Transformar a indignação em atos globais
Emir Sader, Jornal do Brasil, 8 de fevereiro, 2004


''Este nosso movimento precisa de uma grande vitória, de uma vitória global''. A frase, da escritora indiana Arundhati Roy, no discurso de abertura do IV Fórum Social Mundial, recentemente realizado em Mumbai, aponta para um sentimento crescente e já majoritário: o de que os Fóruns Sociais Mundiais giram sobre si mesmos, como extraordinários espaços de reunião de todos os que se opõem à globalização neoliberal, e de intercâmbio de experiências, mas sem capacidade de formular alternativas globais e partir para a construção do ''outro mundo possível''.

Não basta ser o que o New York Times chamou de ''a outra superpotência'', no momento das maiores manifestações contra a guerra do Iraque, que ainda assim não conseguiram impedi-la. ''Não basta ter razão'', diz Arundhati, ''é importante ter algum triunfo''. É necessário demonstrar que a razão e a força moral podem se transformar em capacidade material de mudar as coisas no mundo.

Para isso não é necessário ter unanimidade, bastam algumas concordâncias, ter uma ''agenda mínima''. Essa agenda mínima é a que une todos os que se reúnem nos Fóruns Sociais Mundiais, regionais, nacionais e temáticos: a luta contra o neoliberalismo e contra a hegemonia imperial no mundo. Arundhati propõe que a ocupação do Iraque seja a inspiradora dessa agenda, que seria a culminação daqueles dois temas. Para isso, começar com algo pequeno. A questão não seria apoiar a resistência iraquiana contra a ocupação ou discutir de que exatamente é composta essa resistência, se de antigos agentes do Baath ou de islâmicos fundamentalistas.

Ela propõe a construção uma resistência global à ocupação, que comece não aceitando a legitimidade da ocupação norte-americana do Iraque, o que deverá se traduzir em tornar materialmente impossível para o império realizar seus objetivos. Significa que os soldados deveriam se recusar a lutar, os reservistas deveriam se recusar a servir o exército, os trabalhadores deveriam se recusar a carregar os navios e os aviões com armas.

Arundhati propõe também que se definam duas das maiores corporações que estão lucrando com a destruição do Iraque, e que se faça uma lista dos projetos em que elas estão envolvidas, localizando suas instalações em todas as cidades e em todos os países. Dever-se-iam fechar essas instalações, impedi-las de funcionar, valendo-se do conhecimento e da experiência coletivamente acumuladas.

Outras iniciativas similares, também discutidas na Índia, apontam para as mais de 150 bases militares norte-americanas no mundo como objetos possíveis de ações de repúdio.

A escritora da Índia tenta responder a uma necessidade real do movimento por uma outra globalização. Apesar da repercussão extraordinária no mundo, o Fórum Social Mundial não conseguiu formular uma alternativa global, que aponte para o que seja o mundo pós-neoliberal. Não conseguiu tampouco mudar coisas significativas no mundo, na direção de suas reivindicações, apesar de conseguir fazê-lo indiretamente em vários casos.

O Fórum Social Mundial volta a Porto Alegre, sua sede permanente, em 2005, com a obrigação de avançar em formulações políticas, estratégicas e de ter acumulado capacidade concreta de mobilização, mas também de triunfar em objetivos precisos. Para isso, precisa se livrar de definições estreitas e excludentes, como a das ONGs, que pretendem que o movimento agrupe apenas membros da ''sociedade civil'' - um conceito liberal que tem em comum com o neoliberalismo o repúdio a Estados, governos e partidos. O Fórum precisa trabalhar para a construção da resistência global a que se refere Arundhaty, sob o risco de, se não assumir esse caráter político mundial - inclusive aliando-se com governos e movimentos de governos, como a criação do G-20 e do novo Mercosul -, ficar como um espaço de manifestação do descontentamento em relação ao mundo tal qual ele é, mas incapaz de avançar para o ''outro mundo possível''.


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