O dilema de Tostines
Rodrigo de Almeida, 22 de fevereiro, 2004
Alguns economistas custam a crer, com razão, que esse modelo agüenta reduções sustentáveis nos juros. Uma mexida aqui, outra mais adiante, e nada mais. Recuos - sutis ou não - acabarão por vir. Isso porque esse modelo meteu o país numa busca desenfreada da governabilidade. Não a governabilidade necessária a qualquer gestão eficiente, mas a governabilidade pela governabilidade. Sem plano de vôo, sem visão de longo prazo, essa busca reduz-se a si mesma. Um exemplo? O Brasil entrou 2004 ouvindo Palocci, Meirelles & Cia afirmarem que o dragão da maldade fora vencido. O santo guerreiro governamental recuperara, enfim, a credibilidade frente ao ''mercado'', a inflação fora domada, as ''reformas'', aprovadas com sucesso, e o país, finalmente, criara as ''condições para entrar num círculo virtuoso de crescimento''. Passados os primeiros 20 dias do ano, uma reunião do Copom, do Banco Central, alertava para aquilo que depois, na sua ata, tentou-se dizer sem dizer: a ameaça da inflação rondava os espíritos econômicos. A expansão estava chegando. Esta semana, a postura cautelosa se repetiu. O problema é que, na visão do BC, mantido o atual ritmo de expansão, no fim do ano se poderá bater no limite do crescimento sem riscos. Mesmo que à luz da redução da renda, da expansão - essa, sim, sustentada - do desemprego, da manutenção da capacidade ociosa da indústria em níveis elevados. Com esse modelo, haverá sempre algum freio mais adiante. A ''credibilidade'' conquistada poderá entrar em ruína em uma manhã da Bolsa. Basta alguma mínima sinalização do governo ''pouco digna'' dessa ''credibilidade''. Enquanto isso, a energia empresarial de uma geração inteira vem sendo desperdiçada por juros estratosféricos, crédito escasso e tributos pesados. E o vigor do setor público, suas iniciativas e seus investimentos, solenemente arrefecidos pela busca incessante de superávits fiscais primários. O resultado é a decadência da infra-estrutura pública e o funcionamento precário de todas as áreas em que a ação do Estado é essencial. Curioso, este país. Movido pelo canto da sereia da comunidade financeira internacional, está se impondo a credibilidade pela credibilidade. É louvável que o ministro Palocci anuncie a decisão de o Brasil ''ser um país arrumado, com equilíbrio fiscal de longo prazo''. Mas, como alertou o economista Paulo Nogueira Batista Jr., se depender do pessoal que comanda a Fazenda e o Banco Central, com um olho no mercado financeiro e outro no FMI, o Brasil não passará disto: ''Um país talvez um pouco mais arrumado, mas sem vigor e vitalidade, acumulando resultados pífios e vegetando na mediocridade''. O único vigor, acrescente-se, será o já conhecido padrão tucano de governar: frente ao menor sinal de turbulência nos mercados financeiros, o governo se apavora. Corta orçamentos, desanca os investimentos em saúde e infra-estrutura e promete de pés juntos um bom comportamento. Sem aventuras, como diz o presidente. Sem invenções, como diz seu ministro da Fazenda. De boas intenções, porém - alertava São Bernardo -, o inferno está cheio. É preciso, pois, mais
política na condução da economia. Equivoca-se quem
crê no mito da supremacia técnica de uma burocracia encastelada,
supostamente livre e independente das pressões políticas.
Isso é reduzir a já debilitada dimensão republicana
de nossa democracia, impedir o controle - ou, para quem gosta de pensar
em inglês, a accountability - dos governantes pela sociedade que
os levou ao poder. Também se engana quem acredita que qualquer outro
caminho é pura aventura irresponsável. Isso é instaurar
a democracia do pensamento único, tão comum aos tucanos e,
agora, pelo visto, também aos petistas. E assim vamos em frente,
sem resolver nosso dilema de Tostines.
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