilizado como uma ferramenta de manipulação
do pensamento de determinado autor até que corresponda ao interesse
do discurso hegemônico. Conta para isso com uma legião de
‘formadores de opinião’ vaidosos demais para aceitar que podem estar
defendendo posição alheia sem perceber.
Nosso sistema de conhecimento
sempre nos parece sistemático, provado, aplicável e evidente,
pois é nosso. Por outro lado, todo e qualquer sistema alheio é
contraditório, não provado, inaplicável, irreal ou
místico, já dizia Fleck. É aqui que percebemos o quanto
somos arrogantes.
Citando H.C.Beeching: “Primeiro
eu; meu nome é Jowett. Não há conhecimento senão
o meu. Sou o senhor desta escola. O que eu não conheço não
é conhecimento”.
Neste contexto está
a importância do ego, em oposição ao coletivo.
Me reconheço ‘eu’ por ser um ‘não-outro’. O excesso de individualismo
hoje percebido não é uma característica em si, mas
em parte um artifício para manter as pessoas afastadas de quase
tudo o que já foi dito, fazendo acreditar de forma fantasiosa que
podemos ser originais em um planeta cuja História do Conhecimento
está muito além da nossa percepção, mesmo que
voltemos nossas vidas apenas para a reflexão.
Esta riqueza é responsável
pela máxima de que quanto mais aprendemos, menos sabemos. “Na vida,
o que aprendemos mesmo é a sempre fazer maiores perguntas”, já
dizia Guimarães Rosa.
Para além do ceticismo
acadêmico, cabe lembrar que grandes pensadores foram responsáveis
pela abertura de brechas importantes que mantiveram a dissidência
viva e realizaram importantes avanços na História, apesar
de todo o retrocesso.
Ou: quando sentir vontade
de opinar, faça uma pausa e ponha seu cérebro para funcionar.
Palavras mal utilizadas apenas o fazem um fantoche de sabe-se lá
quem.
Renato Kress é
escritor, autor de "Consciência"
(Garamond, 2000) e editor da revista Consciência.Net [renatokress@consciencia.net]
Gustavo Barreto é
editor da revista Consciência.Net e estudante de Comunicação
Social da UFRJ. [gustavo@consciencia.net]
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