Pedido de desculpas
Chico Alencar e Antônio Carlos Biscaia
O senhor Waldomiro Diniz, subchefe de Assuntos Parlamentares da Casa Civil até o início deste mês, é réu confesso de crimes de extorsão, fraude e peculato. As provas contundentes deste comportamento ilícito são de 2002, quando o personagem estava à frente da Loterj, mas é improvável que antes e depois ele tenha procedido com lisura. Corrupção não costuma ser espasmo e sim doença crônica. Nós, do Partido dos Trabalhadores, falhamos gravemente no controle de qualidade necessário ao acolher Waldomiro Diniz em função tão importante. Na parcela de responsabilidade que nos cabe como petistas, pedimos desculpas à sociedade brasileira pela dicotomia entre teoria e prática. O descuido machuca mas não fere de morte as sentidas esperanças de mudança dos 52 milhões de brasileiros que elegeram Lula. Deveríamos nós, parlamentares do PT, tomar, com urgência, algumas iniciativas para que o patrimônio ético do nosso partido e a credibilidade do nosso governo não ficassem maculados. Uma delas seria a constituição de Comissão Externa da Câmara dos Deputados para acompanhar o inquérito da Polícia Federal sobre as atividades de Diniz, inclusive em 2003. Infelizmente, nossa bancada, por maioria de votos, não considerou necessária esta supervisão eficaz, atributo especial do Poder Legislativo. Também soará estranho para a opinião pública negar apoio a uma CPI que seja proposta para examinar tráfico de influência de Diniz no contrato CEF-Gtech, a operadora do sistema de loterias, e suas demais ações como subchefe de Assuntos Parlamentares, todos agora sob suspeição. Na nossa boa tradição, seria normal encaminhar uma proposta de CPI dos financiamentos das campanhas eleitorais, mas cientes de que ela só se viabilizaria a partir de amplo acordo no colégio de líderes. Aliás, neste colégio reside a possibilidade tranqüilizadora de se firmar um pacto suprapartidário de combate à corrupção e à impunidade, incorporando também o Executivo e o Judiciário. Ainda no plano legislativo, impõe-se priorizar, na agenda deste semestre no Congresso Nacional, a reforma política, em especial o financiamento público exclusivo de campanhas eleitorais. Urge solicitar investigação da Polícia Federal sobre os bingos, visto que 80% deles são ilegais, e sobre as operações clandestinas de filmagens da Infraero. As máfias não podem prosperar e capturar nossas instituições. Por fim, está na hora de o Executivo implantar a Agência Nacional Anticorrupção, cumprindo compromisso assinado pelo então candidato Lula com a Organização Transparência-Brasil. Esta iniciativa, em conjunto com o pacto acima proposto, colocaria em primeiro plano o combate a esta chaga que contamina a vida nacional e, ela sim, desestabiliza governos. O caso Diniz reforça a degenerada tradição do tráfico de influência e dos negócios escusos no aparelho de Estado brasileiro. E clama do PT e do governo uma postura diferente do que é triste hábito nacional: esconder nossas mazelas. Sem isso, a alma de nossa política se apequenará de vez, jogando a população na descrença. É hora de retirar a lama e preservar o húmus que fecunda nossos valores republicanos. Chico Alencar é
deputado federal (PT/RJ) e historiador.
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