Palocci e Benedita foram alertados
sobre esquemas do PT no Rio

Original AOL: Parte um; Parte dois; Trechos da entrevista de Luiz Eduardo Soares à AOL selecionados pela revista Consciência.Net. Se tiver tempo, leia toda a entrevista, que é bem resumida porém extensa, por conter muita informação. Leia o perfil de Luiz Eduardo Soares.


Quem é Luiz Eduardo Soares
O intelectual Luiz Eduardo Soares é referência no Brasil e no exterior na área de segurança pública. Autor de vários livros sobre o assunto, mestre em Antropologia Social, doutor em Filosofia e em Ciência Política, Soares passou da teoria à prática em 1999. Ocupou cargos públicos no Rio de Janeiro e em Porto Alegre. Em 2001, no Instituto de Cidadania, ONG então presidida por Luiz Inácio Lula da Silva, formulou o Plano Nacional de Segurança Pública, que mais tarde seria apresentado à sociedade como o grande projeto do PT para o país nessa área. Em janeiro de 2003, Soares foi nomeado secretário nacional de Segurança Pública, função que ocupou até 21 de outubro daquele ano. Deixou o governo quando veio a público um dossiê apócrifo que o acusava de nepotismo.

Corrupção
(...) Basicamente ele [o "corruptólogo", ainda não-identificado] disse o seguinte: “Se você me permitir, posso montar um sistema adequado, sem qualquer risco. Seria possível levantar nesses nove meses de governo Benedita algo em torno de 80 a 100 milhões de reais. Você, nesse caso, ficaria com 5 milhões. Benedita, com 10. E eu com 1 milhão. Só preciso de duas ou três secretarias, algumas diretorias e outros cargos subordinados. (...) só disse que “havia um esquema”, ele usou exatamente essa expressão, era sabido amplamente no círculo dos que operam nessa área e que ele poderia aprimorar esse mecanismo. Saí desse encontro abalado, perturbado.”

A reportagem de O Globo de 01.03.2004 confirma algo neste sentido, só que no âmbito federal: "O relatório da investigação, iniciada em 2003, mostra que em diferentes momentos funcionários e ex-administradores da Caixa fizeram vista grossa para regras descumpridas, compactuaram com reajustes de preços desfavoráveis e quebraram regras operacionais da instituição. Pelo menos dez funcionários da CEF foram indicados pela sindicância como suspeitos de conivência com a Gtech." [original aqui]

AOL – Como se chama a pessoa que o senhor definiu como “corruptólogo”?
Soares – Não tornaria público esse nome porque não tenho provas. A conversa não foi gravada.

AOL – O que o senhor lhes disse exatamente?
Soares – Bom, eu lhes relatei o ocorrido, num encontro que tivemos em minha casa. Primeiro, alertei em relação ao personagem. Ressaltei que era necessário apurar o que ele dissera sobre Waldomiro. Falei que era preciso blindar nosso futuro governo contra essas tentativas de sedução corrupta. Enfim, compartilhei com eles essa preocupação.

AOL – Como eles reagiram? — Nota do editor: Eles eram três, que foram avisados por Soares: Marcelo Sereno [então representante da Direção Nacional do PT no Rio; depois nomeado secretário do gabinete de Benedita e atual assessor especial do ministro da  Casa Civil, José Dirceu], Manoel Severino dos Santos [então assessor da vice-governadoria; depois nomeado secretário de Articulação Governamental de Benedita e atual presidente da Casa da Moeda, órgão subordinado ao Ministério da Fazenda] e Val Carvalho [então assessor da vice-governadoria]
Soares – Naquele momento, a impressão que tive foi de indiferença. Foi apenas uma impressão, posso estar sendo injusto.

[Quando Soares falou para Benedita, em particular, sobre Waldomiro] “Luiz Eduardo, eu não agüento mais, cada um me traz um milhão de problemas. Vou ter que agora governar esse Estado do jeito que estou recebendo, não é possível que você também só me traga problemas, vou acabar explodindo, é um problema atrás do outro, todo mundo só reclama, e você, que deveria me ajudar, fica trazendo mais dor de cabeça”.

