Um plano, pelo amor de Deus
Clóvis Rossi, Folha de S. Paulo, 7 de fevereiro, 2004


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem: "Não temos um plano Lula, não temos um plano Palocci". Por fim, não há como discordar do presidente.

De fato, o Brasil não tem plano nenhum. Tem um receituário de manual que, em todos os países emergentes em que foi aplicado, ou fracassou redondamente, ou mostrou-se escandalosamente insuficiente para aquilo que é fundamental em qualquer política econômica: crescimento, emprego e renda.

Lula até admite que a credibilidade das "coisas" virá com crescimento e geração de empregos, mas ele acredita que tanto um como a outra virão graças à estabilidade.

Engano. A realidade mostra que a estabilidade, nos termos contratados pelo governo do PT, é a estabilidade dos cemitérios. A economia não se mexe, os salários andam para trás, o emprego mal se movimenta.
Ao contrário do que acredita o presidente, não se trata de opor "estabilidade" a uma "aventura descabida", uma segunda expressão que ele também usou ontem.

Se só houvesse esses dois caminhos, a estabilidade medíocre (e não assegurada de todo, como se tem visto nos últimos dias e se pode ver mais à frente nos termos do artigo de Luiz Carlos Mendonça de Barros nesta Folha) ou a "aventura descabida", então seria melhor fechar o barraco e fugir para algum lugar que, sem aventuras, tenha conseguido crescer, gerar empregos, aumentar a renda, reduzir a miséria e a desigualdade, as tarefas não cumpridas até agora pelo governo Lula.

Por incrível que possa parecer ao presidente e a seu ministro da Fazenda, há países assim.

O que não dá mais é para continuar repetindo a cantilena da paciência. Lula já nem pode mais repetir a medíocre metáfora da criança que leva nove meses para nascer, um ano para começar a andar etc.

O seu governo já passou dos nove meses, já passou de um ano, mas nem anda nem diz a que veio.


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