O candidato do ketchup
Verissimo, O Globo
Nada está definido no campo Democrata, no entanto, e dizem que o maior defeito de Kerry — senador, herói da guerra do Vietnã e depois líder de um movimento de veteranos contra a guerra — é não ter o cérebro no queixo, onde haveria mais lugar. Seu pensamento é lento e seus discursos são notoriamente chatos. Seus maiores trunfos são ter as mesmas iniciais e a mesma base política (Boston) do John Fitzgerald Kennedy e, com o dinheiro do ketchup, poder pagar a dívida nacional do próprio bolso. Kerry é mais centrista (na medida em que estas graduações têm sentido na política americana) do que Howard Dean, outro que estava pintando, à esquerda. Como o único dos candidatos Democratas que tinha uma ligação mais forte com o trabalhismo organizado, Gephardt, já caiu fora, Kerry agora é o favorito dos sindicatos. Que têm relativamente pouca força política, nos Estados Unidos (segundo o folclore, o sonho de todo trabalhador americano é um dia ser um Republicano), mas cujo endosso todos cortejam. Os sindicatos americanos querem tudo que nós não queremos, como tarifas protecionistas para garantir seus empregos, e tudo que nós também queremos mas pelas razões erradas, como direitos e salários iguais aos deles para trabalhadores do resto do mundo, que assim não seriam mais baratos do que os americanos. Manter uma mão-de-obra miserável e desassistida é a única credencial dos pobres para sentar na mesa dos ricos e pegar alguma sobra da globalização. Quer dizer, querem nos ferrar! Portanto, fora o fato de que a derrota do Bush por qualquer um faria bem à saúde de todo o mundo e a dona Teresa e dona Marisa poderiam conversar na mesma língua, Kerry presidente não nos convém muito. A grande novidade, até agora, das eleições primárias, onde de acordo com a votação de cada pretendente define-se o voto da delegação do estado que irá à convenção do partido escolher o candidato, é o número de eleitores que têm aparecido. Os Democratas estão mobilizados como nunca. E isso com todo aquele frio.
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