"Eleição no Rio era um teatro"
(...) Só compreendi a razão mais tarde, quando concluí que a eleição ao governo do Estado do Rio, em 2002, era um teatro. Benedita não estava proibida de vencer, é claro, mas estava constrangida a não realizar, logo que assumiu o governo, uma auditoria nas contas do Estado. Esta limitação foi negociada como condição para o apoio de Garotinho a Lula no segundo turno. Ocorre que, sem a auditoria, o colapso do Estado foi posto, pelos eleitores, na conta de Benedita, injustamente. Eu me insurgi contra isso, assim que percebi que, mais uma vez, o Rio de Janeiro estava sendo enganado, humilhado e sacrificado na bacia das almas.

Poderes acuados pelo Planalto
(...) nós estamos vivendo um momento muito difícil no Brasil e não quero ser cúmplice do comportamento que tenho visto com muita tristeza grassar no país, que é a pusilanimidade. Vivemos um momento crítico porque quase não há oposição no Brasil. O governo opera de tal modo que seus tentáculos autoritários estão, de fato, sufocando instrumentos democráticos fundamentais.

(...) Se o Ministério Público está acuado e a Justiça também, o Congresso está sendo submetido, com raras exceções, a um processo de clientelismo tradicional que o PT herdou das oligarquias brasileiras e aperfeiçoou, no pior sentido. Nada pior que o stalinismo para reproduzir com arrogância e mais radicalidade as práticas conservadoras da direita autoritária. Então, nós temos um Congresso submetido, o Ministério Público e a Justiça acuados e a mídia vivendo um momento de crise econômica grave, parte dela sabendo que precisa do governo para salvar-se, do ponto de vista financeiro.

Semelhanças com o PRI mexicano
(...) Isso está se evidenciando cada vez com mais clareza e se configura num quadro que tenho associado, desde novembro, ao partido mexicano, PRI, o Partido Revolucionário Institucional. O PRI ficou no poder por quase um século, brandindo bandeiras supostamente de esquerda, populares e nacionalistas, mas aplicando procedimentos e práticas conservadoras, clientelistas e fisiológicas, esmagando, por outro lado, a oposição e se reproduzindo no poder na medida em que se realizava como mero projeto de poder, simples instrumento de perpetuação do próprio poder, absolutamente vazio de conteúdo.  Ou seja, sem projeto para o país.

Sobre a grosseria do PT
(...) Mas me parece que isso [a Grosseria de Genoino, presidente do PT, com ele ultimamente] merece uma consideração política. A grosseria é o que restou a ele das convicções perdidas. Porque a convicção traz consigo a veemência. A veemência é a intensidade da crença no espírito daquele que acredita. Quando os valores e as convicções são abandonados, o que resta é a veemência, que se manifesta, na ausência de conteúdo, sob a forma de grosseria.

Segurança Pública
(...) A segurança pública é uma área que continua sendo marginalizada pelo governo federal. Os recursos foram contingenciados, contra todas as promessas publicamente assumidas, pelas quais eu mesmo me responsabilizei ao lado do ministro [da Justiça] Márcio Thomaz Bastos. Houve redução de recursos na previsão orçamentária para este ano. Por outro lado, a elevação do status da Secretaria, de modo a que esse órgão, ligando-se assim diretamente à Presidência da República, pudesse reunir sob o seu comando, como previa o Plano, as polícias Federal e Rodoviária Federal, traria mudanças inadiáveis na área da segurança.  Mas isso não foi realizado, traindo o compromisso que todos nós do PT, não só o presidente, assumimos com a sociedade.

(...) isso iria expor o presidente a riscos políticos, a desgastes constantes, pois a área da segurança é muito problemática. O argumento procede, é verdadeiro. No entanto, o objetivo desse argumento é a proteção do presidente da República, do ponto de vista político. Se a perspectiva fosse a proteção da sociedade, que sofre o problema cotidianamente, a conclusão seria oposta. Valeria a pena expor o presidente a um risco político, desde que o resultado pudesse ser a efetiva transformação nessa área. A sociedade merece esse sacrifício.

