Novo partido de esquerda.
Há espaço?
Milton Temer, 28 de janeiro, 2004
Por conta da pantomima, passou batida a intocabilidade da área econômica, vetor determinante dos rumos de governo. E o que ocorreu nessa frente, para além de não apontar nenhuma modificação dos agentes, só reafirmou a manutenção da perversa subalternidade à predadora agiotagem internacional, imposta à nação pelos burocratas que infestam o Ministério da Fazenda. A decisão do Copom, por exemplo. De que forma pode ser entendida, senão como afirmação, no atropelo da lei, da absoluta autonomia do Banco Central em relação aos paradigmas do próprio governo que o presidente Lula não cessa de anunciar? Só como birra de poderoso, diante de comentários que a redução da taxa Selic, em dezembro, teria sido produto de pressão palaciana. E tome uma manutenção de 16,5%, recorde mundial para juros dos títulos de governos, desnecessária, para deixar claro quem manda no terreiro. O ministro José Dirceu tenta reparar o estrago. Anuncia a redução para 12,5% ao longo de 2004. Que ninguém, evidentemente, leva a sério, a não ser que vejamos os yuppies da Fazenda peitando o FMI, esporte decididamente fora de suas preferências. Portanto, estamos diante de tragédia anunciada, impossível de ser contida. Pois a lógica macroeconômica dos burocratas conservadores do Banco Central não é imposta sem anuência do Planalto. Que se dane a vida, o que importa é o ''mercado'' em festa. ''Recuperamos a credibilidade dos investidores internacionais. Valeu o sacrifício, porque agora o crescimento virá. E com ele, a criação de empregos.'' Não foi mais ou menos o que, fundado nos índices da economia virtual, o presidente Luiz Inácio divulgou na despedida de 2003? E, no entanto, de que adianta ver cair o ''risco Brasil'', se tal derrubada vem acompanhada pela elevação do desemprego médio e da queda de rendimento dos assalariados? Adianta, se quisermos comprovar que existe uma relação de causa e efeito entre o que é bom para o ''mercado'' e o que é ruim para a vida real. Mas não adianta nada para o país. Porque em termos de investimentos estrangeiros - o que seria absolutamente natural ver crescer, em função do oba-oba incessante à guinada doutrinária do PT no governo -, também não nos demos nada bem. Segundo o próprio Banco Central, o Brasil recebeu US$ 10,144 bilhões no ano passado, o pior resultado desde 1995, a anos-luz dos US$ 16 bilhões esperados inicialmente pelo governo. Em contrapartida, no recurso à agiotagem internacional, governo e setor privado foram buscar US$ 23 bilhões, segundo o mesmo BC. Exatos US$ 4,5 bilhões a mais do que em 2002. Ou seja, a política recessiva de juros só é eficaz no combate à inflação porque desativa o mercado interno, com consequência imediata: a demolição do nosso parque industrial. Como resultante, fuga de investimentos, que só vão onde existe consumo. Tudo isto, é claro, pouco interessa aos grandes banqueiros internacionais, e a seus parceiros tupiniquins. Não é no crédito ao setor produtivo que realizam seus incessantes lucros pantagruélicos, mas sim na especulação, sem risco, com os títulos do governo. Enquanto isso, vale lembrar. A Argentina, com o mais baixo nível de juros de sua história, registrou crescimento próximo a 10% em 2003. Superou os 9,1% da China, os 8,4% da Índia e os 5,7% da Rússia. E sem abdicar de enfrentar o FMI. Kirchner já anunciou que não se submeterá a exigências restritivas ou recessivas para ter liberada parcela já acordada, com o que pagará débito de setembro. Não liberam? A Argentina também não paga. Nós, segundo Meirelles, em declaração feita em Davos, apenas ''contratamos'' uma perspectiva de crescimento, ora, quase no zero. O que isso quer dizer? Nada. Continuamos no atoleiro porque continuaremos cedendo a tudo o que o FMI impõe. Para gáudio dos banqueiros. Neste cenário, fica a pergunta. Não é premente a organização de um novo partido de esquerda, com a identidade socialista e democrática de que o PT abriu mão? Porque, se isto não ocorrer, antes de 2006, quem contestará o populismo conservador que dominará a campanha pela sucessão presidencial?
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