Quem mandou acreditar?
Milton Temer, 4 de fevereiro, 2004


O ''mercado'' entrou em parafuso desde a semana passada. E com ele, todos os analistas encantados com a continuidade da política macroeconômica tucana ao longo do primeiro ano do governo Lula. Não é preciso enumerá-los (as). São fartamente conhecidos (as) pelo ufanismo em torno de tudo o que ponha fim a conquistas sociais, a patrimônio público e a controle de capitais especulativos.

Mas, afinal, por que tal reviravolta? C-bonds em alta, risco Brasil em baixa, dólar nos trinques; não estava indo tudo às mil maravilhas?

Estaria, não fosse bastante volúvel a capacidade de decisão subjetiva das mal-afamadas agências de auditoria, com respeito a índices econômicos virtuais que só interessam aos cassinos da especulação. Danem-se os burocratas da Fazenda se cumpriram todas as exigências do FMI, mantendo, sem tentativa de renegociação, o fluxo de pagamento aos ''credores internacionais''. Uma banana para o fato de o setor público ter, para isso, economizado R$ 66 bi, em 2003, consolidando um superávit fiscal de 4,32% do PIB, bem maior do que os 4,25% acertados pela subalternidade de nossos negociadores. O FMI só havia exigido 3,75%.

Mas como a agiotagem internacional tinha a receber R$ 145 bilhões por conta dos juros e serviços de nossa ''inegociável dívida'', o que esse esforço dantesco representou em termos práticos? No concreto, mais problemas: um aumento de R$ 32 bilhões em nossos débitos, em função dos empréstimos necessários à complementação do total a pagar. Ou seja, no cruzamento da política de juros altos com a construção de superávits recessivos exagerados, paralisantes de nossa economia, destruidores de nossos serviços essenciais e de nossos postos de trabalho, a dívida líquida do setor público se elevou a mais de R$ 900 bilhões. Com isso, foi posta a nu a inevitável degeneração da economia real, colocando dúvidas sobre a correção do ''caminho único'', ''responsável'', até mesmo entre os que nos impuseram tais valores como irretorquíveis.

Daí, a piração do mercado. Não vou repetir as seguidas citações da Argentina, que nos dá banho aqui ao lado, com muito menos recursos do que nós, no enfrentamento de problemas semelhantes. Vou à excelente reportagem sobre a Índia, apresentada pela Globonews, em altas horas da noite do domingo. Para além de não produzir superávits fiscais - assim como os Estados Unidos, a Índia conservadora, com a esquerda na oposição, opera no déficit -, os juros estão em 4% ao ano, sem que a inflação passe dos 3%. O que dinamita todos os argumentos dos que defendem nossa ortodoxia como fator de estabilidade.

Resumo da ópera. Ao mesmo tempo em que o presidente Lula circula pelos mais extravagantes pontos turísticos do globo, pregando o ''combate à fome mundial'', seu governo aporta mais uma importante parcela de pantagruélicos lucros ao sistema financeiro privado internacional, e a seus cúmplices tupiniquins. E presta contribuição significativa ao financiamento das economias dos países desenvolvidos. Essa dinheirama dos juros, mais os lucros e dividendos dos grandes especuladores, remetidos sem tributação para suas matrizes, são itens fundamentais do processo de concentração incessante de riquezas, aqui e no mundo, à custa da deterioração crescente das condições de vida do assalariado brasileiro, e de nosso já gigantesco exército de desempregados.

Porque é evidente que esse dinheiro não foi cortado de rubricas do interesse direto do gabinete presidencial, e de seus novos aliados. É das áreas sociais - orçamento da saúde, da educação, da infra-estrutura, da reforma agrária e até do Fome Zero - que o dinheiro foi suprimido.

No meio do túnel, entretanto, parece haver uma vela acesa. Já não se consegue ocultar o crescente desconforto de parte do chamado núcleo duro com tal estado de coisas. Uma parte que guardou silêncio tático, por conta dos acordos ''pacificadores'' com o grande capital, certamente encaminhados pelo próprio Lula, todo dia diz e desdiz alguma coisa que incomoda os yuppies da Fazenda e do Banco Central.

Que seus passados de lutas prevaleçam sobre o presente de deslumbramento palaciano, reacendendo ousadias, são os votos dos que ainda crêem que ''um outro Brasil é possível''.
 


Milton Temer é jornalista e escreve no Jornal do Brasil às quartas-feiras.


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