Mantida a esperança
(...) Gostaria ainda de assinalar que o meu substituto na Secretaria é um profissional honrado, sério e competente. Continuo torcendo, apesar de tudo, pelo êxito dele. Apesar dessa máquina clientelista e stalinista que se monta no país em torno do governo federal, não deixo de reconhecer a qualidade de muitos militantes e profissionais que continuam no PT e se expõem ao risco dessa cumplicidade, mas em nome ainda do sonho de mudança.

Acusações de "nepotismo"
O Ministro Waldir Pires [ministro-chefe da chefe da Controladoria Geral da União] se pronunciou a respeito, em minha defesa, no programa de televisão "Observatório da Imprensa", dirigido pelo jornalista Alberto Dines. Ele disse que existe nepotismo quando as razões pelas quais alguém é convocado a prestar uma consultoria ou algum serviço são pessoais, afetivas ou afetas ao interesse privado. Quando, ao contrário, alguém é convidado por razões profissionais de competência, não se configura, em absoluto, o nepotismo. O nepotismo não é uma realidade que  se verifica, simplesmente, observando-se as relações de quem convida com quem é convidado. O nepotismo é o juízo que se pode formular sobre as razões do convite, a procedência técnica do convite e sua legitimidade. (...) Se eu tivesse qualquer dúvida quanto à correção dos convites, por que os teria feito publicamente, no diário oficial? Por que não teria usado o recurso, que é tão freqüente, a interpostas pessoas ou à mediação de outros órgãos do governo?

(...) Pedi para sair porque setores do próprio governo vazavam para a imprensa essas acusações com o evidente propósito de me desmoralizar. Quando percebi que era esse o nível da luta interna entre posições divergentes no seio do próprio governo, compreendi que não havia mais futuro na luta interna. A luta interna no governo e no PT, com todo respeito aos que ainda acreditam nela, eu considero fatura liquidada. Estou absolutamente convencido disso.

E assim termina a entrevista
Vi a derrota definitiva de alguns setores que tinham algum compromisso com valores distintos.  Hoje, convivem o conservadorismo sócio-econômico com o desprezo olímpico aos temas que denomino civilizatórios, como o meio-ambiente, a questão das drogas, a questão indígena, a questão dos negros e das mulheres e a questão da juventude excluída e da segurança pública, abordada do ponto de vista dos direitos humanos.  Sobretudo, como na perspectiva stalinista os fins justificam os meios, as pessoas, sua dignidade e o respeito que merecem, perderam importância ante as conveniências de ocasião.  E os velhos métodos da política mais tradicional brasileira continuam dando as cartas.

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Aldo Rebelo: "Fatos novos"

Gustavo Barreto, 1 de março, 2004


Nesta segunda (01) o jornal Valor Econômico publica entrevista com o ministro Aldo Rebelo (PCdoB), da Coordenação Política. Entre outras, ressalta a importância de ACM e Sarney para o governo, "que não é de esquerda, é de coalizão".

O eixo da reportagem de Maria Lúcia Delgado, Rosângela Bittar e Taciana Collet é, logo se vê, colaborativo. Começa dizendo que o ministro "terá difícil tarefa de auxiliar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a desarmar a primeira grande crise política do governo petista". Não se trata — como meu senso ético me faz pensar — de descobrir tudo o que foi feito de ilícito entre assessores do governo Lula. Ao contrário, prioridade é "desarmar" a crise política — que nada mais é do que mais um caso de corrupção. Por ter envolvido o PT, de forma inédita, no governo federal, não obteve apoio do Planalto Central por uma CPI.

Sobre ACM: "Oficialmente não integra a base aliada, é do PFL. Agora, dentro do PFL, o senador tem buscado sempre que possível apoiar medidas de governo que são medidas de interesse do país. O PSDB também apoiou propostas do governo na Câmara. As reformas tributária e previdenciária receberam votos de muitos parlamentares do PSDB e do PFL"

Sobre Sarney: "Nós avaliamos que Sarney foi um presidente da República que teve um papel fundamental ainda hoje subestimado na história do país". Rebelo avalia que foi o governo Sarney que legalizou o partido comunista, a União Nacional dos Estudantes, as centrais sindicais e restabeleceu o convívio democrático no país".

