Queimando pela borda
Milton Temer, 18 de fevereiro, 2004
O inimaginável é que pudesse se tornar alvo fácil de tão grotesca e primária arapongagem, abrindo espaço para inevitável conjectura. Se agia com tal voracidade numa empresa lotérica estadual, quem garante ter suspendido a prática no novo e privilegiado espaço que passou a ocupar? Estão no ar, não há dúvida, algumas questões cruciais. A primeira diz respeito ao próprio José Dirceu. Como alguém com seu grau de visibilidade e experiência abre a guarda dessa forma, dando tanto poder a representante visto com reservas por todos? Falha inexplicável? Difícil responder. Mas o mais grave é constatar que há comentários de corredores sobre o fato de Waldomiro não ser o único espécime de agentes das sombras. Há outros que sequer guardam a mesma discrição, insinuando ter cobertura do ministro nas fábulas que prometem em acordos eleitorais, consolidados aqui e ali. E acordo eleitoral não é tema secreto para ninguém. Principalmente quando envolve cifras. Evidentemente, se tais assessores entram na linha de tiro de investigações do Ministério Público e de requerimentos de informação de senadores da oposição, como foi o caso de Waldomiro, o responsável se carimba, no mínimo, como inepto, se não toma medidas corretivas imediatas. Dito isso, a segunda questão é elementar, meu caro Watson. Ninguém gasta munição para dinamitar nome de linha auxiliar do governo por ato criminoso cometido em 2002. Se não há espólio em disputa, o alvo real só pode ser o atual superior hierárquico. Ou seja, tal ataque vem de quem está interessado em tirar José Dirceu da frente. Mas aí entra a terceira questão. Tudo isso apenas por preocupação com a probidade administrativa? Certamente que não. Essa retaliação é contra acordo rompido. Ou contra grandes interesses prejudicados. E, por aí, quero laborar com o benefício da dúvida para considerar que é algo no campo da grande política. Na disputa das movimentações táticas e da definição dos objetivos estratégicos de governo. É conspiração de agentes do grande capital, sempre prestes a entrar em tensão pré-menstrual diante de qualquer ameaça a seus lucros escandalosos. Esses senhores, neste momento, podem já não estar vendo em José Dirceu um aliado confiável, por conta dos indícios de resistência contra a manutenção das inaceitáveis prioridades macroeconômicas atuais. Prioridades que acumulam lucros estratosféricos, sobretudo para os que especulam com títulos do governo. Dirceu surpreendeu com a declaração recente sobre a autonomia do Banco Central, cláusula pétrea do acordo eleitoral que levou Henrique Meirelles à presidência da instituição. Afirmou não ser questão prioritária da pauta do Congresso, pelo menos neste ano de eleições. Declaração imediatamente contestada, em tom melífluo como sempre, mas sem hesitação, por Antonio Palocci, o enfant gâté da ''mão invisível'' do predatório ''mercado''. Resumo da ópera: no balanço de perdas e ganhos, José Dirceu está no limbo. Palocci continua nos tapetes vermelhos. Resta saber o que o próprio Planalto tem a ver com tudo isso. No dia em que a boataria soava mais forte em Brasília quanto ao que surgiria na revista Época, Lula dava entrevista a um grupo de jornalistas. Entrevista onde detalhava o que anseia para seu governo: manutenção de recessivos superávits fiscais, da ''credibilidade'', para além da total desregulamentação das leis trabalhistas. Tudo no receituário dos grandes banqueiros. E onde anunciava a necessidade da fusão do PT com o PSDB, como forma de tornar nosso cenário partidário semelhante ao norte-americano. Um partido do ''nada'' e outro do ''coisa nenhuma'', do ponto de vista ideológico. ''Bebeu vinho demais'', foi o que de melhor encontrou o presidente da CUT para qualificar a síntese. Para tal guinada se tornar irreversível, definitiva, não seria bom que José Dirceu fosse fritado no fim de semana? Pode ser erro de interpretação.
Mas, se não for?
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