Nada de ponderações. Falar dos retrocessos que foram, em grande parte, conhecidos em suas fontes por meio do próprio PT e do PCdoB, nem uma palavra. Não apenas a família Sarney representou grande atraso em décadas anteriores — não se trata de revanchismo — como mantém em suas mãos o Estado mais miserável do país, cuja única liderança percebida é a da falência dos programas sociais, ano após ano.

O jornal pergunta o seguinte, lá no final: "A MP dos Bingos, uma prioridade agora, proíbe o jogo; cinco dias antes de enviá-la, o governo mandou mensagem ao Congresso em que propunha a legalização dos bingos. Não são orientações opostas em espaço curtíssimo?"

Rebelo responde com uma metáfora: "Você tem um filho e permite que ele vá a uma festa. Aí, de repente, uma outra mãe liga e diz que soube que a festa pode oferecer algum risco. Então você muda de opinião e diz ao filho que ele não pode mais ir à festa".

Se você — pai e mãe preocupado(a) com o futuro dos seus filhos — concorda com isso, então o ministro pensa que você deve concordar com a repentina mudança de posição sobre esta questão. Segundo Rebelo, o governo era como um pai desinformado. Do auge de sua inocência — "nós só queremos o melhor para você" — "não perceberam" a conexão que os bingos tinham com o mundo do crime.

Houve pressão do "governo de coalizão": "Havia no governo ministros que achavam que os bingos podiam ser legalizados. A mensagem ao Congresso é mais ou menos a soma de todos os programas e intenções de todas as áreas do governo".

Somente agora — puxa vida! — perceberam que os bingos eram perigosos, porque antes isto não estava muito claro: "Com a denúncia, as evidências foram no sentido de que os bingos oferecem riscos, por sua interface com a contravenção, lavagem de dinheiro, ilegalidade. A partir desses fatos novos, o governo resolveu editar a MP".

Como deixou claro o antropólogo, ex-vice na chapa de Benedita e ex-secretário nacional de Segurança Pública, Luiz Eduardo Soares, há muito a cúpula do PT — Dirceu, Palocci e outros coordenadores de campanha — já sabia do envolvimento suspeito não só de Waldomiro, mas de outros que ainda aparecerão ao longo da CPI.

Rebelo defende-se dizendo que "provocados, agimos imediatamente, na mesma manhã em que tomamos conhecimento das denúncias". A ética do PT, ao que parece, necessita dos holofotes da mídia. Dirceu, Lula e Palocci não sentem culpa de nada. Sentem vergonha. Necessitam do olhar externo para tomarem atitudes enérgicas.

"Rouba, mas seja discreto."

As perguntas não foram ruins, apesar do eixo um pouco amigável. De fato, mesmo as perguntas mais óbvias e corretas de se fazer — muitas delas utilizadas pelos jornalistas — não são possíveis de serem respondidas. Algumas coisas fala por si só:

Valor: A contração do PIB em 0,2% no ano passado ainda mantém a expectativa de crescimento?

Rebelo: O governo enviou o Orçamento deste ano ao Congresso com a projeção de crescimento de 3,5% do PIB. O Congresso refez o Orçamento projetando 4% do PIB. O governo adotou uma atitude de cautela reafirmando a projeção de receitas para os 3,5% de crescimento. Claro que torcemos para um crescimento maior, mas trabalhamos na conta mais conservadora.

Você enxergou a resposta? Rebelo criou, nas duas primeiras linhas, um tema (a projeção que o governo fez). Nas outras duas linhas, com incrível agilidade e nenhum argumento, respondeu sua própria pergunta, afirmando que o governo é cauteloso — "austero", diriam — mantendo a projeção em 3,5%.

O repórter, ora bolas, perguntou se isso era mantido mesmo que a contração do PIB. Houve menção a isso? Esta é uma pergunta importante, não só pela análise do discurso, mas principalmente porque o eixo central da política econômica é o crescimento do PIB a 3,5%. No mínimo. E se não acontecer? Nova retórica? Até quando?

O interessante é que Rebelo parece estar completamente fora da realidade ao falar do caso da corrupção. Waldomiro era funcionário de um governo petista — Benedita da Silva — que viria se tornar ministra de Estado da área (a social) cuja bandeira o PT sempre defendeu historicamente. Nomeado pelo PL, sim, porém com total conivência das administrações de Anthony Garotinho (ex-PSB) e Benedita. Essa relação estava clara para alguns analistas políticos na época e, agora, fica evidente com as primeiras provas. [veja novamente a entrevista de Luiz Eduardo Soares]

Mas, mesmo com farta prova e outras pipocando em Brasília, Rebelo afirma: "Primeiro que não estourou nenhum caso de corrupção no governo do PT. A denúncia se refere a um episódio ocorrido no Rio de Janeiro, quando Lula ainda era candidato à eleição presidencial".
 


Valor Econômico: "O Governo não é de esquerda. É de coalizão".[01/03/2004]


Nota do editor
Diante da perplexidade diante dos fatos e destruição de valores simbólicos de ética política, começa a construção de uma oposição, na segunda tentativa de colocar um governo de esquerda, o primeiro em 506 anos de História.

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Waldomiro era pago pelos bingos, revela Soares

Luciana Nunes Leal, 28 de fevereiro, 2004
Jornal O Estado de S. Paulo


O ex-secretário nacional de Segurança Pública Luiz Eduardo Soares será chamado pela Polícia Federal do Rio para detalhar todas as informações que tem sobre o suposto envolvimento do ex-assessor do Palácio do Planalto Waldomiro Diniz em um esquema de arrecadação de propina dos bingos, no período em que presidiu a Loteria do Rio de Janeiro (Loterj). Soares disse ontem, em entrevista ao site AOL (America Online), que, em 2002, foi informado de que Waldomiro Diniz recebia R$ 300 mil reais por mês em propinas pagas pelos bingos do Rio.

Responsável pela investigação de irregularidades em 21 bingos do Rio, o delegado da Polícia Federal Herbert Reis Mesquita explicou que quer ouvir Luiz Eduardo Soares para, na hipótese de ele confirmar as declarações, novas denúncias contra Waldomiro possam ser formalizadas. Waldomiro está sendo investigado por corrupção, prevaricação e concussão no inquérito conduzido por Mesquita.

Soares era candidato a vice-governador na chapa da governadora Benedita da Silva (PT), que tentava a reeleição, em 2002. Ele disse ter alertado o então coordenador da campanha presidencial do PT, Antônio Palocci (atual ministro da Fazenda) e o atual secretário-geral da Presidência, Luiz Dulci, sobre os episódios que envolviam Waldomiro. Revela ainda ter contado o fato também a Benedita da Silva. Segundo o ex-secretário, ela chorou muito mas não afastou Waldomiro da presidência da Loterj, onde atuava desde fevereiro de 2001, no governo de Anthony Garotinho.

Na longa entrevista, dada ao jornalista Kaíke Nanne, Luiz Eduardo Soares disse ter sido procurado por um homem que propôs montar um esquema de recebimento de propina que seria mais eficiente do que o montado por Waldomiro na Loterj, pelo qual Soares ficaria com R$ 5 milhões, Benedita com R$ 10 milhões e ele, o corruptor, com R$ 1 milhão. Soares repete as palavras que ouviu do interlocutor: "Veja, por exemplo, o Waldomiro Diniz. Ele está aqui num esquema, levantando 300 mil reais por mês dos bingos. Está sendo incompetente. É possível chegar a 500 mil, quem sabe. Dá para produzir mais."

Sacrifício
Segundo Soares, a direção nacional petista tinha um acordo de sacrificar a campanha de Benedita da Silva, em troca do apoio de Garotinho a Lula no segundo turno da eleição presidencial. Ele conta, ainda, que esteve com o atual ministro da Casa Civil, José Dirceu, na época presidente do PT, durante uma reunião de Lula com intelectuais e artistas no Rio. Segundo o ex-secretário, Dirceu reclamou por Soares estar "criando dificuldades" para a campanha de Benedita. "Sentamos lado a lado, na primeira fila. Nós nos conhecíamos muito superficialmente, então nos cumprimentamos formalmente e ele me dirigiu poucas frases: 'Soube que você anda criando dificuldades para nós no Rio de Janeiro'. Eu apenas disse: 'As coisas estão muito complicadas.' Ele respondeu: 'Nosso papel é descomplicar.' Eu disse: 'Às vezes, não é possível.' E a conversa parou aí."

Soares não revela a identidade do homem que fez as acusações a Waldomiro. Diz que o interlocutor ofereceu-se para organizar um esquema que renderia "em torno de R$ 80 milhões a R$ 100 milhões" nos nove meses da administração de Benedita. Sobre o encontro com Palocci e Dulci, Soares disse ter revelado sua preocupação com possíveis esquemas de corrupção no governo do Estado, sem citar Waldomiro Diniz. O nome de outro assessor de José Dirceu surgiu na conversa. "Manifestei minha preocupação com os boatos que corriam em relação a procedimentos escusos. Dei um alerta", afirmou na entrevista. Soares diz que Palocci e Dulci "não manifestaram nenhuma reação em particular" e que entendeu a reação de ambos como "uma manifestação de solidariedade, de preocupação".

Alijado
Os primeiros petistas a serem alertados, segundo Soares, sobre as denúncias contra Waldomiro Diniz, foram três coordenadores da campanha de Benedita da Silva: Marcelo Sereno, que hoje é chefe de gabinete do ministro da Casa Civil, José Dirceu, Manoel Severino (atual presidente da Casa da Moeda) e Val Carvalho. O ex-secretário diz que, a partir deste momento, foi alijado da campanha eleitoral, embora fosse candidato a vice-governador.

Sobre o "corruptólogo"
Eu e esse senhor fomos tomar um café no bar. Ele me pareceu uma espécie de 'corruptólogo', um estudioso das possibilidades de corrupção na máquina do Estado do Rio. Descrevia com precisão, fluência e até uma certa sofisticação a rede de mecanismos que poderia ser acionada para drenar recursos públicos de forma discreta, sem suscitar suspeitas. 

Sobre a proposta
Ele (o interlocutor, não identificado) disse o seguinte: 'Se você me permitir, posso montar um sistema adequado, sem qualquer risco. Seria possível levantar nesses nove meses de governo Benedita (em 2002, no Rio) algo em torno de R$ 80 milhões a R$ 100 milhões.

Sobre Waldomiro
Ele disse o seguinte: "Veja por exemplo, o Waldomiro Diniz. Ele está aqui num esquema, levantando R$ 300 mil por mês dos bingos. Ele está sendo incompetente. É possível chegar a R$ 500 mil, quem sabe. Dá pra produzir mais." Saí desse encontro abalado, perturbado.

Sobre reações no PT
Ressaltei (a assessores de Benedita) que era necessário apurar o que ele dissera sobre Waldomiro. Falei que era preciso blindar nosso futuro governo contra essas tentativas de sedução corrupta. (...) A impressão que tive foi de indiferença.

Com Benedita
Eu disse: "Não tenho segurança de que tenha acontecido corrupção, mas já que você o está mantendo, quero saber se houve alguma apuração." Benedita ficou extremamente irritada, chegou a chorar. Disse: "(...) é um problema atrás do outro, e você, que deveria me ajudar, fica trazendo mais dor de cabeça".

Sobre campanha no Rio
Benedita não estava proibida de vencer (em 2002), mas estava constrangida a não realizar uma auditoria nas contas do Estado. Essa limitação foi negociada como condição para o apoio de Anthony Garotinho a Lula no segundo turno.

Sobre o governo Lula
O governo opera de tal modo que seus tentáculos autoritários estão, de fato, sufocando instrumentos democráticos fundamentais. O Ministério Público está acuado. Há uma investida forte no Congresso, com apoio do governo, para que se proíba a investigação criminal. Se castrarmos o Ministério Público, vamos capitular diante do crime.


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Leia nesta página

I. Palocci e Benedita foram alertados sobre esquemas do PT no Rio

II. Aldo Rebelo: "Fatos novos" — análise da entrevista do ministro para o jornal Valor Econômico

III. Waldomiro era pago pelos bingos, revela Soares — notícia do OESP